Quinto Encontro

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Estávamos na entrada da casa, confesso que eu estava encarando a bicicleta como se aquilo fosse algo de outro mundo.

- Parece que você está com medo - ele falou.

- Isso aí pode ser perigoso.

- É uma bicicleta, querida.

- Qualquer meio de transporte com menos de três rodas, eu considero perigoso.

- Vem cá - ele me puxou gentilmente pela mão.

- Eu não quero aprender a andar de bicicleta.

- Por que não? você vai adorar!

- Não estou afim de me machucar no processo.

- Relaxa, vem senta aqui que vou segurar a bicicleta - olhei desconfiada para aquele instrumento, mas acabei sentando.

- Certo, agora coloca os pés nos pedais.

- Mas aí eu não vou conseguir me equilibrar.

- Eu sei, mas vou continuar segurando, confia em mim.

- Se você soltar, eu acabo com você - coloquei os pés nos pedais, e comecei a pedalar devagar.

- Isso mesmo - ele me incentivava, porém ainda estou receosa de que ele me solte - mas é muito incomum que você não tenha aprendido a andar de bicicleta durante a infância.

- Não tínhamos muito tempo.

- Sua mãe?

- Sim - respirei fundo e me deixei inundar pelas memórias - foi de uma hora para outra, um dia mamãe começou a se sentir mal, estava mais cansada e com dores, ela ignorou, achando que era apenas cansaço, mas as coisas foram ficando cada vez piores, e quando papai a convenceu a procurar um médico veio o diagnóstico, e então começaram as sessões de quimioterapia.

- Sei o que é isso.

- Ela ficava vem ruim com as medicações, então não tínhamos tempo para esse tipo de coisa, papai e eu passávamos todo o tempo possível com ela, e na maior parte desse, ela não conseguia sair da cama, então era lá que ficávamos.

- E o que vocês faziam?

- Assistíamos filmes, liamos, principalmente liamos.

- Daí essa paixão?

- Sim, mamãe lia para mim antes de dormir, mas não eram contos de fadas, eram as crônicas de Nárnia, o senhor dos anéis, o hobbit...

- Uau.

- Sim, mas quando mamãe ficou doente passamos a ler ainda mais, ela queria que eu virasse escritora, mas eu não tenho talento nenhum para isso.

- Quando minha foi ficou doente, foi assim também, mas acho que com a minha mãe acabou sendo mais rápido, com a sua mãe foram anos.

- Sim, três anos. Quando ela descansou papai acabou se concentrando ainda mais na fazenda, e eu nos estudos, acho que essas foram nossas válvulas de escape, e acabamos ficando ainda mais unidos, e com você e o Dylan, como foi?

- Como eu te disse, mamãe ficou doente e eu voltei para o Texas, ela já tinha descoberto a um tempo que estava doente, porém não falou nada, ela vendeu a casa para arcar com as despesas médicas, mas ela não teve três anos, em menos de dois já tinha ocorrido metástase.

- Sinto muito,

- Obrigado.

- Como é ter um irmão gêmeo - tentei mudar de assunto para mudar o clima.

- Eu não sei, não tenho outro irmão e nunca fui filho único para ter com o que comparar.

- Fala sério.

- É sério - Arthur sorri - acho que ter um irmão gêmeo é ter uma outra parte de você, em uma outra pessoa, é estranho mas temos uma ligação tão forte, que as vezes estamos em estados diferentes mas eu sinto que meu irmão não está bem, e quando eu ligo para ele realmente existe algo errado. Quando éramos crianças as vezes eu me machucava e no outro dia, Dylan estava com uma mancha roxa no mesmo lugar.

- Meu Deus, eu já ouvi isso, mas sempre achei que fosse exagero das pessoas.

- Pode acreditar, é verdade. Acho que o melhor em se ter um irmão gêmeo é saber que você nunca vai ficar sozinho.

- Eu adoraria ter um irmão.

- Não consigo imaginar minha vida sem meu irmão, mas nesse momento você precisa prestar atenção ao que está fazendo.

- Como assim? - quando me dei conta percebi que ele estava de braços cruzados andando ao meu lado, enquanto eu pedalava sem apoio na bicicleta, e é claro que nesse momento eu perdi totalmente o equilíbrio e cai de bunda no chão - Aí!

- Sua boba, estava indo super bem - ele estendeu a mão para me ajudar a levantar.

- Seu cretino, você disse que não soltaria.

- E por que você acreditou em mim?

- Não vou cometer esse erro novamente - me levantei - e para de rir de mim

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- Não vou cometer esse erro novamente - me levantei - e para de rir de mim.

- Foi engraçado ver você caindo.

- Vou enfiar a mão na sua cara, aí você vai ver o que é engraçado.

Isso só o fez rir ainda mais.

- Quantos filhos você quer ter - eu com toda a certeza não estava esperando esse tipo de pergunta.

- De onde veio essa pergunta?

- É uma curiosidade natural.

- Quantos filhos você quer ter?

- Três, dois garotos gêmeos, e uma menininha.

- Você não pode escolher o sexo dos seus filhos, e nem decidir se serão ou não gêmeos.

- É claro que posso.

- Não, não pode.

- Serão meus filhos, eles vão me ouvir, quer apostar?

- Se você tiver dois meninos gêmeos e uma menina, eu...

- Participa deu uma corrida de ciclistas.

- Idiota, quando eu ganhar você vai se vestir de superman para uma ocasião a ser escolhida no futuro.

- Você tem um fetiche por fantasias, mulher.

- Eu gosto de fantasias.

- Você podia usar algumas para mim - ele disse dando uma piscadela.

- Nunca se sabe.

- Vou gostar disso, mas não me enrola, quantos filhos?

- Três, duas meninas e um menino.

- Você não pode escolher o sexo dos seus filhos - ele usou minha frase contra mim.

- Eu vou ser a mãe deles, eles vão me obedecer.


Se passou tão pouco tempo, mas mesmo assim é como se eu tivesse passado minha vida inteira ao lado desse homem.

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