Seguimos em silêncio o caminho para o escritório do capitão, ele ficava no último andar da penitenciária, com a porta sempre fechada, ninguém nunca viu o rosto do capitão, era raro ele descer para cuidar das detentas, Ark já fazia isso por ele então por que se incomodar? Na verdade, muitos dizem que ele nunca ficava na prisão, o que faz sentido, na minha opinião.
O corredor era bem iluminado e muito bem limpo, ao contrário do resto da prisão, o teto era alto, me fazendo sentir pequena, e eu já não sou muito alta, as janelas grandes também não ajudavam, em cada parede haviam quadros com pessoas, provavelmente eram os capitães anteriores ao atual, ou os fundadores da PFFS.
Em cada parede também haviam guardas, numa posição perfeita, se não fosse pelo movimento de seus peitos poderia dizer que eles eram estátuas.
Segurando meu braço, Ark me conduziu pelo corredor majestoso até uma porta dupla grande e branca, com dois guardas, ao ver Ark se aproximando, os dois foram até as maçanetas, abrindo a porta.
O escritório do capitão era tão grande quanto o corredor, com uma grande janela que dava para o pátio da prisão, a cortina estava fechada e quase nenhum feixe de luz passava pela mesma, o lugar era cercado por prateleiras cheias de livros, com luminárias amareladas nas mesmas, oferecendo uma iluminação fraca para o lugar, uma mesa em meia lua estava disposta logo a frente da janela, em cima dessa também estava uma luminária amarelada, uma pilha de livros e alguns livros abertos e espalhados, uma cadeira estava atrás da mesma e outra na frente, imagino que uma delas seja para mim.
Assim que entramos na sala, as portas atrás de nós se fecharam eu fiquei olhando envolta até que uma voz soou:
- Pode colocar ela na cadeira por favor?
A voz ainda estava distante, e parecia ser de alguém com certa idade já, porém parecia muito suave ao mesmo tempo.
Ark me conduziu até a cadeira de frente para a mesa e sinalizou para que eu me sentasse, fiz o que ele pediu e continuei olhando envolta. Logo a voz voltou a soar, dessa vez mais perto:
- Pode se retirar.
Ark assentiu com a cabeça e se virava, eu não me virei para ver ele saindo, só ouvi a porta abrir e fechar novamente, eu olhei em volta, procurando o dono da voz.
- Se você está procurando por mim, eu estou aqui em cima.
Eu olhei na direção do som, lá estava, um homem na casa dos 50 ou 60, com um uniforme militar preto e um bigode perfeitamente aparado, ele estava numa espécie de plataforma de madeira, ela dava para uma das estantes de cima.
O senhor então desceu a escada caracol com um livro em mãos, ele foi até a mesma e o colocou na pilha de livros, se sentando na cadeira e colocando as mãos na mesa.
- Imagino que esteja se perguntando por que eu te chamei aqui não?
Eu abri a boca, estava com mil perguntas para fazer, mas ele levantou a mão, me calando.
- Antes que você possa me jogar mais de mil perguntas...
Ele dizia colocando um envelope preto em cima da mesa, era um envelope muito bem lacrado com um selo roxo, no selo havia o símbolo de um dez em letras romanas.
Ao ver o selo, me arrepiei, aquilo era sinônimo de problema. Peguei o envelope devagar, como se a qualquer momento fosse se transformar em um monstro e morder minha mão, analisei o mesmo virando-o de um lado para o outro, e finalmente abrindo-o.
O papel escolhido era um papel próprio para carta e a caligrafia foi feita à mão, numa letra chique e enfeitada, eu olhei para o capitão procurando alguma resposta, mas a única que eu tive foi um balançar de cabeça leve, sinalizando que eu deveria ler o que estava escrito.
Minha cara Karma.
Acho que já sabe quem lhe enviou essa carta, considere isso um convite, eu lhe convido a voltar para meu "grupinho", você e seus velhos companheiros, e se não aceitar meu convite, bom, você vai morrer de qualquer jeito, se lembra daquela dívida que mencionei?
Atenciosamente. Seu fantasma preferido.
Eu coloquei a carta de volta na mesa, então era esse o joguinho dele? Ou faço o que ele manda ou então eu morro. Desgraçado.
- Pela sua expressão presumo que conhece ele, eu recebi essa carta no meu escritório hoje de manhã junto com um bilhete, no bilhete ele dizia que se eu te tirasse daqui me deixaria em paz.
Ele se levantava com as mãos no bolso e andava até ficar do lado da mesa.
- Sabe detenta, eu não deveria ligar para pessoas do seu tipo, mas minha vida está em jogo aqui, e eu imagino que você também queira viver não?
Eu olhava para ele sem saber o que responder, eu não sabia muito bem do que ele estava falando, mas de uma coisa ele tinha razão, eu queria viver.
- Acho que temos um trato, eu solto você e seus amigos e ele me deixa em paz.
Eu suspirei e me levantei, estendendo uma das mãos para o capitão.
- Temos um trato.
Ele apertou minha mão e eu voltei a me sentar, assim como ele, ele puxava do meio da pilha de livros uma espécie de interfone, ele apertava o botão vermelho.
- Podem levar a detenta, não tenho mais nada para resolver com ela.
Após dizer isso, a porta se abria, um guarda que eu não conhecia entrava, com expressão impassível como os outros do corredor, eu me levantava e ele pegava meu braço, dei uma última olhada para trás, o velho capitão agora lia um livro.
Passamos pela grande porta branca que se fechou lentamente, eu voltei a olhar para frente.
-
O guarda me levou até minha cela sem dizer nem uma palavra ou sequer falar comigo, realmente parecia uma estátua viva.
A cela estava vazia, Lilian e Bett deveriam estar no pátio agora.
Foi só aí que a ficha caiu.
Eu estava livre?
Aparentemente sim.
E o que foi aquilo no escritório?
Apenas negócios.
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Cicatrizes
FantasiNa grande cidade de Souterrain, uma briga política surge entre os governadores e a máfia, que ganhava força cada vez mais, no meio desse conflito estão aqueles que apenas querem se beneficiar e aqueles que não são afetados pelo conflito. Karma é a l...