A professora de educação física nos propôs um exercício de confiança, e pediu para que fizéssemos dupla com a pessoa que menos gostávamos na sala de aula. Imediatamente, pensei naquele menino. Mas eu jamais ia fazer dupla com ele. Ele é insuportável, não aguento nem ficar dois segundos com ele perto.
Só que ele agarrou meu pulso.
- O que acha que está fazendo? - eu perguntei.
- Você é claramente a pessoa que eu mais odeio nesse colégio inteiro. Então, você será a minha dupla.
- Pode esquecer! Não importa se eu te odeio ou não, não vou fazer par com você.
- Acho que você não tem escolha. Eu sou mais forte que você, não vou soltar sua mão.
Ele apertou a minha mão com muita força, meio que dizendo que não iria soltar mesmo. Eu fiquei quieta, mas por dentro eu estava dando chiliques. Como ele tinha a coragem... A audácia... De me agarrar desse jeito?
- Tanto faz... - eu disse, seguido de um suspiro demorado.
- Eu sabia... Sou irresistível... Até para você!
- C-como assim? Do que você está falando?
- Eu sei que você gosta de mim. Ninguém escapa do meu charme...
Eu ri alto.
- Você tem problemas mentais?
- Essa risada foi tão forçada...
- Não foi forçada nada! Você que é um lunático metido.
- Se fosse mentira, você não teria reagido de um jeito tão histérico.
- Não foi histérico!
- Claro que foi. A turma toda olhou para você.
Revirou os olhos.
- Porque eu tô permitindo isso?
- Porque você me quer...
- Nossa, você é sempre convencido assim?
- Só as Segundas...
- Hoje é Quinta.
- Tanto faz...
A professora nos leva para a quadra, onde havia uma escada de ferro com três degraus.
Ela explicou que, primeiramente, um de nós ia se jogar para trás nos braços do outro, e depois, o outro subiria na escada e ia fazer o mesmo. Já de início, eu me caguei. Eu sabia que a minha vida injusta ia me escolher para ser a pessoa que ia se jogar da escada. E eu estava certa, como sempre.
- Não se preocupa, eu vou te segurar.
- Ah tá! Até parece que eu confio em você...
- Confie se quiser. Quem vai pular daquela altura não sou eu, de qualquer forma.
Como ele me irritava.
Ele se virou de costas, e ao sinal da professora, ele se deixou cair em meus braços.
- Pesaaaadooo...
- Para. Eu nem estou tão gordo assim...
- Já chega! Já pode ficar de pé.
Ele se levantou e se virou pra mim, com um sorriso estranho.
- Eu sabia que você não ia me deixar cair. Seu amor por mim é maior do que seu ódio.
- Você é muito irritante, cara. Eu já falei. Eu não...
- Tá tá... Sua vez...
Chegou a minha vez de "confiar" nele. Subi no primeiro degrau.
- Sobe mais, garota!
- Eu tô subindo!!
Cheguei no último degrau. Me virei de costas, com MUITO medo, apenas esperando a professora dar o sinal. Meu suor estava frio, pois eu sempre tive medo de altura. Eu olhei para trás, para ver mais ou menos a altura que eu ia me jogar. O que mais me amedrontou foi o sorriso cínico dele. Como se ele dissesse que eu não podia confiar.
A professora deu o sinal.
Respirei fundo, tomei coragem, e...
Não fui.- Noooope...
- Laura! Você tem que fazer o exercício! Vai... Não precisa ter medo. Esse rapaz vai segurar você!
Ele disse no meu ouvido:
- Será que vou?
- P-professora, por favor, eu não posso arriscar, eu não confio nele.
- É pra isso que serve o exercício. Trabalhar a confiança.
- Uau... Genial! E pra isso eu preciso quebrar o meu pescoço? Por acaso a senhora vai pagar minha conta médica?
Parece que esse tom não agradou muito a professora, pois ela me mandou para a sala da diretora. Que dia... E é claro, ele riu a beça.
A professora me intimou que se eu não completasse o exercício junto com ele, nós dois iríamos perder os pontos. Ao saber disso, na hora do intervalo, ele veio direto para a mesa onde eu estava para gritar comigo.
- Você é idiota, por acaso?
- Olha como você fala comigo, seu imbecil...
- Eu juro por tudo que se você me fizer perder ponto por frescura, você vai se arrepender.
- A culpa é sua! Você fica me pressionando, como posso confiar em você?
- Você é mesmo uma idiota...
- Cara, para de me chamar de idiota! Você que é um ignorante. Desde que eu te conheci você me trata como lixo. Se você perder pontos, vai ser culpa sua!
Ele grunhiu, e saiu andando. Ele é sempre tão orgulhoso. Nunca vai pedir desculpas para mim, por ser um bosta comigo. Mas eu não me impressiono mais. Ele é sempre assim. Já me acostumei com isso, mesmo que eu não goste.
E tipo, é triste porque eu queria muito ser amiga dele. Eu já estava cansada dessa relação de ódio e desprezo que a gente tinha um com o outro. Sei lá. Tenho vontade de o conhecer melhor. Mas ele não se abre para mim, nem mesmo fala comigo como uma pessoa normal. Ele só me insulta...
Ele é literalmente indecifrável.
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