Obs: tomei muito cuidado com os gatilhos que qualquer frase possa gerar, li e reli várias vezes, preocupada. Mas, mesmo tomando esse cuidado, tome cuidado também. E, caso sinta algum gatilho, pode avisar! Estou disposta a conversar sobre, sempre.Por muito tempo eu não quis sair da minha zona de conforto e mergulhar na dor que é encarar a realidade. A realidade de uma ferida ainda aberta, de um corpo violado, de uma dignidade perdida em um dia. Uma ferida que não me define, uma violação que não me define, um dia que não define nem um terço do que eu sou. Porque sei que sou maior que qualquer uma dessas lembranças. Mas elas doem e eu preciso encarar, eu preciso mergulhar nesse mar inconsciente e tentar descobrir algo sobre mim mesma que se perdeu aquele dia.
Por isso, decidi escrever pra você. Porque entendi que a minha cura anda de mãos dadas com a sua, e que te escrever isso ajuda a cicatrizar a minha ferida. Porque a sensação de ter alguém que me entende é melhor do que o silêncio ensurdecedor de escrever só para mim, e ter medo do que daqui pode sair.
Ainda não sei dar nome ao que aconteceu comigo. Na vida as coisas não são tão preto no branco. As linhas são menos demarcadas e os limites do que é ou não violar a integridade alheia é uma zona nebulosa, algumas vezes. No meu caso, eu enxergo assim. E tomo a liberdade de enxergar da forma como eu vejo, porque a narrativa é minha e decido aqui que a única pessoa que pode contar essa história sou eu, e não há ninguém lá fora com a permissão e liberdade de me julgar.
Eu estava bêbada, não me lembro de quase nada. Sei que alguns chamariam de abuso, assédio. E sei que eu ainda não sei de que forma chamar. Sei que foi ruim. Sei que foi invasivo. Sei que não deveria ter acontecido só porque eu não tive o discernimento de dizer "não". Porque não tive a capacidade, no momento, a sobriedade necessária. Porque não lembro, e tudo o que me restam são flashes. Naquele momento eu nada mais era do que uma mulher em seu estado de maior vulnerabilidade: a embriaguez. Quem anda do meu lado sabe bem do que eu estou falando. Quem anda comigo entende que nós, mulheres, não podemos beber em paz. Não podemos aproveitar absolutamente nenhum momento de descontração em paz porque basta um deslize para que a nossa integridade seja colocada em cheque e a nossa liberdade seja usada contra nós.
A minha foi, àquela noite. Já era de manhã, na verdade, e a intenção era fazer um after. Eu não conhecia ele direito, mas nunca fui com a cara. Sabe aquela pessoa que simplesmente não te passa uma energia boa? Pois é, isso era o que ele representava para mim. Por que eu aceitei ir até à casa dele? Não sei. Não lembro. Estava bêbada com um grupo de amigos. E estar bêbada é um direito feminino assim como é um direito masculino e isso não gera nenhuma discussão. Mas, quando somos nós que estamos bêbadas, esse detalhe serve de justificativa, não é? Eu sei.
Tenho um flash totalmente nebuloso ao chegar à cama. Lembro de acordar, não sei quanto tempo depois, e voltar ao mesmo quarto para mudar de roupa e ir embora. Até que o meu mundo desmoronou quando eu olhei para o chão e vi a minha calcinha. Vermelha, bonita. Era uma das minha favoritas. Não existem palavras no dicionário que descrevam a sensação de ter visto aquela peça de roupa no chão. Uma onda tomou o meu corpo, um desespero, a constatação do que tinha acontecido. Tive o ímpeto de me vestir rapidamente e ir para casa. Um dos meninos presentes na casa se ofereceu para me levar. Ele parecia decente e, no estado que eu estava, acho que aceitaria até a carona do diabo se ele estivesse disponível para me levar até a minha casa, à minha cama, à minha mãe.
"Se você quiser, a gente vai à delegacia" ele sugere. O olhar dele era de tanta preocupação que me deu vontade de implorar por um abraço, mesmo sem conhecer aquele homem. Acho que, afinal, ele sabia do amigo que tinha. Porque quem sugere ir à delegacia com uma mulher que não conhece para prestar queixa de uma coisa que eu nem sequer mencionei a ele? Só posso pensar que ele imaginava. E ninguém imagina por coincidência, a imaginação segue uma certa lógica. Alguma coisa fez ele pensar que era lógico se oferecer de ir comigo prestar queixa contra o amigo.
Mas o que eu falaria? Que ele me assediou? Que eu acordei tendo uma crise de ansiedade ao olhar para a minha roupa no chão do quarto? "Você disse que não queria?" perguntariam, "eu estava completamente bêbada" eu responderia. "Você estava desacordada?" não, eu não estava desacordada. O que isso significaria, entende? Eu não fazia a menor ideia de como chamar o evento em questão. Ainda não faço e me dou o direito de não fazer. Porque nem lembrança concreta eu tenho. Era só um vulto, um borrão. Uma eu completamente bêbada na cama de um homem de quem nunca gostei. Não fomos à delegacia. Fui para casa. Chorei, chorei, chorei.
Tomei banho e continuei me sentindo suja. Joguei a minha calcinha favorita no lixo, já que não podia descartar a lembrança. Tentava lembrar da sensação do corpo dele e não conseguia, e doía tentar. Uma dor que é quase física. Um choro que não sai da garganta, um grito que eu até hoje não consegui dar. Porque depois tudo silenciou. Pensar sobre me deixava com nojo de mim mesma, então decidi não pensar. As lembranças vinham e eu espantava, pensava em outra coisa, mentalizava uma pessoa diferente, um beijo gostoso, um sexo consentido e delicioso. Eu definitivamente não queria pensar naquele dia.
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Reflexões para todas
Historia CortaAqui eu escrevo alguma reflexões sobre ser mulher nesse mundo. Sobre amadurecer e desnaturalizar certas premissas e se desconstruir diariamente, porque viver é isso. Algumas dores precisam ser sentidas, faladas, tocadas. E aqui eu me permito ser vul...