Quando voltamos ao palácio já era quase noite, e tudo já estava preparado para o tão esperado baile. A partir daquela noite, tudo ia mudar para todos. Só não esperávamos que seria para pior.
Todos estavam muito agitados, como era de se esperar. Encontrei a minha mãe na cozinha, terminando de decorar o grande bolo de aniversário da filha do Duque de Vuctan.
- Mãe, está tudo bem? Eu fiquei tão preocupada! - Eu disse me aproximando, aliviada por vê-la em segurança.
- Eu estou bem, Madson. - Ela respondeu sem nem sequer olhar para mim.
- Mãe, a senhora não devia ter ido naquele lugar sozinha, é muito perigoso.
- E você não devia se meter tanto na vida dos outros.
- Mas eu...
- Sem mas, Madson. Eu vou ao Bosque dos Milagres comprar esse maldito Leite de Borboleta desde antes de você nascer. Estou acostumada! Sei o caminho até a casa da feiticeira que vende. Sei muito bem o que faço com a minha vida. - Ela gritou.
- Mãe, eu só...
- Você poderia ter morrido lá, sabia? Eu fui bem clara quando pedi que te avisassem que eu tinha saído e que você devia assumir as minhas tarefas. Você não me obedeceu. Preferiu fugir com aquele garoto intrometido e me seguir, não foi!? Eu nunca, em toda a sua vida, te dei motivos para se meter nos meus assuntos. Você devia ter ficado aqui, pelo amor dos Deuses, Madson.
- Eu fiquei preocupada, mãe. - Eu disse baixinho e com os olhos no chão.
- Quando eu cheguei, tudo ainda precisava ser feito. Por sua culpa tudo ficou atrasado e desorganizado. E onde você estava? Sabe-se lá onde com aquele muleque! Perdeu o juízo, garota? Tem alguma noção do que estavam falando de você quando eu cheguei!?
- Allan não é um muleque, mãe. -
- É tudo que você tem a me dizer!? Você me desobedeceu, não terminou as tarefas que eu te pedi, fugiu de casa, foi até não sei onde sozinha com um homem, volta a essas horas com o vestido completamente destruído, amassado, rasgado e cheio de lama, e tudo que você tem a me dizer é em defesa do seu amante!?
- Ele não é meu amante, mãe. É meu amigo. Eu estava preocupada com a senhora e ele se ofereceu para ajudar, só isso.
- Eu não quero ouvir mas nada, senhorita. Você está muito encrencada. Vá se trocar que você servirá os convidados está noite, e acho bom não derrubar uma gota de vinho sequer.
Saí da cozinha acabada. Aquelas palavras atingiram o meu coração como uma facada bem dada.
Eu andava pelos corredores lentamente, apesar da correria e agitação de todos ao meu redor, com os braços cruzados e a cabeça baixa. Fui para o meu quarto, tomei um banho rápido, deu um jeito nos meus cabelos cheios de terra e troquei o meu vestido.
O baile ainda não tinha começado, mas o salão já estava cheio de convidados ansiosos, que tinha sorrisos apreensivos e grandes espectativas para aquela noite. Tudo iria mudar.
Fui até a copa que ficava anexada ao salão, e peguei uma bandeja com algumas taças de uma bebida meio amarelada, e comecei a servir aos poucos convidados que estavam lá, me esforçando para sorrir e ser simpática, apesar do meu coração despedaçado dentro do meu peito.
Eu reconhecia algumas das pessoas que estavam ali. Alguns nobres importantes que temiam uma guerra contra Sullenwood tanto quanto qualquer um de nós.
Deixe-me explicar um pouco sobre essa tal guerra. Nossa relação com a nossa vizinha já não era muito boa desde a Divisão das Quatro Províncias. Numa tentativa audaciosa de mudar isso, nós de Winderwood, demos um baile em homenagem ao Rei Athio de Sullenwood. Só que a sua filha, Princesa Bonnie, aproveitou a oportunidade e fugiu com o seu guarda-costas, o seu amante. Eles estavam apaixonados, mas, por ela ser a única herdeira do trono de Sullenwood, seu pai jamais permitiria que ela se casasse com alguém que não fosse um nobre rico e poderoso.
Eu não culpava a princesa. Se eu fosse obrigada a me casar com alguém que não amo, com certeza faria o mesmo. Mas nem todos pensavam assim. O Rei Athio não aceitou o sumiço da sua única filha, e culpou o nosso Rei Jules pelo ocorrido. Depois de meses procurando por ela ser sucesso, os dois reis tiveram uma terrível discussão, e foi então que tudo ficou tão perigoso. A qualquer momento, uma segunda Guerra das Pedras poderia acontecer.
Sullenwood era conhecida por ter um povo violento e por seu uma Província de soldados e guerreiros. Isso os tornava uma ameaça ainda maior. Por isso, o Rei Jules tentava uma aliança com a segunda pessoa mais poderoso de Fellinwood, o Duque de Vuctan, que tinha um exército bem poderoso. Em troca, o Duque esperava que o príncipe herdeiro do trono de Winderwood pedisse sua filha em casamento, e assim, ela se tornaria rainha.
Além disso, o Rei Jules achou que seria uma boa ideia convidar alguns nobres e políticos de Sullenwood, afim de manter sua boa relação. Quanto mais amigos ao seu lado, menos inimigos para enfrentar.
Mas nada disso passava pela minha cabeça naquele momento. Tudo o que eu conseguia pensar era nas palavras duras da minha mãe. Aquilo realmente me destruiu.
Eu já tinha servido muita bebida quando senti alguém tocou no meu ombro delicadamente. Era Charlotte. Ela estava radiante, vestida com um vestido fino com um tom delicado de rosa que combinava bem com a sua pele branca e seus cabelos loiros.
- Olá, Maddie. - Ela disse sorrindo. - Eu estava te procurando. O que está fazendo aqui?
- O que parece que eu estou fazendo? Estou trabalhando. - Seu sorriso doce desapareceu dos seus lábios e seus olhinhos assumiram uma expressão de tristeza.
- Desculpe. Não quis me meter. - Ela disse por fim.
- Certo, me perdoe. Eu não estou num bom dia. - Me esforcei para sorrir.
- Não tem problema. - Ela disse e seu rosto voltou a se iluminar. - Venha comigo. - Ao dizer isso, ela pegou a bandeja da minha mão e coloco sobre uma mesa ali perto. Depois, Charlotte pegou a minha mão e me arrastou para fora do salão até o seu quarto.
- O que estamos fazendo aqui? - Perguntei.
- Vou te arrumar para o baile, ora bolas. Esqueceu que você é a minha convidada de honra?
- Eu não acho que seja uma boa ideia, Charlotte. Minha mãe já está zangada comigo, e eu tenho que voltar ao trabalho.
- Nada de trabalho hoje, Maddie. Hoje é um dia especial e eu quero que você, como minha amiga, esteja ao meu lado, não servido bebida para os outros.
- Não sei se o Duque de Vuctan ficará feliz com uma criada como convidada.
- Não se preocupe com o Duque. Se preocupe apenas com que cor de vestido você prefere. Eu separei dois dos meus melhores para você, um vermelho e um azul. - Ela disse e pegou dois vestidos maravilhosos que estavam sobre a sua cama. - Qual você prefere?
Eu ainda achava que aquilo era uma péssima ideia. Muita coisa podia dar errado. Mas afinal, Charlotte era a aniversariante, e o baile era em sua homenagem. Quem sou eu para dizer não a filha do Duque de Vuctan?
- Eu sempre gostei de azul.
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O Crime dos Inocentes
FantasyHá algum tempo em uma terra distante, viveu uma garota que foi perseguida e assassinada, acusada de um crime que ela jurou ser inocente até o seu último suspiro. Acusada de ser uma feiticeira, sua vida, simples e feliz, se tornou um verdadeiro i...