Capítulo 11 - FINAL - Parte 1

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Se perdermos, salvamos?

A panela fez um estrondo quando caí no piso de madeira da varanda. Fitei o breu à frente e olhos amarelos brilharam na escuridão.

Uma enorme pata negra surgiu no degrau, e o rosto ganhou forma na luz sépia da varanda.

Um cachorro monstruoso. Os dentes brancos afiados reluziam. A baba escorria pelo canto da boca.

Rastejei lentamente sobre os cotovelos e ele seguiu o movimento. Eu já podia sentir aqueles dentes sobre a perna. Rasgando a pele. Mastigando a carne.

Olhei ao redor em busca de uma arma, mas a panela havia caído distante. O cão se aproximou mais. Os dentes dele rangiam enquanto rosnava. Ele abria e fechava a boca fazendo a baba respingar.

Se eu me movesse ele atacaria. Mas deduzi que ele o faria de qualquer maneira. Eu precisava levantar rápido, entrar na cabana e trancar a porta. Respirei fundo e me preparei. Espalmei as mãos no piso de madeira, deslizei as pernas para o lado e levantei. Ele pulou.

No segundo em que imaginei os dentes se fechando em meu pescoço, um vapor quente me percorreu os poros. Não sei como não gritei.

Pisquei os olhos. Se o medo não tivesse provocado uma alucinação, o homem misterioso estava parado de forma protetora à minha frente, enquanto o cachorro se afastava ganindo.

As pernas amoleceram quando a adrenalina se dissipou. Ele se virou e passou o indicador pela minha bochecha. Suspirei ao inalar aquele perfume embriagante. O homem misterioso me ergueu no colo, me depositou cuidadosamente na rede da varanda, e desapareceu. Sua voz pairou no ar como um sussurro enquanto o sol nascia no horizonte:

“Por favor. Não vá a Los Angeles hoje à noite.” 

Contei até dez antes de levantar. Os pensamentos girando, a visão turva. Ainda escutava o rosnado do cachorro.

Suspirei.

Outra vez o homem misterioso me salvava.

Por que ele não me dizia o que iria acontecer? Por que sempre desaparecia sem me explicar nada?!

Que belo presente de aniversário. O dia acabava de amanhecer, e já começava da pior forma possível. Me obriguei a não pensar muito sobre o que estaria à espreita quando a noite caísse.

O próprio ar ao redor se tornava denso. Como se até o oxigênio fosse uma ameaça.

Deixei a rede da varanda frustrada e voltei à cabana.

Encontrei minha mãe já de pé na cozinha, preparando o café da manhã:

-       Bom dia, Liza! Pensei que estivesse dormindo.

-       Ah. Só perdi o sono e fui tomar um ar lá fora – menti descaradamente.

-       Estragou a surpresa! Estou preparando um café da manhã especial de aniversário!

Ela contornou a bancada e me deu um abraço apertado desejando parabéns. Depois me soltou e voltou apressada até a frigideira, mas tive tempo de ver as lágrimas escorrendo por seus olhos. Eu sabia que parte da minha suspeita de que meus pais sabiam de algo, podia ser apenas paranoia. Mas ao vê-la chorando daquela forma, a desconfiança cresceu ao ponto de me deixar com vontade de correr para bem longe.

Minha mãe agia como se meus 21 anos trouxessem uma despedida. Daquela vez, decidi perguntar:

-       Por que está chorando, mãe? Aconteceu alguma coisa?

A Sombra (Completo)Where stories live. Discover now