Aulas e pesadelos

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Uryuu deitou na cama suspirando profundamente, não se deu nem ao trabalho de ascender as luzes. Quando começou a escurecer, somente ficou ali olhando o teto aos poucos desfocando. Lembrava de todo aquele dia, desde que foi com Ichigo para a casa dele. Duvidando se realmente tudo aquilo aconteceu.

As vezes entre pensamentos se questionava se não estava inventando tudo em sua mente.

Ichigo não se importava em estar com alguém que poderia o oferecer perigo. A máfia e o tráfico eram preocupantes naquela região, eram intensos e Uryuu já presenciou momentos do negócio de seu pai que o assustaram. Era inevitável sentir medo de afetar alguém que gostasse.

E gostava muito daquele ruivo. Mais do que uma simples afeição, mais do que como amigo.

Então, se sentia atraído por homens, certo? Podia se definir em algum ponto? Aquilo tudo era tão confuso. Nunca pensou muito de forma sexual nas pessoas, achou até que teria algum problema em si. Todos a sua volta se apaixonavam, namoravam, transavam e levavam uma adolescência natural, ele nem sequer se preocupava com essas coisas.

Não tinha muitas pespectivas de que seria do tipo que se apaixonaria por alguém ou viesse a querer namorar. Não conseguia se ver tão normal, confiar tanto, se entregar tanto, ser de alguém e não somente de si, tão isolado.

E de repente tinha Ichigo Kurosaki, um cara de cabelos laranjas e tatuagens espalhadas pelo corpo que queria ser seu amigo e naquela tarde o encheu de beijos. Dizer que ele sacudiu a vida do Ishida até derrubar tudo em cima era usar eufemismo, ele tirou tudo do lugar. Mas mesmo no meio daquela catástrofe era ele quem o trazia conforto e paz, era naquela confusão que Uryuu sorria tanto que se assustava.

Não se lembrava de um momento em sua vida que sorria tanto. Aquilo que era viver?

...

Nada daquilo parecia certo, sentia dor, tanta e tanto medo. Era escuro demais, mas sentia a pele queimando como se fosse agredida pelo couro.

Mesmo assim era a solidão que o sufocava, e ele chorava naquele escuro, parecia passar horas, dias, ele continuaria sozinho.

Uryuu acordou de repente apavorado, ligou as luzes, mas olhar ao redor só o trouxe mais lágrimas. Tremendo se arrastou pela cama até abrir uma gaveta do armário e buscar o desenho. Voltou ao canto da cama se encolhendo contra a parede. Tentando parar de chorar para conseguir olhar o desenho dela.

- L-Luíza... – escondeu o rosto nos braços, mas não teria ninguém para o ver chorar.

Uryuu sabia que precisava ser forte por si mesmo, sabia que tinha que aprender a aguentar se sentir tão sozinho. Mas por mais que fingisse para Ichigo ou para os colegas do clube que era bom naquilo, ainda estava apenas aprendendo.

...

O moreno aproveitou que chegou cedo na classe e pegou seu caderno de desenho. Ultimamente estava tão elétrico na rotina de pintar no clube e em casa que mal pegava no simples caderno, agora aproveitava para se distrair com poucos traços onde mais parecia seu diário de tanto que guardava de si.

Parou somente um tempo depois quando viu as mãos prostando sobre sua mesa.

- Oi se decidiu das aulas?

Encarou Ichigo com uma sobrancelha erguida. Aquele ruivo sabia ser irritantemente insistente quando queria.

- Oi... Você já me perguntou isso por mensagem umas dez vezes Ichigo. – Deixou o caderno colado no peito, ele não precisava saber que o desenhava.

Ichigo crusou os braços se erguendo. Usava a jaqueta jeans escura e os cabelos estavam uma bagunça que só na cabeça.

- Se tivesse falado algo diferente de “pensando” não teria sido dez.

Ponta SoltaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora