Allan e eu corremos até o salão de onde todos tentavam sair tão desesperados. Chegamos a tempo de ver pessoas com capuzes e roupas pretas atacarem quem vissem pela frente. Ao redor, o salão que nós havíamos limpado com tanto cuidado estava, agora, coberto de sangue e corpos.
Um arrepio percorreu o meu corpo, juntamente com a minha consciência que me dizia eu te avisei que algo daria errado.
Eu fiquei paralisado por alguns segundos, até Allan me puxar pelo braço, e nós dois nos escondemos atrás de uma mesa que estava virada num canto do salão.
— Temos que chegar até Charlotte. — Ele disse e apontou para a minha amiga, que estava jogada no chão, bem próxima de nós. Seu peito descia e subia, o que provava que ela ainda estava viva.
O caos reinava naquele lugar. Pessoas feridas e mortas jogadas por tantos os lados, sangue e gritos de medo e dor, e um cheiro terrivelmente forte que fazia os meus pulmões travarem era basicamente tudo que existia naquele lugar, antes tão animado e agitado. Isso sem contar as dez ou onze sombras que batiam a matavam em um silêncio frio e organizado.
Todas aquelas pessoas estavam mortas. As pessoas que estavam comigo há alguns minutos, foram friamente assassinadas. Estavam todas mortas. E se Allan não tivesse me tirado daquele salão minutos antes daquele ataque repentino e sem sentido, eu poderia estar entre aquelas pobres vítimas.
Allan tentava, a todo custo, alcançar um dos pequenos braços de Charlotte para puxá-la até nós, mas, apesar de próxima, ela ainda estava distante demais. Aquelas sombras ainda não tinham nos visto em nosso esconderijo, e se nos vissem, seria o nosso fim.
Foi quando os guardas do Palácio finalmente conseguiram atravessar a multidão assustada que fugia e bloqueava os corredores, e chegaram até o salão. Allan aproveitou o momento de distração e conseguiu puxar Charlotte.
— O Conde de Vênus está logo ali. — Allan disse. — Tenho que trazê-lo até aqui.
Ele deslizou como uma serpente até um homem meio velho que estava jogado no chão, preso embaixo de dois corpos.
— Psiu. — Ouvi alguém atrás de mim. Olhei para trás, e lá estava Jack, olhando para mim por uma pequena fresta na parede. Era una das passagens secretas dele.
Puxei, com um pouco de dificuldade, Charlotte para mais perto da parede, e então ela se abriu. Allan veio até nós enquanto ajudava o Conde a caminhar também.
— Que bom que vocês estão bem. — Jack disse ao fechar a porta secreta atrás de nós. Era um pequeno cômodo rústico e mal iluminado apenas por uma vela. Lá, além de Jack estavam o Rei Jules, com um corte fundo no ombro que sangrava bastante, mais dois homens, e aquele homem estanho que ficava me encarando. Ele não tinha um arranhão se quer.
Me sentei encostada numa das quatro paredes úmidas e apoiei a cabeça de Charlotte no meu colo com cuidado. Enquanto isso, podíamos ouvir o tinir das espadas lá fora. O salão havia se tornado um campo de batalha.
— Tem muitos feridos lá fora. — Allan disse ao ajudar o Conde a se sentar num canto da pequena sala. — Eu vou aproveitar que esses invasores estão distraídos com os guardas e buscar o maior número de pessoas o possível.
— Espere. — Jack disse. — Vamos com você.
— Não se preocupe. — Allan me disse antes de sair.
A porta se fechou atrás dos meus amigos e dos dois outros homens, e então éramos apenas o Rei, o Conde, aquele homem estranho, Charlotte desacordada e eu.
O Conde massageava o próprio tornozelo torcido, quando, de repente, uma faca riscou sua garganta. Seu sangue começou a escorrer pelo ferimento profundo enquanto seus olhos esbugalhados perdiam seu brilho. Ele havia levado ambas as mão gordas até o ferimento, tentando, em vão, impedir ou atrasar o seu fim. Tirei a cabeça de Charlotte do meu colo e pulei sobre o corpo ensanguentado e agitado do Conde. Coloquei minhas mãos sobre as suas, tentando estancar o sangramento, mas foi completamente em vão. Eu vi o momento exato em que a luz da vida se apagou dos seus olhos castanhos, e ele parou de se contorcer. Estava morto.
Minha respiração falhou. Ele estava morto. Sue sangue cobria o meu vestido e as minhas mãos. Me senti um pouco zonza. O Rei gritava do outro lado da sala, pedindo que eu salvasse aquela pobre criatura. Ele estava desesperado e assustado, gritando e chorando como uma criança.
Mas eu mal o ouvia. Ainda não conseguia acreditar no que havia acontecido. Foi quando me lembrei que a garganta daquele pobre homem não havia se cortado sozinha.
Ergui a cabeça. Meu sangue fervia de ódio ao mesmo tempo que congelava de medo. Meus olhos encontraram aqueles mesmos olhos frios que continuavam me encarando. Havia um sorriso cruelmente orgulhoso nos seus lábios, e ele passava um paninho branco sobre a lâmina ensanguentada.
Foi quando o mesmo pensamento cruzou as nossas mentes. Eu sabia o que ele faria a seguir. Tentei impedi-lo. Me levantei e tentei alcançá-lo. Eu nunca quis tanto algo na minha vida, como eu quis agarrar o seu braço e o impedir de riscar outra garganta com aquele punhal.
Mas eu não fui rápida o suficiente. Em um piscar de olhos, ele havia cumprido o seu objetivo. Um jato de sangue ainda quente me acertou desde o rosto até os pés. Eu simplesmente fiquei paralisada. Não conseguia mover um músculo sequer. Apenas fiquei ali, parada em pé no meio da cela, assistindo o sangue jorrar da garganta do Rei Jules, enquanto seus olhos desesperados e fixos nos meus suplicavam por ajuda.
E então, ele morreu.
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O Crime dos Inocentes
FantasyHá algum tempo em uma terra distante, viveu uma garota que foi perseguida e assassinada, acusada de um crime que ela jurou ser inocente até o seu último suspiro. Acusada de ser uma feiticeira, sua vida, simples e feliz, se tornou um verdadeiro i...