Dirigi até a minha casa, não é tão longe da minha escola mas com Ellen falando parecia uma eternidade.
Ellen brigou com os pais, ela disse que não iria ao psicólogo depois de todo o ocorrido, seu pai era professor em uma Universidade da cidade, sua mãe uma médica incrível, trabalha em um consultório no centro de Sydney, cidade onde eu nasci e cresci, cidade onde Jess morreu.
Ellen diz que seus pais não notariam que ela sumiu, porque trabalham, viajam e por fim não se importam nem um pouquinho aonde a filha está, só se importam se ela não é uma louca, drogada ou depressiva. Mas isso não torna ela especial e nem me obriga a aceita-la em minha casa.
Minha casa, meus pais alugaram pra mim, quando me deixaram nos cuidados de Tia Mary até o dia de seu falecimento, câncer no pulmão, por isso logo após me emanciparam, não faz muito sentido pois no próximo mês completarei 18, serei um jovem livre. Eles me mandam dinheiro todos os meses e pagam todos os custos de morar na Austrália, mas isso não ocupa nem o pouco o vazio que eles deixaram, não enquanto eles estão na Inglaterra, tendo uma vida alegre e feliz, com seus empregos de corretores de imóveis e fazendo os desejos de Diana. Sinto falta dela, minha pequena irmã, quando me deixaram aqui ela tinha 9 anos, lembro de seu rosto redondo e fofo, do modo como seu cabelo preto caía sobre seus ombros, a pele clara como a de papai, como eles puderam fazer isso? Poderia muito bem estudar em Londres e ter a vida normal de um garoto de 17, mas eles simplesmente me deixaram aqui.
- Sua casa está Horrível.- Disse Ellen, após ver as caixas de pizza em cima da mesa, roupas nas cadeiras esperando para serem lavadas, louças na pia e livros empilhados em todos os cantos.
- Ou aqui ou rua. Não espere, porque não vai para casa de Jacob ele não era seu Príncipe encantado para todo o sempre?
- Terminei com ele - quando viu minha cara de espanto, logo emendou - Você ouviu o que disse sobre ela?
Concordei com a cabeça. Coloquei suas coisas no quarto de Tia Mary e preparei algo para nós comermos.
- Então o que quer fazer? - Eu disse quebrando o silêncio.
- Bem, a mãe de Ágatha não é tão inteligente, deixa a porta dos fundos destrancada, ela sai as 6 da manhã junto com Jonny o irmão de Ágatha, você se lembra?
Claro que me lembrava, aquela criança rabiscou as paredes do meu quarto.
Confirmo com a cabeça
- Então, entramos na casa e roubamos toda a comida. - Olho pra ela com uma cara assustada e em seus lábios se formam um sorriso que eu nunca tinha percebido antes, por causa da correria da escola, nunca conversava muito com as pessoas e nem percebia em tristeza ou alegria, a única que chegava a dar atenção era Ágatha, com seus longos cabelos loiros e com aqueles olhos azuis que me faz sorrir em qualquer lugar ou situação em que eu esteja.
- Brincadeira, nós entramos e vasculhamos o quarto da Ágatha
- Porque tudo isso? Ela está morta Ellen, pulou da Ponte, fim.
- Tem certeza?
- Ela deixou uma carta. - Digo por fim, guardando esse segredo, eu protegia mas sinto que agora ele precisava ser compartilhado.
Levanto do sofá velho de Mary e caminho até a escrivaninha de Madeira, que dizem ter sido feita pelo meu próprio Tio Jonathan. Mas o móvel não importava o que importava era carta, escrita em uma caligrafia tremida mas mesmo assim bonita.
Pego a carta e a leio pela décima vez
Para todos que me amavam.
Querido leitor, Angelo, Ellen, Jason ou meus pais.
Sinto muito, mas eu não poderia mais continuar, não depois de tudo o que aconteceu. Você deve estar se perguntando o que? Mas não importa, não agora.
Espero que me perdoem por tudo o que causei, desde do dia em que nasci, até hoje dia 26 de junho de 2004.
Obrigada a todos, eu amava vocês.
- De sua querida e morta, Ágatha
Entreguei a carta para Ellen, depois de muito ler, ela levanta o rosto, lágrimas rolam de seus olhos até o queixo.
- Ela não poderia ter escrito isso, agora você me entende?
- Não, essa é caligrafia dela.
- Mas... - Sua voz falha, corro para abraça-la, mesmo que eu não goste nem um pouco dela, sinto pena, porque pela primeira vez sei como se sente e sei como tudo isso machuca.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Mortífero
Misteri / ThrillerÁgatha cometeu suicídio no dia 26 de Junho, pelo menos era isso que eles pensavam.
