Acordei várias vezes de madrugada. As palavras do homem misterioso davam voltas em meus pensamentos:
“Se chegar a Los Angeles amanhã a noite, não serei capaz de evitar a tragédia.”
Do que ele estava falando? Por que simplesmente não me contava?
A viagem de repente, havia se tornado um beco sem saída. O que eu diria aos meus pais?
Que um homem que aparece sem explicação para mim, e nas situações mais estranhas, me alertou sobre Los Angeles?
Claro!
Em um mundo fantasioso eles responderiam: Ok, filha. Então vamos embora agora mesmo!
Apertei o travesseiro no rosto e me virei na cama.
Eu queria gritar. Desaparecer. Ou chegar de uma vez ao destino final e ver que tudo não passava da minha imaginação. Mas os instintos berravam alto. Gritavam que haveria algo me esperando.
E já que eu não seria capaz de fugir, e muito menos de me esconder, decidi encarar. Assim que chegássemos a Los Angeles, encontraria uma maneira de ficar sozinha. Me usaria de isca para atrair aquela sombra, e quem sabe, desvendaria de uma vez esse mistério.
Pequenos feixes de luz invadiram a cabana pelas frestas das portas e das janelas. Desisti de tentar dormir. E já que o sol estava prestes a nascer, levantei apressada da cama.
Andei até a sala. Pelo silêncio, todos ainda dormiam. Pude ouvir a madeira rangendo sob meus pés.
Estremeci com o vento gelado que batia a porta de tela da frente. Fechei-a e me encolhi no sofá. Liguei a televisão no volume mínimo e a voz da jornalista fez parecer que corria gelo por minhas veias:
- Agora a polícia investiga uma trilha de mortes deixadas pelo assassino intitulado de Sombra. Parece que ele resolveu atacar por toda a costa da Califórnia. Uma vez que o rastro teve início no Palace of Fine Arts, em São Francisco, e continua seguindo um caminho por pontos turísticos. Todos com causa de morte desconhecida. Todas as vítimas encontradas com os olhos arregalados, segurando a flor de pétalas negras. O mais preocupante de acordo com o relato da polícia, é o abandono de seu padrão. Antes, seus alvos eram menores de idade. Mas depois do homem encontrado morto, abaixo da árvore solitária em Monterey, e do corpo da senhora de idade avantajada no banheiro do famoso aquário, após a misteriosa explosão do tanque de águas-vivas, não se sabe o que esperar. Mas o que isso significa? Ninguém mais está seguro? Não teremos outra saída a não ser trancar as portas de casa e esperar que a Sombra não apareça...?
Desliguei a tevê e caminhei arfante até a geladeira. O ar ardia para chegar aos pulmões. Como se eu tivesse recebido um golpe forte no tórax.
Segurei a garrafa com as mãos trêmulas e enchi o copo. Virei a bebida em três goladas. Não trouxe nenhum alívio. A cabeça girava. O estômago se contorcia.
Aquelas mortes, eram para mim. Se eu não tivesse escapado, aquelas pessoas estariam vivas. Elas, vivas. E eu, morta. De olhos arregalados. Segurando a flor de pétalas negras. E depois, o quê?
Fechei os olhos quando a vista escureceu e tentei me controlar. Então me dei conta de que eu já possuía a maldita flor. Estava no bolso do meu casaco. Quando a encontrei junto do bilhete na lanchonete do hotel.
Claro que era o mesmo assassino. E ele estava me seguindo. Talvez, eu devesse alertar a polícia. Contar tudo o que havia acontecido desde São Francisco.
Pude quase sentir a esperança nascer com essa ideia, mas o sentimento rapidamente se dispersou com a verdade.
Ninguém vai acreditar em mim. Só eu vejo essas coisas. Vão achar que enlouqueci. Meus pais ficarão mais tensos do que já andam.
E se eu contar, e o assassino resolver se vingar?
Apoiei os braços na bancada, inspirei e exalei com força. Os batimentos pulsavam de maneira dolorosa.
Os pensamentos lutavam para seguir uma linha de raciocínio e eu relutava porque não estava pronta para encarar aquilo. Se as pessoas morriam porque eu continuava viva, quem seriam os próximos quando eu escapasse de novo?
Meu pai? Minha mãe? Raquel? O homem misterioso? Um bebê passando dentro de um carrinho? Uma senhora no mercado?
Se apenas eu podia evitar que mais pessoas morressem, não havia outra escolha. E essa constatação fez o medo apertar a garganta.
Quando chegássemos a Los Angeles, eu iria atrás da Sombra, antes que viesse atrás de mim.
Escutei um barulho vindo do fundo do corredor escuro da cabana e ergui o tronco. Me lembrou unha arranhando madeira. Podia ser uma armadilha. Para me atrair até o breu e acabar comigo de uma vez.
Segurei uma panela e deixei a cozinha, a única parte iluminada da cabana.
De repente fiquei muito consciente do perigo à espreita. Ele podia estar andando naquele exato segundo atrás de mim. Rindo do meu pânico.
Esbaforindo em meu pescoço.
Talvez debaixo da cama. Dentro do armário. Atrás do sofá.
Caminhei pela cabana acendendo todas as luzes. Tive vontade de gritar:
Covarde, apareça!
Em vez disso, após acender tudo, saí da cabana e acendi a luz da varanda. O lado de fora era puro breu. O único som, vinha do vento que fazia as folhas dos coqueiros farfalharem.
De repente, ouvi outra vez o som áspero de unhas arranhando madeira. Agora parecia vir da frente da cabana. Ergui a panela acima da cabeça e esperei.
Ouvi um rosnado. E caí sentada quando vi aquilo.
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O próximo capítulo sai no meio da semana, estamos chegando ao final.
Beijosss e bom domingo!
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A Sombra (Completo)
FantasiNESSA VIAGEM PELA COSTA DA CALIFÓRNIA, CADA CURVA REVELARÁ UM SEGREDO. Um encontro inesperado, um desaparecimento e uma maldição. Assim iniciou-se essa história. Liza pensou que fosse apenas uma viagem para comemorar seu aniversário. Ela estava ter...
