Capítulo 3 - Tempestade

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Ele vivia nas ruas implorando por algumas moedas de libras para poder comprar algum alimento comestível que não fosse algo podre ou estragado, e assim silenciar a dor oca de seu estômago, vazio. Seus pais haviam morrido de escarlatina quando Jonathan tinha apenas seis anos e o deixaram perambulando sozinho as ruas desertas e frias de Londres. As pessoas eram duramente cruéis com ele, enquanto o viam agonizando na miséria, ignoravam, e o humilhavam por ser um cego pedinte. Desdenhando descaradamente de seu sofrimento. Jogando restos de comida para ele como se não passasse de um cachorro sedento de fome e sede. As roupas rasgadas e imundas deixando-o com um aspecto, nojento. Ninguém o acudia ao vê-lo prostrado deitado contra o chão frio do sereno da noite. Em tempo de morrer de hipotermia pela gravidade incessante do inverno cortante. Jonathan havia me confidenciado que até mesmo os próprios indigentes o roubavam enquanto finalmente conseguia adormecer pela febre alta. E quando despertava suas únicas moedas sustento de sua vida, haviam misteriosamente, desaparecido.

A dado momento de seu relato, miserável. Eu fechei meus olhos com força e tampei os ouvidos com ambas as mãos. Recusando-me a ouvir a dura crueldade da vida. Implorando-o para parar de falar. Lágrimas deslizavam abundantemente pelo rosto, o peito se sacudindo por conta dos soluços, inquietantes. E acreditei que fosse morrer pela realidade impiedosa desse mundo: inabitável e escasso por pessoas, bondosas. Todos vivem como tubarões que devora os peixes menores desse gigantesco aquário, humano. Onde seres lutam para sobreviver da fúria incansável do mundo frio e inescrupuloso.

Jonathan, tateou freneticamente suas mãos sobre o colchão, se aproximando lentamente de mim. Suas palmas tocando levemente o tecido de meu vestido, lilás. Abri meus olhos e pisquei para afastar as águas que escapavam por de baixo dos meus cílios. Fitei seus olhos azuis bem próximo ao meu rosto. Fitando-me perplexamente. Sua mão magra acariciou-me com extrema delicadeza passando os dedos de leve por toda extensão de minha face. As lágrimas secaram imediatamente ao toque de leveza em minha pele, corada.

- Por favor, não chore – sua voz como sussurro hipnotiza minha mente. – Eu disse que a história seria, fétida. Não gosto de ouvi-la chorando. Prefiro escutá-la sorrindo. Por favor, sorria – pediu ele gentilmente enquanto seus dedos continuava tocando-me carinhosamente.

Seguro seus dedos ossudos entre os meus bem mais gordinhos que os dele.

- Não consigo. A frieza das pessoas foram tão impactantes que por um momento fiquei sem fôlego. Odeio a insensatez desse mundo desumano – lamentei derrotada. – Ainda mais por você ser... – engoli minhas palavras bruscamente ao me dar conta do que estava prestes a dizer. Mas para minha infelicidade Jonathan percebeu e completou minha frase sarcástico.

- Cego? Não se preocupe pela indelicadeza das palavras. Eu posso ser cego como uma toupeira. Mais não sou estúpido. Sei de minha deficiência e não há necessidade de conter sua opinião a respeito da verdade.

Fico em silêncio constrangida.

- Desculpa – murmurei baixinho.

- Pelo quê? – questionou incrédulo. – Você apenas expressou seu ponto de vista.

Balanço a cabeça indecisa.

- Talvez tenha razão – concordei meio encabulada.

Ele sorri.

- Exatamente.

Solto seus dedos e me recosto sob as costas da cadeira.

- Como meu pai o encontrou, Jonathan? – Pergunto. Vejo seus ombros enrijecerem diante de minha pergunta repentina.

Uma Luz Na EscuridãoOnde histórias criam vida. Descubra agora