De volta pra casa

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Passei a viagem inteira sem trocar uma palavra com o tio Paul,irmão do meu pai. Ele tentava puxar assunto, falava sobre coisas aleatórias, talvez para me distrair, mas eu o ignorava.
Eu só queria acordar desse pesadelo e voltar pra minha vida de antes.

—Chegamos — disse ele ao desligar o carro.

Abriu a porta, saiu e foi até o porta-malas. Pegou minha única mochila enquanto eu permaneci ali dentro por alguns segundos, tentando aceitar a realidade. Respirei fundo, abri a porta e desci também.

O bairro estava exatamente igual à última vez que estive ali, há cerca de um ano. Os mesmos vizinhos nas varandas, a mesma senhora fofoqueira observando tudo por trás dos óculos, a mesma placa de trânsito amassada, com o que parecia ser uma marca de tiro, e a mesma caixa de correio torta.
Nada mudava em Beaufort.
Só eu.

A porta da casa se abriu e Rebeca surgiu, vindo em nossa direção. Um pequeno labrador amarelo correu atrás dela, abanando o rabo.

—Meu filho... — ela disse, me abraçando.

Os olhos vermelhos denunciavam que havia chorado há pouco.
Por um instante, deixei que o abraço acontecesse, um gesto que misturava culpa, carinho e distância, mas logo me afastei.

Abaixei-me e peguei o filhote no colo.

—Ele é seu — ela disse, tentando sorrir. — Ganhei da Susan. Achei que fosse gostar.

Sorri de leve, sem conseguir responder.

Rebeca nos convidou para entrar, mas o tio Paul recusou, disse que tinha um compromisso à noite.

—Josh, suas coisas chegam amanhã, tudo bem? A transportadora me avisou hoje cedo — explicou ele, ajustando o relógio.

— Vou deixar vocês se despedirem com calma. - Rebeca se afastou, nos deixando a sós.

—Tio, eu não quero ficar aqui. Aqui não é a minha casa… nunca foi.
—Josh… nós já conversamos sobre isso.
—Mas…
—Eu sei, garoto. Mas, no momento, não posso fazer nada. O juiz determinou que você ficasse com ela até completar maioridade. Eu te amo, mas essa decisão está fora das minhas mãos.
Fechei os olhos tentando conter a raiva.
—Okay…
Ele colocou a mão no meu ombro.
—Prometo te ligar todos os dias. Você é minha única família agora, garoto.

Nos despedimos. Ele me entregou a mochila, deu um último olhar e partiu.
Fiquei ali parado, observando até o carro virar a esquina e sumir.
Quando me virei, Rebeca estava na porta, me esperando em silêncio. Suspirei e entrei.

A casa estava do mesmo jeito: silenciosa, organizada, cheirando a lavanda.

Ela me levou até o quarto, agora reformado. Móveis novos, um quadro de skate sobre a cabeceira, estante com livros, uma escrivaninha.

—Gostou? Se quiser mudar algo, é seu esse quarto.
—Está legal… obrigado.
—Fico feliz. Preparei um bolo de chocolate, aquele que você sempre gostou, com cobertura de brigadeiro branco.

Ela sorriu, e eu apenas retribuí com outro sorriso cansado.
Assim que saiu, o silêncio voltou a dominar o quarto.

Senti o peso do vazio dentro de mim.
A revolta de não poder escolher meu próprio destino, de ter que conviver com uma estranha que deveria ser minha mãe.
Ela também estava tentando, eu percebia, mas eu não estava pronto para aceitar.

Meu pai era meu melhor amigo, meu confidente, meu porto seguro.
E agora… nada. Só lembranças e uma dor que parecia não ter fim.
Deitei na cama com a mesma roupa da viagem. Tirei os tênis e fiquei olhando o teto, tentando não pensar.
O celular vibrou.

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