XVI

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Acordei num pulo, mas o corpo permanecia pesado, sem descanso. Permaneci virada para a porta — não por conforto, mas por defesa. Os olhos se fixaram na pequena janela alta. O azul frio do amanhecer penetrava a casa, cortante, revelando sombras que pareciam respirar. O silêncio era predador; cada canto parecia vivo.

Levantei-me devagar, sentindo os músculos rígidos pelo estado constante de alerta. Caminhei pelo quarto, observando, calculando. Peguei a colher que agora era lâmina improvisada. Respirei fundo, consciente de cada gesto.

Comecei a vasculhar o quarto. Cada superfície, cada junção do chão com a parede, cada rodapé rangente era examinado com cuidado. Batia com a colher nos cantos, testando, sondando falhas. Levantei o colchão. Então percebi: uma quina diferente, madeira ligeiramente mais fraca. Um buraco minúsculo, quase imperceptível. Mas havia luz. Onde há luz, há caminho.

Ajoelhei-me e comecei a raspar. Primeiro devagar, testando a resistência da madeira, depois com força crescente. Estilhaços voavam. A mão latejava, mas não havia espaço para hesitação. Cada golpe da colher no chão era preciso, metódico. O buraco cresceu. Finalmente, consegui abrir uma fresta para espiar.

Encostei o olho. Um cômodo indefinido surgia do outro lado. Não sabia seu tamanho, nem os riscos, mas sabia que havia possibilidade. Dois andares. Eu no superior. Cada detalhe mudava minha percepção do espaço, criando rotas, pontos cegos, possibilidades de fuga.

Um sopro de vento entrou pelo buraco. O ar fresco, tênue, mas real, me atingiu. Um gosto de liberdade que eu quase havia esquecido. O coração disparou, mas não de medo — de vida. Adrenalina pura corria pelas veias, aguda, cortante.

Em meio ao êxtase silencioso, ouvi passos. O ar pareceu pesado de repente. Coloquei o colchão de volta no lugar, arrumei a colher à vista. Meu plano não contava com ele aparecendo assim, pela manhã.

Sentei-me como se nada tivesse acontecido, fingindo normalidade. Mas a normalidade — nesta vida — era uma máscara frágil, prestes a rachar. Cada músculo permanecia alerta, cada sentido em tensão máxima. E mesmo assim, eu sabia: havia algo a meu favor agora. Algo que ele não poderia controlar.

A maçaneta girou. O som foi pequeno, mas entrou em mim como um corte. Enchi os pulmões devagar, controlando o ar, preparando o corpo para o plano que inventei no escuro — um plano tão absurdo quanto a chance de sobrevivência que eu ainda insistia em ter.

Ele entrou. Não precisou de palavras para ocupar o quarto; a presença dele já bastava. Seguiu meu olhar até a colher largada no chão, próxima demais para ser ignorada, distante demais para parecer ameaça.

— Sem ataques hoje? — murmurou, o sarcasmo arrastado na boca como lâmina polida.

Fechou a porta atrás de si. O som seco ecoou pelo quarto como sentença. Ele começou a caminhar, atento, farejando qualquer irregularidade. Vasculhou o ambiente com a naturalidade de quem acredita conhecer cada uma das minhas possibilidades. Abriu a porta do banheiro, examinou o interior como se esperasse que eu tivesse escondido o impossível ali.

— Nenhuma surpresa? Nenhuma insanidade do dia? — perguntou, o mesmo tom de provocação, como se estivesse decepcionado por não encontrar o caos que imaginava.

Ele buscava vestígios do meu plano anterior. Não percebia que eu o havia abandonado. Que eu havia aprendido com ele — e me tornado imprevisível na mesma medida.

Caminhou pelo cômodo em círculos lentos, avaliando cada dobra da parede, cada sombra, cada respiração minha. Eu mantive o corpo imóvel, a expressão neutra. A calma que exibi não era real, mas era a única arma que ainda restava visível.

Ele se aproximou. Abaixou-se diante de mim, ficando à altura dos meus olhos. O peso do corpo dele afundou o colchão um pouco, o suficiente para me lembrar que estava presa em território dele, e não no meu. Seus olhos estreitaram como se tentassem atravessar minha pele e chegar no pensamento que eu escondia atrás do silêncio.

— O que você fez? — sussurrou, inclinado para frente. — Eu ouvi barulhos. Você não é tão santa quanto tenta parecer.

A sensação de perigo deslizou pela minha coluna, mas não desviei o olhar.

— E desde quando você acha que sabe tanto sobre mim?

Um sorriso lento surgiu no canto da boca dele. Não era surpresa — era apreciação. Ele absorvia minha ousadia como se fosse algo que ele próprio tivesse criado, como se cada centelha que escapava de mim lhe pertencesse.

— Agora você tem voz para me enfrentar… — murmurou. A fala dele desceu de tom, engrossando com algo que não era raiva. — Interessante. Quase audaciosa.

O ar entre nós pesou. Não havia espaço para recuo — nem para ele, nem para mim.

E eu sabia: aquele era o instante mais perigoso. Porque ele não fazia ideia do que realmente estava prestes a acontecer. E eu não podia falhar.

O Amor Psicopata De Jeff The KillerOnde histórias criam vida. Descubra agora