Revelações I

757 58 0
                                        

Bati no volante frustrada, acionando a buzina sem querer.

Maldito vidro blindado. Maldito trânsito caótico demais pra eu me arriscar perseguindo aquele carro. Maldito bom piloto que sumiu das minhas vistas antes de eu conseguir sinalizar pros meus seguranças irem atrás. Maldita seja a minha incapacidade de reagir a tempo de acabar com quem acabou comigo.

Porque eu não consegui matar ele? Por que eu neguei quando perguntaram no rádio se eu ainda queria que cuidassem disso? Porra, Hinata, tu devia ter estraçalhado aquele merda, feito ele virar uma massaroca ensanguentada, e não ter reparado no quanto ele ainda é bonito... MERDA!

Ele ainda tem a pachorra de me chamar sorrindo... Aquele desgraçado ainda mexe comigo, ele consegue a façanha de arrepiar locais do meu corpo esquecidos e acelerar meu peito tão desacostumado a esse calor.

— Merda! – bradei sob as buzinas irritantes dos condutores ignorantes sobre o caos causado por Naruto em mim.

Segui cantando pneu, ofegando o desespero de não ser tão indiferente a ele quanto jurei ser.

Deslizei a mão pelo rosto, arrastando a pele como quem quer arrancar algo de si e gostaria ser tão fácil tirar de mim esses sentimentos até então adormecidos que agora fervem feito um vulcão prestes à erupção. Tomara que eu o afogue nessa lava.

Respirei fundo pra retomar o controle, me percebendo trêmula demais. Mil e um flashes da nossa história cruzaram minha mente e pra cortar a nostalgia eu me forcei a focar apenas na mais importante memória: a do abandono. Não posso me enganar pela simpatia, apenas recordar que não teria de estar pilotando esse carro pesadíssimo graças à blindagem por medo dos meus métodos escusos de sobrevivência respingarem no único lado bom desse romance.

— MAMA! — eita que ele tá ficando pesado demais pra se jogar no meu colo assim.

— Como foi o dia do meu lindo, hein? — ele me conta no carro, agora eu tenho que ir, já tem gente olhando estranho.

— Agora tem um professor de desenho... — desenho? Bem, pelo menos ele gosta, depois eu procuro saber melhor disso.

— Vaza geral, Poderosa chegou! — bem como eu gosto, Chiclete.

Num segundo as quengas correram batendo a porta dos quartos, permanecendo no salão apenas a Tsunade além da Chiclete, afinal a Mestra é presente na nossa vida desde quase o nascimento dele, me dando muitas dicas pra minha maternidade.

— Vovó Mestra! — e ele também gosta muito dela.

Pro Boruto não interessa eu ser uma criminosa, a Sakura uma vagabunda, a Tsunade uma quenga velha ou o Kiba um corrupto. Ele é puro e ainda não vê essas coisas, só nos enxerga como uma espécie de família, crente ser feliz assim a vida toda. Eu faço tudo pra preservar essa ingenuidade dele.

— Como vai, Boruto? — ele é filho de vida louca mas é bem educado e se porta como um verdadeiro homenzinho, mas isso não é hora dele ficar por aqui. — Acho que tá na hora da sua mamãe te levar pro quarto, não é? – cobrou um beijo tocando na bochecha e eu agradeci quando ela o induziu ao meu colo.

Catei minha cria, ouvindo durante o banho todo sobre o passeio no planetário, as estrelas e, como ele anunciou na saída da creche, a nova classe de desenho que vão iniciar.

— Não me lembro de avisarem nada disso na sua agenda, filho.

— Acho que é novo. Tinha um moço lá com a tia, ele até brincou comigo.

— Brincou com você, é? Do que? – perguntei porque morro de medo de alguém triscar num fio dos cabelos dele.

— No parquinho. Ele viu que ninguém brincava comigo e me botou no escorrego e depois me ensinou a desenhar mangá. – me quebra no meio pensar na solidão do meu bebê na escola.

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: May 17 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

Poderosa Histórias para pegar e não largar. Descubra agora