E ontem recebi minhas asas, e a primeira coisa que fiz foi voar até a janela dele. Já se passaram anos desde a ultima vez que estive ali, e meu estômago se revira, como se tivesse ganhado milhares de asas ao invés de apenas um par. E como sempre a janela estava aberta, envelhecida, mas ainda me esperando. Me aproximo, e espio de longe. Lá está ele. Sentado na antiga cadeira de balanço, lendo algum de seus livros de poesia. E para minha surpresa, ele não olha em direção da janela, como faria antes. Me aproximo com uma lentidão exagerada, sentindo o frio do vento contra minha pele. Será que ele me reconheceria? Será que se assustaria? Mesmo após anos consigo reconhece-lo, com seu cabelo loiro feito areia, e sua pele branca e marcada dos banhos de sol que tomou na adolescência, afim de se tornar mais moreno. Tudo em vão, e eu preferia assim. Gostava de observar as veias sobressaltarem sua pele. E mesmo olhando para o livro, eu conseguia ver seus olhos azuis, com um único ponto de luz na íris. Meu ponto de felicidade, eu dizia. Será que ele ainda estaria magoado? Ele tinha direito. Eu havia escolhido as asas, e precisava deixa-lo pra conseguir. E ele não entendeu na época, jurou me esquecer. Jurou não acreditar em mim. E nesses anos, eu tive que superar isso. Precisei acreditar em mim mesma, lembrar de mim mesma. E aqui estou eu, na janela daquele que me amou, e me negou asas. Me empoleiro na sacada, vendo minha sombra alcançar seu canto no quarto. Seus olhos alcançam a janela num salto. Como sempre faziam quando era surpreendido. E pela primeira vez eu não consegui ler seus olhos, suas feições. E o ponto brilhante não estava ali. E principalmente, ele não veio correndo até mim. Ele só está ali, imóvel. Eu me sento no chão da sacada. Observando seus detalhes adultos. A barba rala, e o cabelo maior. Tinha mais músculos. E marcas de cansaço. Visualizei a mim mesma. Desenvolvi o corpo de mulher. Mas meus olhos eram os mesmos, eu sabia. Minha pele morena estava mais brilhante do que na época. E meu cabelo negro e liso estava maior. Eu só cresci. Não mudei. Seus lábios se abrem numa tentativa de falar algo. E me tiram todos os pensamentos. Eu havia imaginado esse dia tantas vezes. E em todas ele era apenas ele.
-Você tem que ir embora-ele finalmente diz.
E minhas asas respondem antes que meu coração se junte. Elas não podiam ficar onde não eram bem vindas. Estou no ar, olhando naqueles olhos estranhos. Quando a porta ao seu lado se abre. E por ela entra uma criaturinha minúscula, e abraça ele. Ele retribui o abraço, de um jeito que faz meus olhos marejarem. Em seguida uma mulher esguia rompe para dentro do quarto, e abraça ele e a criaturinha. Ele acaricia o rosto da mulher. E olha pela janela, como se lembrasse que eu estava ali, de repente. E ali está, o brilho perto da íris. E eu sei que minha felicidade agora pertence a outra. Pelo jeito, fadas não são inesquecíveis como me disseram quando criança.
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Devaneios
ŞiirSão textos novos&antigos, super aleatórios, que eu geralmente escrevo após ler, ver ou sentir algo. São minhas respostas a questões apenas jogadas no ar, mas nunca pronunciadas. Vamos chamar de diário então!
