O que dizer sobre Jason? Ele é tipo garoto nerd descolado, ele é inteligente mas ao mesmo tempo desarrumado de uma maneira que as garotas gostam e eu realmente queria entender como ele consegue. Na quinta série os garotos implicavam com ele porque todos acreditavam que ele era gay, pelo menos foram o que me contaram, até que ele conseguiu beijar Samantha e dai pra frente não parava sozinho.
Eu e Jason sempee tivemos um relacionamento de amizade, desde quando larguei a inglaterra na sexta série para continuar os estudos aqui ele me apoiou e conversou comigo sobre o clima de Londres, ou seja muita chuva, e The Beatles (até porque o que mais se pode falar da Inglaterra?), no meio dessas conversas aleatórias e paralelas acabamos nos conhecendo mais e no fim nos tornamos melhores amigos, Jason esteve presente no resto da minha infância e parcialmente em quase toda a minha adolescência, eu acabei descobrindo que sua mãe morreu de um câncer raro na traqueia que se espalhou para o cérebro e seu pai se tornou apenas um escritor falido que viva tendo crises de ansiedade e depressão, Jason teve uma infância difícil que foram marcadas por idas no cemitério em dias cinzentos e chuvosos e noites em claro escrevendo sobre o que viesse a sua cabeça. A nossa amizade durou até o dia em que ele pegou uma faca e tentou se matar, no momento que entrei no quartdo dele não consegui perceber o que realmente estava acontecendo, apenas pude ver o sangue escorrendo pelas cortinas e seu corpo espalhado pelo carpete, ele gritava socorro e parecoa sentir muita dor, por um instante ouvi a palavra mãe mas pode ser algo que o meu cérebro em choque pode ter criado, desde aquele dia que fui parar no hospital e dei a minha primeira volta na ambulância jurei a mim mesmo que nunca daria esse trabalho aos meus pais e jamais teria amigos depressivos e com tendências suicidas e aqui estou eu com uma melhor amiga morta.
No fim da história, Jason ganhou uma cicatriz que ainda se pode ver no seu braço direito, mas por medo e pelos aconselhamentos de tia Mary decidi deixar a amizade com ele de lado, eu não queria me meter em problemas. No momento quem que decidi deixar Jason, eu senti um aperto no peito, era meu amigo, meu melhor amigo, eu tinha contado a ele sobre meus pais terem me largado na Austrália, terem tido uma filha e me esquecido aqui, tinha contado sobre a experiência do meu primeiro beijo que foi uma das piores ou de como e caí da cama dormindo e morri de vergonha por uma semana, eu tinha contado uma vida pra ele e jogar isso tudo fora no momento em que ele mais precisou foi um erro que eu me culpo até hoje. E na hora que eu descobri sobre Ágatha e Jason eu senti uma pontada de ciúmes porque eles eram meus amigos e descobrir que mesmo que a minha amizade com Jason tenha terminado eu não queria que ele roubasse a minha melhor amiga talvez porque ela tenha ocupado o lugar dele todos esses anos em que eu o deixei.
Quando saio do carro tudo que sinto é raiva, ódio pela cicatriz idiota dele, pelo sorriso pequeno no seu rosto, por aparentar tanta calma em momento tão ruim para mim, eu olho para seus cabelos ruivos e tudo que eu vejo é seu sangue escorrendo pelas cortinas eu olho seu suéter roxo e tudo que imagino é o corpo de Ágatha flutuando sem vida pelo rio. E por um momento eu sinto pena, ele perdeu a namorada, perdeu a mãe e indiretamente também o pai e eu quando criança o deixei de lado, ele deveria estar destruído por dentro, eu me sentia assim.
- Oi Jason - Ellen diz me assustando um pouco, o fato dela estar se comunicando com ele me fez sentir mais raiva.
- Ellen, quanto tempo - Sua voz soou assutada, eu não entedi o porque, mas o tom parecia de culpa. Jason se virou e olhou para mim, foi uma sensação estranha, a raiva desapareceu e deu lugar a um sentimento de total culpa, mas bem na hora que ele ia falar o sinal ecoou pelo campus, seus olhos saíram de mim e foram em direção ao prédio de jornalismo e como estava cansado nem incomodei como o fato de Jason não ter trocado nenhuma palavra comigo.
Peguei minha mochila e me despedindo de Ellen e fui em direção à minha sala.
- Oi Angelo - Uma vozinha fraca sai atrás de uma multidão de pessoas, e apenas pelo tamanho consigo indentificar de quem sai a voz.
- Olá Júlia - digo tentando parecer animado
- Eu sinto muito por tudo que aconteceu com você, as vezes a gente não consegue saber o que está acontecendo com o outro, eu sei que Ágatha tinha um motivo para fazer tudo que fez - o nome faz o meu coração acelerar mais rápido, Ágatha, eu costumava a brincar com ela sobre seu nome, a famosa Ágatha Christie, famosa pelos seus mistérios, se eu soubesse sobre tudo que iria acontecer no futuro, nunca teria feito um tipo de brincadeira como essa. Mesmo sem querer, Ágata se tornou um mistério pra mim, não por eu achar que ela estaria presa em banker e não morta por um experimento militar, era porque eu não sabia e não conseguia entender o porque de tudo aqui, Ag sempre foi tão animada e feliz com a vida e o pensamento de que ela tirou a própria vida era muito incoerente.
- Angelo? - Júlia parece pouco interessada mas com um pouco de culpa por ter perguntado
- Ah, oi, está tudo bem, obrigada - Com isso mergulho no meio de alunos e me dirijo à sala. As aulas passam devagar, parece que o tempo estagnou. A sala é como uma prisão com paredes azuis, me sinto em uma gaiola escura que parece girar quando consigo focar o mundo, passo a maior parte olhando a janela, o dia está bucólico e triste, eu me perco na imensidão do branco nublado do dia, eu me perco no branco dos cabelos dela e tudo volta, o sorriso, os olhos azuis, tudo, é difícil parar pra pensar que nunca mais vou ver ela. No final da última aula eu conto ansioso pelo ultimo segundo de aula, passar na casa de Ágatha me deixa com medo, eu realmente não sei o que posso encontrar lá, Ag sempre foi muito reservada com sua vida, claro que ela não era a solidão em pessoa, ela era apenas ela. Novamente absorto em meus próprios pensamentos me encontro perdido nos últimos minutos, acompanhar a faculdade tem sido um dos meus maiores problemas, viver tem sido um dos meus maiores problemas.
***
A ida até a casa de Ágatha é extremamente chata mas a chegada a casa é incrivelmente embaraçosa, a mãe de Ágatha fica totalmente emocionada e Ellen que não trocou uma palavra comigo no percurso consola ela enxugando as lágrimas que rolam e tropeçam em outras no seu rosto.
- Eu sei como é difícil, mas nós - diz ela apaontando para mim - estamos aqui com você, depois elas conversam sobre luto e compartilham histórias do quanto é difícil perder alguém que amava e depois de todas essa conversa nós fomos para o quarto de Ag, parecia intacto, como se ninguém tivesse encostado ou mesmo respirado no quarto desde a última vez que fui na casa dos rose no verão passado, foi uma sensação ruim, como se alguma coisa afundasse no meu peito, eu sentia que encontraria tudo naquele quarto, menos respostas.
- Você quer começar por onde?
- Para mim tanto faz - digo com medo de se quer oisar olhar muito os objetos do quarto
- Ok, então só olhe, procure alguma coisa que faça sentido, cartas ou remédios ou qualquer coisa - Ellen diz e por um minuto eu vejo um vislumbre de felicidade em seus olhos é como se em algum mundo paralelo ela estivesse rindo da minha tristeza.
Eu tento encostar no mínimo de coisas, folheio algumas coisas da escola e alguns romances velhos, eu olho tudo com bastante atenção, já que a estante é a primeira coisa que se vê eu paro ao máximo nela pra evitar ver o teto do quarto, eu sei que vou desabar, mas Ellen está lá e eu não me sinto bem confortável, até que parecendo atender minhas preces Ellen levanta da cama e diz que vai beber água e nesse momento que olho pra cima, as estrelinhas ainda está lá, as estrelinhas que dei pra ela nos seus 16 anos, eles estavam pregadas ao teto e pareciam brilhar como milhares de cristais até que chegava a janela eles pendiam em meio que um tipo de cortina que fazia o quarto todo brilhar, parecia que o quarto todo se refletia, as luzes batiam nos espelhos e voltam para o guarda roupa, tudo parecia hamonizar. Na penteadeira há tantas coisas que nem consigo ver tudo, a única coisa que me chama atenção é uma caixa, uma caixa cravada com as palavras.
Aqui jaz toda a vida de Ágatha e seus mistérios
Só de ler as palavras na caixa eu sinto um arrepio percorrer todo meu corpo, é como se fosse uma premonição, algo bem maior que só uma caixa. Eu não me lembro dessa caixa em nenhum de nosso momentos, era simples e de madeira parecia ser perfeita para Ag mas ao mesmo tempo não se encaixava com toda a harmonia de seu quarto, parecia ter sido colocada ali no meio de uma bagunça organizada. Perdida entre a abertura da caixa tinha uma carta, escrita em um papel comum, eu não sabia se abria ou se deixava fechada, mas as palavras de Ellen voavam sobre meus pensamentos, nós temos que olhar tudo e que mal faria?
Abro sem muita rapidez com medo de estragar o papel, a carta não foi escrita a mão mas lá estavam um punhado de letras formando pequenas frases que soavam como um aviso
A minha vida parece pequena agora tão pequena quanto a chave que abre esse tipo de "caixa de despedida" eu digito todas essas letras em lágrimas que agora parecem tão poucos perto do que estou prestes a fazer, e toda essa lamentação só está aqui para dizer que perto de uma árvore num jardim feito por crianças de 11 anos que mal sabiam o que era a vida, está uma pequena chave assim como a minha pequena vida irá durar.
Aquilo era extremamente mórbido o que me fez ler duas vezes, a cada vez que eu pensava mais, menos eu entendia, o porque daquilo parecia longe, mas parecia que eu tinha chegado em algum lugar, algum lugar perto da baía de Sydney, perto de um ponte onde transitavam milhões de pessoas por dia, onde em menos de uma semana Ágatha passou seus últimos dias.
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Mortífero
Misterio / SuspensoÁgatha cometeu suicídio no dia 26 de Junho, pelo menos era isso que eles pensavam.
