Decisão

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Ichigo voltou para dentro de casa suspirando pelo o que deveria já ser a décima vez naquele dia. Andava de um lado para o outro na sala pensando se já poderia entrar no consultório. Mesmo assim esperou seu pai sair, o que ainda demorou mais de meia hora para acontecer.

Isshin o olhou de cenho franzido fora do consultório, mas apenas foi em direção ao sofá onde estavam vários jornais e um livro grosso, já que lia antes de toda aquela confusão começar. Recolheu tudo e foi em direção à escada próxima à porta de entrada. Ichigo o parou impaciente.

- Então? Como ele está? – Perguntou mais nervoso pelo silêncio. Isshin sorriu cansado.

- Melhor, ele vai precisar de cuidados agora, em sua saúde também que não parece nada boa... Mas mesmo que eu não tenha notado nenhum órgão comprometido eu ainda não julgaria sem mais uma checagem daqui a pouco. E raiox no mínimo. – Se virou ficando de frente. – A agressão que ele sofreu não me confundiu, eu vi as marcas antigas. É violência doméstica... Posso cuidar de seu corpo, mas a preocupação maior ao meu ver é em seu psicológico.

- Eu sei. Não sei como ajudá-lo, mas faço o que for preciso para ele ficar bem. O pai dele fez isso, e-eu não consigo entender por que alguém faria algo assim contra o próprio filho, é macabro, nenhum motivo justifica! – Disse confuso sem olha-lo apertando os punhos. Isshin aquiesceu.

- As pessoas são confusas Ichigo. Ele acordou, mas acho que já voltou a dormir. Você pode olhá-lo depois de se limpar. Vou ver sua irmã. – Disse batendo de leve em seu ombro e se afastou depois de Ichigo concordar.

Ele até pensou em seguir o que o pai disse, mas somente foi até seu quarto rapidamente trocar a blusa suja e voltou seguindo para a porta do consultório com a esperança de ver os olhos pretos o fitando.

Entrou devagar não desejando acorda-lo caso ele estivesse dormindo, o viu virado para o outro lado deitado e sentou-se no banco em sua frente o olhando. Sem nem notar direito já estava com os óculos dele em mãos o olhando assim como vez ou outra as costas em sua frente cheias de ataduras. Ele estava coberto com um lençol branco até a cintura, deveria ter machucados nas pernas e Ichigo nem chegou a vê-las. Talvez fosse melhor assim, já estava chocado demais.

Ficou ali um bom tempo até ouvir a voz rouca.

- Está muito feio? – Uryuu perguntou baixo olhando fixo o coxão. Ichigo ficou um pouco confuso sobre o que ele falava, mas quando se deu conta respondeu.

- Está tudo coberto, irá cicatrizar. Se quiser um especialista...

- Não. Tudo bem.

Tudo o que não estava era bem, queria dizer isso, mas pelo menos Uryuu parecia melhor. Ficaram em silêncio até ele voltar a falar.

- Você está bem? – O desenhista perguntou deixando o outro confuso. Ele não parecia ter em mente virar-se tão cedo para o encarar.

- Não é você quem tem que fazer essa pergunta.

- Mas... O que está pensando? – Parecia realmente querer saber a resposta.

Ichigo voltou a olhar os óculos deixando a expressão cair. Aqueles acontecimentos acabaram consigo por dentro, ficou tão nervoso e preocupado, pensando sempre no pior.

Mas não revelaria tudo isso. Não que seu peito doía horrivelmente em ver o moreno sentindo dor, não que preferia se machucar igual a vê-lo chorar novamente.

Não, não queria mais ver isso nunca mais.

- Quero te levar em um hospital de verdade. E sei que vai se negar a isso, bem, eu ainda poderia te forçar, mas... Não vou fazer isso. Sei os motivos e estou tentando te entender... Eu sei que pode achar que está sozinho, mas não está Uryuu, também sei que isso é horrível e confiar parece impossível, mas eu já me senti muito perdido assim, talvez até mais. Tem muita coisa sobre mim que você não sabe.

- Ichigo não importa. Não é igual, não somos iguais. Eu não quero nada de você... – Uryuu se encolheu tampando o rosto com os braços falando mesmo que meio abafado. – Eu sei que é horrível, sei que quer me ajudar, mas isso não é nada para mim do que ele já me fez. Eu não quero sua ajuda, isso é uma coisa somente minha. Ele tem poder e dinheiro o bastante para me controlar e me humilhar pelo tempo que desejar. Essa é a minha realidade.

- Uryuu eu...

- Eu só nunca me perdoaria se dividisse isso c-com o único amigo que já fiz. – Sua voz estremeceu, mas logo se recompôs.

- Por que quer me afastar Uryuu? – Ichigo não entendia.

- Por que? Eu já disse. Isso não é problema seu. Por favor não faça mais nada.

Ichigo se encontrava em choque, aquelas palavras o machucaram; Palavras então eram capazes disso?

- Qual o seu problema? Preferia que eu te deixasse naquele carro sangrando e fingisse não ver nada droga?! – Se levantou mas não daria aquilo por encerrado, não conseguia aceitar.

- N-não seria você assim, me desculpe. Obrigado por me ajudar.

- Você não tá pensando em voltar como se nada tivesse acontecido, não é? Olha o que aquele desgraçado fez com você Uryuu! – Disse confuso demais.

- Você não pode mais se meter nisso. É minha decisão! – Mais serio apertou o próprio corpo como se tentasse se proteger.

- Então vai seguir aquela mensagem idiota? – Ichigo não conseguia acreditar naquilo.

- Vou. Olha, eu vou pensar em algo, vou dar um jeito dele não fazer mais isso. E-eu vou resolver. – Só podia se agarrar a isso, foi o que sobrou. A esperança.

- Mas eu estou expulso da sua vida? – Disse sarcástico agora se afastando.

Prensou a palma na porta fechada, o peito dando várias fisgadas o incomodando. Não queria sentir tanto, mas tinha sido inesperado, pela pessoa inesperada. De repente se viu preso a ele, a esse sentimento. Unilateral. Realmente nem tudo dava certo.

– Aquele beijo... Importou para mim. Desculpa, mas eu não ando sendo honesto... Estou apaixonado por você.

Desceu a mão à maçaneta, vista a falta de resposta do outro e saiu do quarto. Uryuu estava chocado, sua mente pareceu perder-se por um momento vagando no breu total repetindo aquelas palavras até voltar e ver os punhos apertados fortemente em sua frente, abriu a mão percebendo que a mesma tremia e fechou os olhos cobrindo novamente a cabeça. Só podia estar passando mal.

Seu coração batia forte demais.

Ponta SoltaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora