00|Prólogo

8.2K 986 564
                                        

WILD

  A torcida ia ao delírio

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

  A torcida ia ao delírio. Os gritos eufóricos cheios de entusiasmo e fervor enchiam o galpão, que afastado da civilização local, tremia as paredes pichadas com tintura desgastada. A arquibancada vibrava aos movimentos bruscos das pessoas que a enchiam, todos ansiosos para a grande luta que se iniciaria no ringue em poucos minutos. Nos corredores, homens gritam com emoção, anunciando guloseimas que eram vendidas por preços altos, outros enchiam os bolsos de dinheiro com apostas de quem levaria o grande prêmio naquela noite.

— Não deixe de ganhar uma bolada! Façam suas apostas!

— Compre suas pipocas, olha a pipoca!

  No subsolo, abaixo de toda euforia, o lutador socava uma última vez o saco de areia suspenso no teto, as mãos cobertas por faixas brancas ganhavam novos arranhões, e sua respiração já deverás acostumada, estava normalizada apesar das horas de treino. Apanhou do chão uma garrafa de água, bebeu três goles e jogou o restante em seu rosto, misturando do líquido com o suor que pingava em sua testa, fazendo que a mistura desgostosa escorresse pelo peito e costas desnudas.

— Dez minutos Kim! — o homem que poderia ser designado como seu empresário grita rente a entrada coberta por lençóis velhos.

Não o respondeu, sabia que mal seria ouvido. Conferiu o par de luvas pretas recém compradas, um dos seus únicos investimentos recentes, e antes de seguir para o ringue levou as mãos avermelhadas pela pressão anterior até a correntinha dourada em seu pescoço, que a muito tempo residia alí, deixou um beijo rápido no pingente em forma de pássaro.

  Se retirou da sala e seguiu pelo corredor estreito. Se lembrava de a muito tempo, quando tinha cerca de quatorze ano e passou por alí pela primeira vez e sentiu medo das teias de aranha, entre outros diversos insetos que rodeavam restos de comidas jogadas nos cantos. Hoje podia-se dizer acostumado, até mesmo se considerar um daqueles que jogavam as comidas alí, pois nunca soube realmente onde ficava o cesto de lixo.

  Estava próximo a entrada que daria para o ringue, nas caixas de som a voz do locutor já anunciava animadamente o início da luta, e se vendo sozinho pronto para entrar.

  Foi quando ele sentiu.

  Se iniciou em seu peito, com pontadas fortes e a cada vez mais constantes, foi como se o oxigênio fosse arrancado de seus pulmões. Um estalo soou de sua costela, e com um grito de dor caiu sobre os joelhos descobertos, o zumbido em sua cabeça o maltratava, e em um lapso de dor, fechou os olhos com força, para quando abri-los de novo, uma última vez, ver as coisas a sua volta embaçadas e de coloração alaranjada.

  Os ossos de suas costas estalam, seu crânio parece se  apertar rente a seu coro cabeludo. Suas unhas forçam-se para sair dos dedos, algo fura sua gengiva na área dos caninos, suas pálpebras ardem pedindo para serem fechadas.

  A última imagem que foi obtida pelas orbes cansadas, foi do homem adentrar a pequena sala assustado, guiado pelos guinchados de dor, que levaram Taehyung a inconsciência.
                                              

•••

  Quando despertou, piscou os olhos três vezes, sentiu a garganta seca e sua cabeça pesar. Acostumou-se aos poucos com a luz e pôde ver o teto esbranquiçado com um belo lustre de cristais sobre sua cabeça. Ninguém que conhecia tinha a mínima condição financeira de ter um daqueles, muito mesmo o hospital público do bairro que a tempos não recebia verbas do governo. Com essa informação em mente, curvou-se de pressa ignorando totalmente a dor em variadas partes de seu corpo e viu por completo o local que se encontrava.

  A arquitetura antiga tinha o ar rústico e sofisticado, todos os móveis trabalhados em medeira com enfeites pincelados em tons de vermelho e dourado. A cama em que se encontrava caberia cerca de outras quatro pessoas, os lençóis eram grossos, mas macios, a iluminação casta se fazia presente apenas por três velas estendidas em candelabros nas paredes, o piso escuro era coberto por um tapete liso grande e nas paredes prateleiras com muitos livros.

  Não deixou de assustar-se ao que a porta dupla é aberta, e por ela passar um pequeno homem, que poderia julgar alcançar sua costela, este com olhos de um verde extremamente claro, uma longa barba branca e um terno sob medida que se assemelha aos usados nos anos cinquenta, nas mãos pequenas carrega uma bandeja de prata com um belo jogo de chá detalhado com pinturas chinesas, e fumegava pela quentura.

— Vejo que enfim despertou. — citou com a voz baixa e rouca.

— Pode me dizer…aí. — levou a mão até os tímpanos, sentindo uma pontada forte de dor naquela área. — A quanto tempo estou dormindo?

— Três dias, cinco horas e trinta e oito minutos.

  Colocou a bandeja sobre uma mesa pequena, e despejou um líquido alaranjado e espeço dentro de uma xícara, com o auxílio de uma pinça, acrescentou um cubo de açúcar, e mexendo delicadamente com uma colher, entregou a Taehyung, que ainda tentava assimilar o tempo que ficou inconsciente.

— Beba.

— O que é isso? — o jovem pergunta, observando pequenas bolhas se formarem dentro do recipiente de porcelana.

— Beba.

  Mas uma vez, o homem limitou-se a dizer, carregando o olhar frio e sério, porte ereto e as mãos cobertas por luvas brancas próximas ao corpo. E mantendo a atenção sobre o mesmo, Taehyung permitiu-se beber do líquido. O tomou em três longos goles, ignorando a sensação do queimar em sua garganta, confessa não ter se agradado com o cheiro, e muito menos com o sabor, mas acorrentou em si uma possível careta, e devolveu a xícara para o homem, para só então perguntar:

— Onde eu estou?

  Um silêncio se estendeu por trinta segundos, o tempo para que a bandeja fosse mais uma vez arrumada, e equilibrada em apenas uma das mãos do homem. Este que mantendo sua mesma expressão facial, apenas o respondeu o que foi limitado a dizer por seus superiores.

— Você está em Azzalia, a terra escondida pertencente ao povo híbrido. Seja bem-vindo, você é um de nós agora.

•••

#Wildfic

[Estréia dia: 16/02/2020]🦋

WILD - TaeyoonseokHistórias para pegar e não largar. Descubra agora