Eu toquei o braço dele apenas com a ponta dos dedos. Um gesto mínimo, quase imperceptível — talvez para lembrá-lo de que eu estava ali, talvez para me convencer de que ele também estava. Ele fechou a porta daquele quarto pesado, e o som da tranca pareceu selar algo que nenhum de nós ousaria nomear.
Ele respirou fundo, como quem tenta recuperar uma parte de si, e murmurou:
— Vamos descer.
Assenti.
Seguimos pelo corredor. Quando chegamos ao topo da escada, o ar mudou. Firmei o pé no primeiro degrau… e a memória veio com violência.
Não era eu descendo.
Era eu sendo arrastada.
Braços puxando os meus.
O chão batendo nas minhas pernas.
A vista torta.
Dor na cabeça.
Escuridão.
A incapacidade de resistir.
O impacto foi tão real que me tirou o ar.
— Está bem? — ele perguntou atrás de mim. Não era preocupação; era análise. Ele leu minha tensão com precisão cruel.
— Estou — menti, descendo devagar.
— Não minta para mim — ele murmurou, aproximando-se um passo.
— Eu reconheço quando seu corpo lembra do que sua mente tenta enterrar.
Permaneci em silêncio, O déjà-vu grudou na minha nuca. Cada degrau repetia aquele arrasto antigo, aquela vertigem desconhecida. Quando chegamos ao térreo, a casa me pareceu outra — não acolhedora, mas lúcida demais da própria existência. Fria. Observadora.
O silêncio entre nós tinha peso.
— Vamos preparar algo — ele disse, tentando um tom neutro. Mas a vulnerabilidade recente ainda tremia por baixo da voz.
Fui até a cozinha. A luz clara iluminava um ambiente que não parecia feito para viver, apenas para sobreviver. Ele colocou alguns ingredientes sobre a bancada, como se tentasse montar uma cena de normalidade. Acompanhei o gesto, mas a minha mente estava longe.
Peguei a faca.
O som do corte na tábua soou ritmado demais. O metal refletiu a luz e outra imagem explodiu dentro de mim:
Um brilho semelhante.
Um braço alheio.
Eu tentando fugir.
A lâmina aproximando.
O grito preso.
A faca escorregou da minha mão e caiu no chão.
Ele veio rápido. Não me tocou — ele nunca tocava sem intenção — mas entrou no meu espaço como uma sombra.
— O que aconteceu?
— Olhe pra mim — ele ordenou, firme, num tom que quase me ancorava
Não consegui responder. A náusea subiu. O mundo girou.
— Sente-se — ordenou, a voz firme.
Sentei porque minhas pernas falharam. Ele pegou a faca do chão devagar, como se recolhesse algo frágil. Guardou-a com cuidado, como quem esconde uma arma que, naquele instante, não lhe servia.
Olhei ao redor:
A cozinha.
A luz fria.
Ele guardando a lâmina com familiaridade demais.
A respiração calculada.
Meu peito apertou.
“Algo aqui está errado.”
A frase atravessou minha mente.
Ele me observou em silêncio — um silêncio que não confortava; avaliava.
— Você está pálida.
Esfreguei as mãos no colo.
— Está tudo bem.
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O Amor Psicopata De Jeff The Killer
RomanceEla foi sequestrada pelo homem que todos chamam de monstro. Frio, calculista, imprevisível. O que ela não esperava era descobrir que o maior perigo não era só sobreviver a ele - mas sobreviver ao que ele desperta dentro dela. Entre manipulação, tens...
