Histórias cruzadas

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Dias atuais
— Lisa Manoban.

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— Era uma sexta-feira à tarde, mas não era uma sexta-feira à tarde comum. Era uma sexta-feira à tarde tediosa, daquelas que te fazem ver videos de procedência duvidosa no Youtube. Era uma sexta-feira à tarde abafada, calorenta, infernal. Rosé apareceu por volta das três horas, ela estava meio nervosa, não sei, parecia nervosa. Roía as unhas com aquelas bochechas de esquilo. Ela vestia um... okay, isso não é novidade, ela sempre usava vestidos, mas aquele vestido estava meio amassado, como se ela tivesse acordado na pressa. Enfim, quem sou eu para falar mal da roupa dos outros, não é? Quando Rosé apareceu aqui, eu não tinha feito horário de almoço ainda, mas vou ser sincera, dez minutos não deve ser considerado "horário de almoço", dez minutos é no máximo uma pausa para lanche e...

— Foco, Sana — pedi.

Ela rolou os olhos, jogando uma mecha de cabelos loiros para trás.

— ... Rosé apareceu aqui e perguntou se eu estava trabalhando. — Sana apontou para a pista de boliche, onde um senhorzinho conversava no celular. — O Seu Costela falou que sim, que eu estava trabalhando, mesmo que eu tenha deixado claro que se uma loira oxigenada de bochechas grandes e meio piradinha aparecesse perguntando sobre o meu paradeiro, era para ele mentir, mas..

— Sana, foco! — gritei.

— Argh, você pediu para contar desde o início! — Ela rebateu.

Troquei o peso de um pé para o outro, me debruçando no balcão colorido, com luzes LED ao redor. As mesmas luzes estavam no teto da pista de boliche, lançando uma luz roxa. Um globo de luz rodava acima das nossas cabeças.

— Mas nem tão do início assim, senão vamos ficar aqui o dia todo — expliquei pausadamente.

Sana se sustentava em cima de um par de patins brancos, enquanto segurava uma vasilha cheia de coxinhas. Ela comia todas as coxinhas de forma igualitária, de uma só vez, dando uma mordida em cada uma. A pista de boliche que ela trabalhava era temática dos anos 80, as atendentes viviam indo de lá pra cá em cima de patins brancos e collants de purpurina.

— Rosé estava acompanhada? — perguntei.

Sana olhou para os lados, com medo de ser pega conversando em horário de serviço. Ela se aproximou, os patins deslizando pelo piso brilhante enquanto esfregava as mãos engorduradas no collant brilhante.

— Quem sou eu para fazer fofocas, né? Mas ela estava junto daquele novo amigo de cabelo vermelho, o Tiago.

— Taehyung — corrigi.

— Ah, algo assim... — Sana maneou a cabeça em afirmação. — Achei que Rosé fosse sapatão e tudo mais, aí eu perguntei se ela tinha passado pela cura gay, se estava namorando a Jisoo ainda... não era pra fazer fofoca, ok? Odeio fofoca, mas uma garota loira precisa estar bem informada. Não queremos parecer burras.

Rolei os olhos, isso não fazia sentido nenhum.

— E o que ela respondeu?

— Que ele era a "cota gay da história", já que Sehun foi esperto o bastante para ir embora quando teve a chance. — Sana fez uma careta. — No começo do semestre, Rosé fez um concurso para procurar um novo amigo gay e o cone de trânsito preencheu a vaga.

— Okay, e o que mais ela falou? — quis saber.

Sana bateu as unhas de strass no queixo, pensando.

— Bom, você sabe como Rosé é: cheia de segundas intenções e planos mirabolantes, jogando aquele cabelo loiro de farmácia pra cima de mim... quer dizer, você sabe que eu sou loira natural, certo? Enfim, ela veio me convencer a trabalhar para ela novamente, estava encabeçando um novo Plano J e precisava do meu serviço... Ô, Karina! Avisa pro Seu Costela que eu tô no meu horário de almoço! — Ela voltou sua atenção para mim, cruzando os braços. — Eu preciso muito desse emprego, sabe? E o que mais tem aqui é garota fofoqueira, é cada uma por si... não existe essa de sororidade.

O Plano JOnde histórias criam vida. Descubra agora