Bege

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-- Bege -- dizia a si mesmo -- O teto podia ser pintado de bege.

Péttri estava entediado. Ou pelo menos era isso que poderia se afirmar ao se ver um adolescente sentado olhando pro teto. Ele, tal adolescente, não fazia a mínima ideia do por quê. Péttri podia estar fazendo mil coisas: vendo filmes, estudando, lendo, comendo e meio que tudo que pode encaixar-se no gerúndio. Era até engraçado, todo o avanço e facilidades da líquida modernidade não pareciam entretê-lo. Pelo contrário, lhe era preferível repetir indefinidamente a palavra bege às paredes ao mexer no celular. O pior é que até pouco tempo Péttri estava escrevendo uma historinha em seu caderninho amarelo, mas ele sempre acabava por se distrair com a inexistência. Como é que se explica isso? Ele já bolara todo o roteiro de sua historinha, até já escrevera boa parte dela. Mas não conseguia mais. Escrevia poucas linhas, e lá ia sua cabeça virar-se e encarar o vazio. A contemplação em si era vazia, no sentido mais puro da palavra. Nesses momentos, em nada pensava. Péttri começou a pensar neste não pensamento. Tentou agarrá-lo com todas as suas forças. Fechou seus olhos com uma firmeza incomum, e sua mente pôs-se a viajar por todos os lugares inimagináveis. Pensou e pensou. Pensou até perceber que não pensava. Percebeu que nada percebera. O que Péttri faria agora? Certamente não sabia.

Batucou de leve a mesa e distraiu seus olhos em uma barrinha de chocolate. Péttri não estava com fome, mas seus olhos pediam a barrinha. Seu estômago a pedia, mas Péttri sabia que não tinha fome. Encarou a barrinha seriamente. "Eu não deveria comê-la", pensou " eu não preciso".

A barrinha encarou-o de volta.

--Ah, foda-se, morrer eu não vou.

Estendeu a mão e pegou-a.

Desistiu antes de abrí-la. Colocou-a em seu lugar, pegou sua caneta, seu caderninho amarelo e escreveu:

"Piscou pelo o que nem parecia um segundo. Piscou como que por reflexo. Quando seus olhos abriram-se novamente, tudo estava diferente. A sala estava escura e a atmosfera úmida. Tentou encarar a escuridão, mas não conseguiu."

Parou e prostrou-se.

-- Não dá.

Sentia que algo ainda estava errado. Péttri, agora, sentía-se vazio. Não qualquer vazio, era um vazio puro. Realmente a ausência de qualquer coisa. Não era tristeza. As vezes tristeza é uma coisa boa, faz parte da experiência humana. Mas aquilo, aquilo não. Ele olhou para o céu escuro que lhe observava pela janela. Olhou para a Lua. Perguntou à Lua o que poderia ser aquilo. A Lua não sabia. É claro que não sabia. Perguntou para as Estrelas. As Estrelas eram confusas, cada uma lhe dizia uma coisa diferente. Cada uma tentando enfiar-lhe um pensamento aleatório. Não era aquilo que Péttri queria. Fechou as cortinas. Pensou se o Sol saberia a resposta para sua pergunta. O Sol, infelizmente, nada podia dizer, estava demasiado longe.

"Coitado do Sol", pensou, "deve estar tão sozinho". Escutou um barulho vindo das cortinas. Alguém o chamava. Abriu-as, e mostrou-se a Lua, cheia de si.

-- Claro que ele não está sozinho, Péttri. O Sol está iluminando a outra metade do mundo, alimentando as plantas. Quem sabe até fofocando sobre as loucuras que aconteceram aqui, sob sua guarda.

-- Achas que ele saberia com o que estou?

-- Isso eu já não sei. Faz tempo que eu não me encontro com ele, Péttri.

-- Ah, ok Dona Lua.

E foi-se sentar em sua cadeira novamente. No meio dessa ação lembrou-se de uma pergunta. Girou em seus próprios calcanhares, e, sorrindo, foi olhar para a Lua. Quando virou-se, porém, as cortinas estavam fechadas. Abriu-as e a Lua e as Estrelas estavam apenas estáticas. Entristeceu-se. Seu vazio aumentou.

Péttri queria poder chamar a Lua. Queria abraçá-la. Queria ser abraçado. Sentia-se murcho, queria apenas alguém para inflá-lo. Pensou em chamar sua família ou seus amigos, nas não. Queria a Lua. Queria contá-la todos os seus maiores segredos. Dizer-lhe todas as suas peripécias. Queria que, assim que a contasse tudo, ela sumisse. Contá-la seus segredos, apenas para que alguém os soubesse. Queria fazê-lo apenas para guardá-lo como segredo novamente. Queria que a Lua não o julgasse.

Olhou para o teto:

-- Bege. O teto podia ser pintado de bege.

E foi jogar video-game.

Histórias Fantásticas De Um Jovem DepravadoOnde histórias criam vida. Descubra agora