1865, Estados Unidos da América.
O fogo crepitava na lareira e a risada de meus sobrinhos enchiam meus ouvidos enquanto eu me enrolava cada vez mais no cobertor fino. Era Natal e Amy havia acabado de voltar de Londres, trazendo consigo Laure, a notícia de seu noivado com minha irmã mais nova foi um baque e tanto, desde que conheci o garoto sou extremamente apaixonada por ele, mas ele obviamente não sabe disso. Resolvo me levantar e ir ver como Jo está, a morte de nossa irmã estava a machucando mais do que ela gostaria de demonstrar. Subo as escadas e a encontro no sótão, escrevendo seu livro, agarro levemente seus ombros fazendo com que ela se sobressalte.
- Não acha que deveria descansar um pouco? - Questiono minha irmã.
- Está tudo bem, só preciso terminar esse capítulo. - Ela diz voltando sua atenção para o manuscrito.
- Jo, pare com isso. Respire um pouco, vá ver as árvores ao redor da casa, conversar com Meg, apenas descanse um pouco. - Digo ainda segurando seus ombros. Ela bufa mas acaba cedendo e descendo para ver como mamãe estava.
Me sento no sofá onde Beth costumava ficar e pego uma das folhas do manuscrito de minha irmã mais nova, lendo as palavras enquanto o sol começa a descer no horizonte. Estou tão concentrada em minha leitura que acabo não percebendo a chegada de Laure no cômodo, ele se senta ao meu lado e pega uma das folhas de minha irmã, assim como eu. Ficamos em silêncio por longos minutos, acho que não conseguiria falar com ele sem chorar ou estragar toda a minha relação com Amy. Observo pelo canto do olho seus movimentos, apreciando cada mínimo detalhe.
- Vamos só ficar aqui calados ou vamos conversar? - Ele finalmente corta o silêncio entre nós.
- Não acho que tenhamos muito o que conversar. - Dou de ombros, com desinteresse fingido.
- Pois eu acho que temos, eu acabei de ficar noivo e aparentemente você irá ficar ainda essa semana, isso não seria motivo suficiente para conversarmos? - Ele me encara, enquanto eu como a covarde que sou, encaro o chão.
- Não irei aceitar a proposta de William, não o amo, e com certeza não quero passar o resto da minha entediante vida ao lado dele. - Afirmo, arrancando pequenos fiapos do cobertor sobre minhas pernas.
- Por que entediante, March? - Ele questiona, pegando um pedaço do cobertor e se cobrindo também, suspiro com a proximidade.
- Vamos ser honestos, sou apenas uma garota pobre que não tem um único dom artístico ou beleza, quem em sã consciência iria me querer? - Pergunto, dessa vez me virando para ele e encarando seus olhos castanho-esverdeados.
- Pare com isso, você é perfeita, querida. - Ele sorri suavemente para mim.
- Não o suficiente para você, aparentemente. - Deixo escapar e no mesmo instante me arrependo amargamente.
- Desculpe? - Ele questiona, me olhando espantado.
- Esqueça o que eu disse, não foi minha intenção. - Digo me levantando de maneira desajeitada.
- Você não pode falar uma coisa dessas e simplesmente ir embora, eu preciso de uma explicação, March. - Ele se levanta também, fazendo com que o cobertor caia, por impulso o pego e me enrolo nele com força. Sinto meus olhos marejarem é meu rosto adquirir um tom vermelho.
- Não Laure, eu não posso lhe explicar nada porque você está noivo da minha irmã e ela está mais feliz do que foi em anos, e eu com certeza não estragarei a felicidade dela por egoísmo. - Digo ainda saindo.
- Irmã, o jantar está pronto. - Jo diz, subindo as escadas. - Ah, desculpe por interromper. - Ela volta a descer e eu vou logo em seguida. Me sento ao seu lado na mesa e encaro o prato em minha frente, sem apetite algum.
- Querida, você está bem? Seu rosto está pálido e você parece cansada. - Minha mãe vem até mim e coloca sua mão em minha testa.
- Estou bem mamãe, é apenas uma dor de cabeça passageira, fique tranquila. - Digo acariciando sua mão. - Inclusive, tenho uma surpresa para Jo. - Vou em direção à porta, e minha irmã me lança um olhar suspeito.
- O que você aprontou dessa vez? - Ela pergunta se levantando.
- Apenas pedi uma encomenda vinda diretamente de Nova York. - Ela me encara espantada enquanto abro a porta.
- Olá. - Friedrich acena de maneira desajeitada para minha irmã, que lança um sorriso bobo.
- Oh, céus. Entre querido, ai fora deve estar congelando. - Minha mãe o puxa para dentro e vejo o olhar intrigado de minha família.
- Então esse é o amigo de Nova York? Nada mal. - Amy fala, se sentando ao lado de Meg, que bate em sua mão quando a mesma tenta pegar um pedaço da comida distribuída pela mesa.
- Amy, tenha modos. - Meg fala.
- Como você fez isso? - Jo pergunta me encarando.
- Tenho meus contatos. - Pisco para minha irmã que apenas ri e volta a se sentar ao meu lado.
- Titia, você trouxe presentes para mim também? - Daisy vem até mim perguntando. A olho tentando encontrar um jeito de explicar que não havia presente para ela até que Laure desce com uma caixa na mão e vem na direção de minha sobrinha.
- Claro que sua tia trouxe presentes para você, ela apenas esqueceu lá em cima. - Ele sorri e se senta ao meu lado, agradeço silenciosamente e ele apenas assente com a cabeça.
- Daisy querida, você sabe das regras, não podemos abrir os presentes antes da manhã de Natal ou acabaremos tendo má sorte, coloque a caixa embaixo da árvore. - Ela bufa mas obedece.
- Demi, seu presente está la em cima, daqui a pouco eu pegarei e irei colocar junto com o de sua irmã, ok? - Meu sobrinho assente e sorri para Laure.
- Já que estamos todos aqui, podemos finalmente comer. - Minha mãe diz, servindo comida em nossos pratos.
Comemos em meio a conversas e risadas, sempre provocadas graças à meus sobrinhos. Quando finalizamos o jantar mamãe nos chama para perto da lareira e nos espalhamos pelo sofá e pelo chão. Sinto alguém se sentar ao meu lado e ao olhar, vejo Larue me encarando.
- Eu vou dar uma volta. - Me levanto, calçando minhas botas e pegando meu casaco de lã.
- Querida, está nevando lá fora, fique aqui dentro. - Minha mãe insiste.
- Não demoro muito, apenas quero esfriar a cabeça um pouco. - Coloco o capuz sobre meu rosto e saio pela porta, me arrependendo logo em seguida. O frio atravessa todas as camadas de roupa que estou usando mas resolvo ignorar, caminhando até a beira do lago congelado e me sentando na neve. Aprecio a paisagem em minha frente por um tempo até que ouço passos na neve e não preciso de me virar para saber que se trata de Larue.
- Sua mãe disse que você não estava bem e que precisava de mais cobertores então resolvi trazer para você. - Ele diz me enrolando com dois cobertores e se sentando ao meu lado. - Então, sobre aquilo que você falou mais cedo... - O interrompo.
- Podemos não falar sobre aquilo e só fingir que não aconteceu? - Pergunto, me virando para ele. O frio faz com que suas bochechas fiquem rosadas e pequenos flocos de neve começam a se acumular em seu cabelo.
- Não acho que seria justo com você e nem comigo.
- Ultimamente eu não venho pensando no que é justo, tenho tentado me poupar de dores emocionais, não estou bem o suficiente para falar sobre isso agora, então por favor, não insista. - Ele permanece calado e meu olhar vaga através das árvores logo à frente do lago. - Você a ama? - Questiono.
- Amo, mas não sei se esse amor é suficiente para passar o resto dos meus dias ao seu lado. - Ele diz voltando seu olhar atento para mim. Me levanto e viro para ele uma última vez.
- Você saberá quando for a hora. Sabe, eu não poderia estar mais feliz por vocês, finalmente se acharam e encontraram o amor, não me importo em estar infeliz contanto que Amy esteja feliz e satisfeita com a vida que tem, portanto eu te peço que não a machuque e cuide dela apesar de tudo. - Ele acena com a cabeça e eu o deixo ali, sem conseguir me virar outra vez pois sei que se virar eu não consigo voltar do encantamento que seus olhos verdes me trazem. Sei que vai doer mas isso é o que irmãs fazem, abandonam a própria felicidade apenas para ver um sorriso no rosto de outra. E então eu volto para casa e deixo para trás o amor que sentia por Larue.
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