𝙲 𝚊 𝚕 𝚒 𝚜 𝚝 𝚘

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" 𝚎 𝚙𝚎𝚕𝚊 𝚙𝚛𝚒𝚖𝚎𝚒𝚛𝚊 𝚟𝚎𝚣, 𝚌𝚘𝚗𝚑𝚎𝚌𝚎𝚞 𝚊 𝚙𝚘𝚎𝚜𝚒𝚊 𝚗𝚊 𝚏𝚘𝚛𝚖𝚊 𝚑𝚞𝚖𝚊𝚗𝚊"

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A velha máquina de escrever trabalhava sem parar naquela manhã, Aza mais uma vez se encontrava em um de seus tão temidos bloqueios criativos que parecia a perseguir muito naquela última semana. Trabalhava para realizar seu maior sonho, publicar um livro de curtos poemas, pensamentos que lhe vinham a cabeça em momentos não convencionais, mas não imaginou que seria tão difícil.
O porão da casa dos pais se tornara pequeno demais para seus pensamentos desordenados e por muitas vezes desastrosos.
A suave melodia de um piano preenchia o local, Pas de Deux de Lucas Vendrai, a playlist aleatória sempre sugeria as notas soltas da mesma pessoa, como se fosse uma forma do destino dizer que coisas repetitivas podem cansar, e se tornarem menos atraentes. Cansada, tombou a cabeça para trás condenando sua terrível dor de cabeça que a impedia de escrever qualquer minha palavra.

Olhou em volta do espaço onde passava grande parte do tempo, as paredes pintadas em um amarelo forte ridículo não entravam em harmonia com qualquer que fosse o móvel naquele lugar. Apesar das cores chamativas e para muitos um tanto ultrapassadas, aquele pequeno cômodo a descrevia por inteiro. Bagunçada, alegre e as vezes abatida, mas sempre com uma linda aura. Sentiu um vento frio passar por ela, a pequena janela estava aberta, uma com a chuva caia e a cidade se encontrava acinzentada, como se estivesse triste. Seria o clima perfeito para escrever de forma inspiradora mas simplesmente não conseguia.
Deixou então que seus pensamentos errantes lhe guiassem por suas mais profundas memórias, entre passeios solitários ao pôr do sol até o mais animado dos jantares de Natal. Embora quisesse muito que aqueles momentos voltassem, não teria outra oportunidade a não ser revivê-los sempre quando não consegue escrever. Sua família acabou se desestruturando após a morte do avô, brigas por conta da heranças é claro, foram os maiores responsáveis.

Cansada de tentar colocar qualquer merda que fosse no papel, se levantou da cadeira giratória barulhenta e subiu escada acima. Procurou pela mãe mas não a encontrava, logo lembrou -se de que ela estaria na cozinha preparando um delicioso pão com mel e um café quente para aquela manhã chuvosa. Entrou no cômodo vendo a mulher de cabelos desajeitados e um pouco sujos de farinha preparando o pão, gostava de ver a mãe amassando a massa com grandes dozes de amor.
─ Finalmente saiu daquele buraco.─ Comentou a mulher.
─ Não chame meu local de trabalho de buraco, é meu cantinho especial mãe!─ falou em um riso soprado.
A mãe gostava de provocar a filha chamando o porão de "buraco", faz apenas para ver a cara brava da garota a qual ela dizia lembrar muito o avô. Vovô Benjamin era a verdadeira inspiração para Aza, talvez seu exagerado bloqueio tenha a ver com o fato do homem não estar mais naquele plano.

Aza pegou da cesta alguns biscoitos e retirou do armário sua caneca de cachorrinhos, preparou um delicioso chocolate com leite quentinho e voltou para o porão. Desde a morte do avô ela evitava ficar na parte de cima da casa por ter medo de encontrar o pai e ele desferir palavras humilhantes pela sua escolha de carreira. O pai de Aza abominava o fato de que ela e Benjamin eram exatamente iguais, amavam poesia e tinham até o mesmo escritor predileto. Benjamin também queria publicar um livro mas infelizmente não o fez. Aza lembra -se até hoje do pedido do avô antes de morrer; "escreva o melhor dos livros de poesia criança, realize esse sonho por mim, serei toda a sua força minha pequena escritora.", são essas palavras que motivam ela a se sentar na cadeira barulhenta e escrever como se não houvesse amanhã. Encarou a máquina de escrever um tanto enferrujada, poderia escrever em um notebook moderno de última geração mas nada tirava a graça de escrever em um máquina antiga. As poesias pareciam sair de forma mais natural nela, a moda antiga, quando o amor não se resumia em likes no Instagram.

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