Tua

281 31 6
                                    

Se olhavam com a mesma expressão surpresa. Não estavam prontas para aquele encontro repentino. Mas sentiam seus corações vibrarem por ele.

Teu jeito rima com o meu

O tom albino da tua pele me contrasta

Meu toque até te escolheu

Pra te fazer casa

Aproximaram-se sem notar os passos, ficaram frente a frente e a pergunta escapou de ambos os lábios ao mesmo tempo: "O que tu faz aqui?". As respostas também foram ditas juntas. "Ia atrás de você" disse a mais velha; "Vim atrás de tu" foi o que falou a mais nova.

Meu bem, tu tem minha saudade

Minha verdade, meu querer

Então se deixa ser

Mais de mim ter

Mais de mim que já é, que já tem

Se encaravam sem acreditar no momento. Era surreal demais se encontrarem quando estavam ainda pensando no como iriam se encontrar. Teria sido o destino empurrando-as uma para a outra? Elas não sabiam, mas não conseguiam parar de se olhar.

Eu não me importaria

De dividir um colchão com você

Dar meu cabelo pra de nós tu encher

E me afogar no teu corpo metido a travesseiro

Não contestaria um pedido de carinho teu

Café mais amargo, tua toalha jogada no quarto

Nenhum traço do que é teu

Suas cabeças recheadas de lembranças, memórias dos momentos juntas, sorrisos e carinhos trocados, manias e detalhes da convivência passada que insistiam em se manterem vivos em suas mentes. Mas uma outra pergunta se fez presente e, como que em sincronia, outra vez elas a fizeram juntas: "Porque nunca tentou antes?"

Meu jeito rima com o teu

O tom de noite da tua pele me contrasta

Teu toque até me aprendeu

Em ti fiz minha casa

Havia angústia nas expressões e olhares agora. "Eu não conseguia. Disseram que nem teus pais te achavam mais" respondeu a mais alta baixando a cabeça e deixando os cachos lhe cobrirem o rosto. "Eu tentei, mas teus amigos disseram que tu não queria", falou a outra se dando conta de que haviam sido, realmente, impedidas de ter contato.

Meu bem tu tem minha saudade

Minha verdade, minhas canções

Então me deixa ser

Mais de ti ter

Mais de ti que já sou

Que me deu

A mais velha estendeu a mão tocando a mão da outra que ainda segurava o celular fazendo os olhares voltarem a mergulhar um no outro. Se deram conta de que haviam sido mantidas afastadas por terceiros. Perguntou porque veio e a outra respondeu que era porque precisava dizer que nunca quis nem nunca tentou esquecer.

Eu não me importaria

De dividir um colchão com você

Dar meu cabelo pra de nós tu encher

E me afogar no teu corpo metido a travesseiro

Não contestaria um pedido de carinho teu

Café mais amargo, tua toalha jogada no quarto

Nenhum traço do que é teu

Deram-se conta de que ainda sentiam as mesmas coisas. Aquele simples contato de mãos mostrava que os sentimentos ainda estavam lá dentro e queriam sair. Ela disse que também nunca quis esquecer e que nunca esqueceu nem por um instante.

Eu não me importaria

De dividir um colchão com você

Dar meu cabelo pra de nós tu encher

E me afogar no teu corpo metido a travesseiro

Não contestaria um pedido de carinho teu

Café mais amargo, tua toalha jogada no quarto

Nenhum traço do que é teu

Se entregaram aquele olhar e viram que aquele brilho de antes ainda estava lá dentro, no fundo, esperando para sair. Ainda havia amor. Ela contou que juntou dinheiro e saiu definitivamente de casa. Seu olhar transbordava esperança, a esperança de que ainda houvesse tempo para elas.

Tua toalha jogada no quarto

Nenhum traço do que é teu

Tua toalha jogada no quarto

A mão livre se ergueu até o rosto de pele clara, deslizou os dedos pela lateral do rosto até pousar a palma sobra a bochecha macia. "Ainda te amo", foi a verdade que escapou dos lábios da mais velha.


Esse SorrisoOnde histórias criam vida. Descubra agora