Capítulo 01 - Sapos ou Rãs

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     — Você está atrasada. — Minha mãe disse ao me ver entrar na cozinha.

     — Desculpe. — Eu respondi sem fôlego enquanto amarrava o meu avental na cintura

    — O que aconteceu dessa vez? — Marly, uma das cozinha perguntou entre uma risada. — Foi dar uma voltinha?

     — Você sabe que deve ser punida. — Uma outra mulher disse. — A limpeza é por sua conta hoje, mocinha.

     Elas todas começaram a rir, felizes por terem arrumado uma maneira de se livrar dos seus afazeres.

    — Como sempre. — Sussurei.

     Tudo estava muito corrido naquele dia. Estávamos nos preparando para o baile de aniversário da filha do Duque de Vuctan que seria no dia seguinte.

     Peguei umas panelas que estavam sobre a pia e comecei a lavá-las, uma após a outra. Quando terminei, peguei um balde e me pus a esfregar o chão de pedra. Depois, peguei um pano úmido e limpei as janelas da cozinha. Já era noite quando eu finalmente terminava tudo o que precisava ser feito.

     Estava escuro e uma forte chuva caia lá fora. Eu estava sozinha, e terminava de varrer o chão mal iluminado por uma única vela sobre o balcão de madeira quando ouvi alguém bater na porta que dava para o jardim.

    Fitei a porta de madeira velha por alguns segundos, apenas para ter certeza de que não havia sido impressão minha, e estava convencida disso. Voltei a varrer o chão, só que mais apressada. Depois de alguns segundos, bateram novamente, só que com mais força.

     — Quem está aí? — Perguntei involuntariamente ao dar um pulinho de susto. Ninguém tinha acesso a aquele pequeno jardim.

     A única resposta que obtive foram mais algumas batidas mais fortes ainda. No mesmo instante, um raio riscou o céu e um trovão alto soou. Uma brisa fria fez a chama da minha vela estremecer.

    Depois de um instante de silêncio, as batidas voltaram. Peguei uma faca como forma de preocupação, mas não que fosse me adiantar de alguma coisa, já que eu nunca teria coragem de esfaquear alguém.

    — Pelo amor dos Deuses, Maddie, abra essa maldita porta. — Uma voz conhecida soou do outro lado da porta. Revirei os olhos ao perceber quem era.

    — Jack, seu idiota, o que você faz ai? — Eu perguntei abrindo a porta para o meu amigo entrar.

    — Ficou assustada? — Ele perguntou ao entrar pingando na cozinha que eu havia acabado de limpar.

     — Claro que não! — Respondi.

     — Sei. — Ele riu. — Eu te assustei. Quem você pensou que fosse?

    — Sei lá. — Peguei um pano de chão para secar as suas pegadas. — Como chegou nesse jardim? Ninguém tem acesso a ele a não ser pela cozinha, e você não passou por aqui.

    — Deixa comigo. — Ele disse pegando o pano da minha mão. — Eu conheço todas as passagens secretas desse velho castelo, esqueceu? Uma delas dá no seu jardim.

    — E por que exatamente você precisaria andar pelas passagens secretas? — Ele não respondeu, apenas me lançou um daqueles sorrisos que eu conhecia bem. — Você andou aprontando, não é?

    — Você me conhece, Madson. — Ele disse e jogou o pano úmido em mim depois de ter secado as pequenas poças que ele fez ao entrar encharcado. — Eu nunca apronto.

    — Se eu acordar com sapos no meu travesseiro de novo eu juro que te joga da ponte.

    — Não se preocupe, flor do meu jardim encantado. — Ele pegou uma maçã na fruteira. — Dessa vez são rãs.

     Ao dizer isso, Jack abriu a outra porta e desapareceu no corredor mal iluminado. Não pude deixar de notar que ele parecia animado. Fiquei na cozinha por mais alguns minutos enquanto terminava de guardar uns pratos e umas xícaras. Depois saí e fui para o meu quarto.

    Tudo estava escuro, como de costume, e a chuva caia forte lá fora. Eu andava calmamente enquato dava um jeito nos meus cabelos mal arrumados depois de um longo dia de trabalho.

     Não vou negar que eu estava morta. Tudo o que eu queria era chegar no meu quarto, tomar um banho quente e dormir até o galo cantar.

    — Maddie, que bom que eu te encontrei. — Ouvi alguém falar atrás de mim. Era Charlotte.

    —  Estava me procurando? — Eu perguntei docemente sem parar de andar. Ela começou a caminhar ao meu lado.

    — Sim, eu preciso falar com você. É sobre o Jack.

   — O que tem ele?

   — Eu sei que vocês são bem próximos e eu queria saber se...

   — Se... — Eu perguntei e parei de andar. Ela fez o mesmo.

    — Eu queria saber se ele te falou algo sobre mim. — Ela parecia nervosa. Todos sabiam que a jovem Charlotte, era apaixonada pelo Jack desde sempre. Só ele era tapado de mais para perceber.

    — O que ele deveria ter me dito?

    — Eu não sei, qualquer coisa. Minha mãe espera que ele peça a minha mão amanhã no baile.

      Tive que segurar uma gargalhada. Eu conhecia Jack o suficiente para saber que ele jamais se casaria com alguém que não fosse a linda Fanny, a filha mais nova do Duque de Prata, por quem ele era perdidamente apaixonado desde que tinha uns onze anos. Mas eu não era cruel o suficiente para falar isso para aquela pobre menina apaixonada.

    — Ele não me disse nada. Mas eu acho que ele te comprou um presente que você vai adorar.

   — Sério? — Um sorriso largo iluminou o seu rosto. — O que é?

    — Ora, eu não vou te contra. Você vai ter que esperar até amanhã.

     Ela sorriu e saiu saltitante. Eu segui para o meu quarto, e estava definitivamente exausta. Minha mãe já dormia quando eu cheguei.

    Me deitei na cama e cai num sono tão profundo que eu tenho certeza de que eu morri e ressuscitei na manhã seguinte.

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