Um: Calmaria Antes da Tempestade

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"Bem, quando você olha o infinito, você se dá conta que há coisas mais importantes do que aquilo que as pessoas fazem todos os dias"

Calvin e Haroldo

      Ela permanece sentada no topo de um dos tantos morros do local, acabara de se iniciar o crepúsculo e a moça parecia apreciar a visão que lhe era oferecida. As pontas de seus dedos estavam afundadas na grama, sentindo todas as vibrações de vida que conseguia processar. As árvores, os pássaros, os insetos, as flores; eram tantas ondas vitais que ao encarar o sol, parecia que o mesmo também emanava sua energia para que ela sentisse.

      Porém, foi quando o céu começou a escurecer que o verdadeiro espetáculo se iniciou. A moça se permite deitar na grama, fazendo com que seus cabelos vermelhos se espalhem pelo chão. As estrelas, mesmo com o decorrer do pôr do sol, já brilhavam com sua majestade pela imensidão anil. Ela perdia o folego sempre que tentava contemplar inteiramente a magia tão bela das estrelas. A garota fecha seus olhos e um sorriso surge em seus lábios.

      Sua paz de espirito foi rapidamente dissipada ao ouvir as badaladas – absurdamente altas para a distância em que estava da cidade – da torre do sino do Templo de Aria. Seu sorriso desaparece com facilidade e ela quase bufa ao lembrar que sua reunião – possivelmente a mais importante de todas – iria começar em meia hora. E trinta minutos não é o bastante para atravessar a metrópole, porém, pelo menos, não teria que passar por todos os distritos para chegar lá.

      Levanta-se contra sua vontade e caminha em direção à Veloce – seu cavalo – que permanecia pastando calmamente um pouco afastado dela. A moça sobe em seu alazão e começa a cavalgar em direção a cidade. Passa pelo distrito Roccia, com suas confortáveis casas feitas de pedra, seus comércios quase fechando com o inicio da noite e seus pequenos prédios de escritório. Teve que prestar muita atenção no tráfego rápido dos carros para que nem ela, nem Veloce, sofressem um acidente.

      As construções de pedra foram dando lugar para os prédios brancos, as universidades, o Tribunal de Justiça e o Templo que fazem parte do distrito Aria. Conforme ia escurecendo ela avança cidade à dentro, tomando rumo de sua reunião. Perceber que havia adentrado o distrito Fuoco não foi difícil, os prédios tornaram-se mais altos e imponentes. Em pontos específicos das ruas – mesmo sendo iluminadas por postes – há pilares altos que em seu topo há uma espécie de bacia, onde chamas permanecem queimando dia e noite sem cessar; são como bandeiras que parecem impor a importância de seu poder por sobre toda a cidade.

      O edifício onde aconteceria sua reunião, a sede de Fuoco, conseguia destacar-se dos demais pela grandiosidade da construção e também pela sua cor. A mescla do preto e do vermelho brilhante dava a impressão que lava vulcânica escorria pelas paredes do prédio. A moça desce de seu cavalo, acaricia sua fronte e o instrui que ficasse no pequenino jardim que há na frente da sede.

      Ela passa pelas portas do edifício sendo cumprimentada pelos dois guardas que permanecem na porta guardando o local. Vai em direção ao elevador sem ao menos se dar ao trabalho de pedir para o recepcionista que fica sentado em uma mesa no hall de entrada do prédio. Entra na caixa metálica, aperta no botão do andar mais alto e começa a bater seu dedo indicador em sua coxa assim que as portas do elevador se fecham. Respira fundo. Metal – qualquer um – não é algo que seu povo aprecie, frio demais, sem vida demais, são de naturezas muito opostas.

      Quando o elevador para no ultimo andar ela reprime um suspiro de alívio por poder sair daquela maldita caixa, acena com a cabeça para Manuela, a secretária, que lhe oferece um sorriso nervoso. A moça se direciona a sala de reuniões e respira fundo antes de abrir a porta. Adentra o local com um sorriso gentil no rosto, senta em sua cadeira e observa cautelosamente os outros três integrantes do conselho dos lideres. E um deles parece um tanto irritado.

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