Relutamos
Enxuguei a boca com o lenço de papel que minha mãe estendeu para mim e inspirei o ar gelado da estrada.
- Bebe filha, vai ajudar no enjoo – segurei a garrafa térmica e bebi quase toda a água em três goladas.
Voltei ao carro com as pernas trêmulas. As mãos suavam ao ponto de manchar o guardanapo quando o segurei:
“Gostou do cochilo na lanchonete? Deixei você dormindo enquanto terminava sua listinha de desastres.
18 anos – uma festa universitária, que terminou com um incêndio. Achava mesmo que tinha sido causado por você?
19 anos – ah, essa lembrança, é uma das minha favoritas. Lembra do corte em seu braço? Da quantidade de sangue que perdeu naquela tarde em que você atropelou um carrinho de bebê com a bicicleta? Você ainda escuta o choro dele?
20 anos - Eu quase te afoguei na piscina da faculdade, lembra? Espero que tenha compreendido a essa altura: as duas garotas morreram por sua causa.
21 anos – não vou falar do futuro. Mas acho que vai gostar da surpresa em Los Angeles.”
Amassei o papel e o arremessei pela janela. O vento se encarregou de levá-lo para longe. Observei o profundo azul do mar da costa da Califórnia enquanto meu pai fazia as curvas sinuosas.
Uma sensação sufocante de que eu não teria escapatória quando chegássemos a Los Angeles, me agoniava.
Observei as costas de meus pais no banco do carro. Olhei minha irmã tirando fotos da estrada, como se fosse a última vez que os veria.
Você já teve esse pressentimento? De que tudo a sua volta está prestes a mudar bruscamente, e você vai ficar sozinho e perdido nesse mundo?
Eu sentia isso desde pequena. Lembro de entrar no quarto e ter a certeza de que alguém havia acabado de sair dali. Recordo das diversas noites em que me virei agitada na cama, porque guardava a certeza de ter visto um vulto no escuro me observando.
Mas nunca passava disso. De um presságio. Uma dúvida. Eu achava que era paranoia.
Só que agora, o vulto ganhava formas. Eu ouvia sua voz. Recebia seus comandos nos pensamentos. Lia recados escritos por dedos invisíveis.
Encolhi o corpo no banco do carro. A qualquer momento, essa sombra poderia aparecer para me deixar na escuridão. E ninguém seria capaz de me encontrar.
Mas para onde eu fugiria? A quem eu pediria socorro?
Eu estava totalmente sozinha, em uma batalha contra algo que aparentemente só existia na minha cabeça.
Será que isso é loucura?
Não! Tenho certeza do que vi. Do que senti. Não me entregarei a desesperança.
É mais fácil desistir do que lutar, e nunca fui do tipo que foge dos problemas.
Despertei dos pensamentos ao sentir que o carro estacionava. Li o letreiro do hotel onde meus pais haviam feito a reserva: Cottage Inn. Várias cabanas se espalhavam em fileiras lado a lado, de frente para um imenso jardim florido. Cada varandinha era ocupada por uma rede convidativa e um vaso de plantas. Lampiões amarelados pendurados entre os coqueiros iluminavam o caminho até a recepção.
Congelei feito estátua quando chegamos a cabana onde passaríamos a noite. A rede da varanda estava ocupada. Cabelos negros esvoaçavam com o vento enquanto ele se balançava despreocupado. Dessa vez sem o habitual capuz. O homem misterioso vestia blusa preta, calça jeans e bota de couro. Quase desfaleci. Meus pais e Raquel passaram direto. Permaneci parada.
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A Sombra (Completo)
FantasíaNESSA VIAGEM PELA COSTA DA CALIFÓRNIA, CADA CURVA REVELARÁ UM SEGREDO. Um encontro inesperado, um desaparecimento e uma maldição. Assim iniciou-se essa história. Liza pensou que fosse apenas uma viagem para comemorar seu aniversário. Ela estava ter...
