Meu pai não presta
"Um amigo é uma pessoa que, acima de tudo,
Se importa com seus sentimentos"
🖤
Any Gabrielly
- O que você tá fazendo aqui? – digo ainda apoiando minha testa na porta fechada do quarto.
- Bom, no momento, conversando com uma pessoa que nem se vira para olhar pra mim, o que está me deixando levemente ofendido.
- Não, eu quero dizer aqui nesse quarto, no hospital...
- Eu que deveria te perguntar isso, já que quem invadiu meu quarto, literalmente do nada, foi você – essa frase atiça minha curiosidade e me faz, finalmente, virar para olhar Noah. Ele está mais magro, com olheiras profundas e a pele pálida. Ele sempre foi esguio, mas estou conseguindo ver claramente seus ossos zigomáticos e sua clavícula. Ele parece sumir por baixo de seu moletom, e parece que toda tentativa de engolir sua saliva é como engolir uma bola de canhão. Não consigo pensar em uma resposta para sua última frase, estou muito chocada para isso – Nunca te falaram que encarar é feio? – pergunta ele, desviando o olhar de mim e dando uma risada nasalada, enquanto eu sou levada por meus pés até a cama dele.
- O que aconteceu com você? - pergunto, observando melhor seu corpo.
- Considerando que eu estou na ala de reabilitação, já se pode ter uma ideia – não exatamente, reabilitações podem ser por diversos motivos que poderiam se aplicar a ele, já que eu não o conheço o bastante.
Então, consigo observar melhor o quarto. Ele não é como os outros quartos do Hospital, tem um cavalete de pintura no canto, ao lado de uma grande janela de vidro, com vista para as ruas movimentadas de Manhattan. Na parede ao lado do cavalete há uma escrivaninha com um abajur e alguns livros didáticos empilhados e na mesa de cabeceira ao lado de Noah, mais uma pilha de livros, mas dessa vez, literários, dentre eles, "Dom Quixote", "O Morro dos Ventos Uivantes" e "A Divina Comédia", mas o que mais chamou minha atenção foi "O Apanhador no Campo de Centeio", que era mais desgastado, sendo quase impossível ler o nome do livro na lombada. Era este livro que estava por cima da pilha.
Decido circular pelo pequeno espaço, observando uma corda com prendedores, presa a parede, para, assumo, colocar fotos. Mas, por enquanto, os prendedores de Noah estão vazios. Me aproximo mais da escrivaninha, para ver o que ele estava estudando, assumindo que era alguma matéria da escola, já que ele não estava indo às aulas. Química Orgânica e umas folhas avulsas de Sociologia.
- Qual é o curso de faculdade que requer Química e Sociologia? – digo me virando levemente para ele, ainda na cama atrás de mim.
- Nenhum, mas meus créditos de humanidades para entrar em basicamente qualquer faculdade estão muito ruins... – dou uma leve risada e continuo a explorar seu quarto com meus olhos.
Na pequena lixeira ao lado da escrivaninha, vejo alguns papéis que consigo ler. Ignoro as objeções de Noah enquanto me abaixo para pegar um deles e rapidamente leio as palavras "10 passos importantes para largar as drogas" e "superando recaídas". Era um folheto de auto ajuda para dependentes químicos. Sinto meu coração acelerar e meu cérebro voltar a inúmeros cenários desagradáveis, mas respiro fundo e apenas pergunto com o resto de voz que ainda restava no meu corpo:
- Você teve uma overdose? - pergunto em um quase sussurro.
- O que você acha?
- Eu acho que você é ridículo por fazer isso com você mesmo.
- Você ta falando igual a Sabina... Não preciso ouvir de novo - essa resposta me enraivece, então me viro para ele e me apoio em sua cama.
- Você não me conhece, eu não dou a mínima para o que a Sabina te disse que te deixou tão machucadinho, pode me chamar de nerd, de riquinha mimada, perfeitinha, qualquer coisa que você e suas amiguinhas já me chamaram, mas eu. Não. Sou. Igual. A Sabina - ele apenas me olha sem reação - quando você vê que seu corpo não ta aguentando os estragos que você faz, você não é tão corajoso, aparentemente. Típico. Pelo menos você percebeu e decidiu descer do seu pedestal para procurar ajuda, mas pra isso funcionar você precisa parar com essa atitude idiota - continuo olhando para sua face inexpressiva.
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Head Under Water - Noshany
Romance(Em pausa) Às vezes, quando sua vida está te matando, é melhor se manter debaixo d'água para o tempo parar e adiar o último suspiro. Mas será que quando você parece estar afogando, na verdade está sendo salva? Todo mergulho é um aprendizado e todo a...
