Há uns meses li relatos de algumas vítimas, todas em situação de embriaguez e com um agressor comum: um ex-bbb. Mas poderia ser qualquer outro caso, em qualquer lugar do mundo. Ia doer igual.
Mas alguns pontos precisam ser destacados nesse caso específico:
A torcida do ex-bbb em questão, que aqui vou chamar de Alfredo, era majoritariamente composta por homens. Héteros. E é importante dizer héteros para gente entender que estamos falando de homens que se relacionam com mulheres. Vale ressaltar aqui que o processo ainda está em andamento, então ainda não sabemos a conclusão do caso. Ok? Ok.
Mas é também importante ressaltar que o cenário da agressão é socialmente criado. Por nós. Por nós que naturalizamos falas machistas e que relevamos comportamentos agressivos, por mais sutis que eles sejam. O cenário da agressão é formado todas as vezes que a gente chama de personalidade forte o temperamento explosivo masculino e a incapacidade de ouvir uma opinião diferente da sua. Alfredo era um homem de quase 30 anos que, em rede nacional, falou que gritava com sua mãe como justificativa para gritar com outras mulheres durante o programa. Que riu quando seu amigo falou algo como "só não comi porque não estava com fome" se referindo a uma mulher. Que disse, em tom orgulhoso, que sim, era expulso de todos os jogos de futebol que participava por conta de seu temperamento. E o público riu dessas coisas, nós rimos dessas coisas. Talvez pela mania feminina de olhar erros masculinos pela lente da maternidade, talvez pela identificação masculina com o temperamento explosivo. Só que naturalizar esse tipo de coisa é ajudar a montar o cenário da impunidade.
É preciso enxergar o assédio/estupro/abuso como um castelo, e os detalhes comportamentais - individuais e coletivos - fazem parte das colunas que mantém esse castelo de pé. Os detalhes são, sim, importantes! Aquilo que é falado e como é falado é muito importante.
O que me faz pensar: com quantos Alfredos a gente convive? Com quantos homens que relevam atitudes de Alfredo eu convivo? Quantas vítimas desse tipo de agressão você, mulher, conhece? Que foram assediadas ou estupradas porque estavam bêbadas em festas. Ou sóbrias. Ou em casa. Ou usando roupa curta. Ou usando roupa longa. Vítimas que se lembram, vítimas que não têm essa memória. Vítimas que não tinham condições de lembrar de absolutamente nada no dia seguinte. Isso é justo?
E eu não reflito e nem escrevo sobre isso porque sou A Chata Problematizadora, não. É porque eu tenho medo pra cacete. É porque eu tenho pavor de falar aquela frase. Ou de ouvir. Ou de lembrar. A frase que não queremos que saia da nossa boca e não queremos que chegue aos nossos ouvidos, vinda de uma amiga próxima ou de qualquer outra mulher.
A grande maioria dos agressores não se apresenta ao mundo como agressor. Esse tipo de conduta não está escrita na testa, não é verbalizada para que a gente saiba com quem estamos lidando. Nenhum homem chega até nós dizendo "olha, estuprei mulheres bêbadas no passado" ou "acobertei alguns amigos assediadores". Mas, geralmente, a agressão vem associada a detalhes sutis. Falas machistas, agressivas, desrespeitosas... Precisamos parar de passar pano para homens adultos que se comportam como adolescentes explosivos. Não somos suas mães para precisar ensiná-los sobre o que é certo e o que é errado. Adultos devem saber se comportar como adultos, se relacionando de forma respeitosa com outras pessoas, homens ou mulheres, e lidando com seus erros e escolhas. Precisamos parar de ignorar comportamentos agressivos, sejam eles quais forem - desde uma fala até um silenciar frente a algo inaceitável. O castelo do assédio só vai ser demolido se estivermos dispostas - e dispostos - a lutar contra seus pilares de sustentação.
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Reflexões para todas
Historia CortaAqui eu escrevo alguma reflexões sobre ser mulher nesse mundo. Sobre amadurecer e desnaturalizar certas premissas e se desconstruir diariamente, porque viver é isso. Algumas dores precisam ser sentidas, faladas, tocadas. E aqui eu me permito ser vul...