Deborah Olsen
Não sei como consegui chegar até à clínica depois de ter recebido a chantagem mais pesarosa da minha vida. A voz do deputado Alexander Castellari ecoa na minha mente e me sinto zonza com esse tanto de informação. Não entendi muito bem o porquê ele precisa se casar e muito menos o motivo por ter me "escolhido" para tal e também não encontro fundamento para que ele me demita caso eu recuse sua proposta. Um verdadeiro babaca e arrogante. Só resolver a questão do meu avô que tomarei uma medida drástica contra o meu chefe. Não sei se denunciá-lo por chantagem e ameaça seria algo útil a se fazer, visto que seria a palavra do deputado contra a funcionária, ou seja, sou a minoria, não há como discutir.
Suspiro longamente, totalmente confusa. Piso na clínica novamente e o outro zelador, Abreu, se assusta ao me ver aqui antes do horário que costumo vir pela segunda vez ao dia.
- O doutor Parker quer falar comigo. – Aviso, e Abreu libera a minha entrada.
Estou com o coração apertado e preocupada com a situação dele, até hoje cedo estava aparentemente bem. Mas com alzheimer não se brinca e tudo pode mudar em segundos.
- Deborah. – Edgard me recebe assim que adentro na recepção da clínica. – Me acompanhe, por favor.
Faço o que ele diz e o sigo até o seu consultório. Edgard Parker é um jovem médico bem reconhecido em Vancouver e neurologista especializado na doença que meu avô possui. Nos encontramos aqui quase todos os dias e nos acostumamos em tratarmos como você, sem formalidades.
- O que aconteceu com o meu avô, Edgard? Me diga, por favor. – Peço, esbaforida.
- Sente-se, Deborah. – Ele gesticula para que eu sente na poltrona do consultório e se senta ao meu lado, entregando-me um copo de água. – Está nervosa?
- O dia não começou muito bem. – Respondo rapidamente, um tanto ríspida. Detesto a calmaria e paciência que Edgard tem em preparar os responsáveis pelos enfermos dessa clínica. – Parker, eu estou muito agitada e preciso saber o que houve com o meu avô.
Edgard assente em silêncio, se coloca de pé e pega um envelope branco em cima da sua mesa. Ele me entrega o conteúdo e me induz a abrir. Dentro dele há alguns exames diagnosticados ainda hoje de manhã.
- O que significa isso? Essas manchas? Não entendo.
Claro que não, sou totalmente leiga em assuntos médicos.
- Deborah, nós fizemos esses exames hoje pela manhã e eu não encontrei coisas boas ao verificar o resultado.
Engulo em seco. Estaria o meu avô morrendo?
- Isso quer dizer que o meu avô irá morrer a qualquer momento?
- Não se a gente puder fazer um tratamento mais agressivo com ele. Isso inclui medicações especiais que não se encontra tão facilmente nas bancadas das farmácias. São remédios caríssimos que nem a clínica recebe os lotes. Fora que essa clínica é defasada demais em comparação à outra em que trabalho. A San Juan é muito mais moderna e avançada e tem todo o suporte que seu avô precisa para continuar vivo. – Ele me explica detalhadamente, deixando-me ainda mais apavorada.
- Quer dizer que além de arcar com medicamentos caríssimos, você ainda me diz que aqui não tem tudo o que precisa para o tratamento dele? Edgard, a aposentadoria do meu avô paga apenas a estadia aqui, o meu salário mal cobre todos os gastos que tenho. O que vou fazer?
Edgard faz um carinho lento em minha cabeça. Ele sempre me tratou com ternura, todas as vezes que o quadro de Samuel piorava. Não somos grandes amigos, mas nesses momentos, o seu apoio é de extrema importância para mim.
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