Se Essa Rua Fosse Minha

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Acho que esse vai ser o maior capítulo dessa história. Já vou avisando que é uma tempestade de informações. Respire, relaxe e aproveite!

🐛



Lana sempre teve dois mandamentos indiscutíveis. Duas condições que prometera a si mesma, desde pequena, a nunca violar.

A primeira era o de nunca matar ninguém.

Matara Viktor.

A segunda era nunca intervir no livre arbítrio de ninguém - o que inclui, naturalmente, feitiços de controlar o corpo alheio ou invadir mentes.

Acabara de o fazer com Alice.

Lana estava desestruturada. Todos os valores nos quais sempre acreditou, tudo no que sempre se baseou... Transformado em pó. Agora só sobrara o vazio.

Mas claro que Lana ainda não tivera tempo para pensar nisso ainda. Tinha medo de fazê-lo.

Nunca havia realizado esse feitiço de forma completa. Estudara os procedimentos, mas é claro que apenas leitura não podia garantir uma prática bem-feita.

Para não afetar os pensamentos de quem está sendo invadido, o intruso deve anestesiar as próprias emoções. Ser o mais silencioso, ausente possível.

Por isso Lana entrou num estado de quase amnesia. Não se recordou de quem era, do que estava fazendo ou quais eram seus objetivos. Tomou uma postura de completa admiradora. Assistia sem sentir. Recebia informações sem refleti-las.

Primeiro, Lana se viu caindo em um breu infinito. Parecia ser um penhasco sem paredes nem chão. Apenas o escuro. Sentiria frio, se estivesse em condições de sentir alguma coisa...

Foi quando, do nada, Lana parou de cair. A paisagem do breu foi substituída pela casa de Martin.

Suas próprias emoções - nostalgia, tristeza, luto - tentaram começar a saltar de seus olhos, mas Lana se controlou. Continuaria vegetando.

Estava de noite. Avistou uma criança de 8 anos correndo para fora da cabana. Seus cachos dourados eram empurrados pelo vento, deixando exposta a sua face em prantos.

As emoções da criança atingiram Lana. Tristeza. Confusão. Mas ao mesmo tempo, uma forte convicção de que estava fazendo a coisa certa.

A menina se chamava Anh. Era órfã. Havia recebido este nome por um Flor que trabalhava no orfanato, já sem mais ideias de como nomear uma criança.

Não conseguira pais adotivos, mas havia conseguido uma vaga como aprendiz de Martin.

Anh nunca teve interesse em aprender a arte da feitiçaria. Tudo no que tinha interesse era em conseguir um lar para ela e seu amigo, Pan.

Pan era filho de guardas de Paus. Por lei, seu destino seria o mesmo. Não queria que ele morresse. Não queria que ele morresse! Daria um jeito de enfiá-lo em algum outro lugar!

Foi morar com Martin por seis meses. Quando se sentiu segura o suficiente para conversar abertamente com seu Mestre, propôs - e em seguida implorou— para que ele acolhesse Pan em sua casa.

Ele perguntou se acaso era um feiticeiro. Anh negou com a cabeça. "Nada posso fazer, criança." Respondeu o homem. "Rei Zeno sabe o que está fazendo. O trabalho dos Cartas de Paus é necessário. É crime ir contra isso."

Anh não entendia. Não sabia exatamente o trabalho dos Cartas de Paus, só sabia que marchavam aos milhares através dos portões dos limites do País das Maravilhas, em rumo às terras desconhecidas, e depois, apenas seus corpos mutilados eram devolvidos.

A LagartaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora