Capítulo 1

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Na manhã seguinte...

SN

- Vamos! Levante.- A voz da minha mãe ecoou pelo quarto, e eu senti a coberta ser puxada de forma abrupta.

- O que foi?.- Perguntei, com a voz sonolenta, os olhos pesados de sono.

-Já são meio-dia. Você vai para o clube onde acontecerá o leilão. Lá, vão te arrumar à altura da ocasião. - Ela disse, batendo palmas com entusiasmo, como se fosse um evento qualquer, como se isso fosse uma celebração.

Me levantei com dificuldade, sem responder. Fui ao closet, fiz o mínimo necessário para me preparar. Minha mente estava longe, processando tudo de forma quase mecânica. Coloquei o vestido que havia escolhido na noite anterior dentro da bolsa, junto com o salto. Uma tentativa desesperada de me lembrar de quem eu era, de que ainda existia alguma escolha.

- Podemos ir. - Disse, tentando dar um sorriso que não parecia ser meu.

Saímos em silêncio. Cada passo meu ecoava como um veredicto. A sensação de estar sendo levada, sem poder, sem escolha, me corroía por dentro, como ferrugem em metal antigo. O carro deslizou pelas ruas até que o clube surgiu diante de mim, imponente, elegante, refinado demais para alguém como eu. Não era só um lugar. Era o fim da linha. A última estação de um trem do qual eu jamais quis embarcar. 

Mas... se fizerem algo com ele...

Um nó apertou minha garganta.

Eu não me perdoaria. Não posso hesitar. Eu preciso...Preciso fazer isso.

- Seu pai e eu estaremos aqui, na hora do leilão. - Minha mãe disse calmamente, mas eu a ignorei. A única coisa que eu conseguia pensar era o que viria depois, no palco, à vista de todos.

Entrei no clube, o ar parecia denso, pesado, e os olhares das pessoas me atravessavam como se eu fosse uma mercadoria sendo avaliada. O luxo ao meu redor me fazia sentir ainda mais pequena.

- Vamos, meninas! Não podem errar! Que a melhor seja escolhida!..- Uma mulher dizia, nervosa. Quando me viu, parou e sorriu, mas era um sorriso sem calor.

Escolhida!?...

- Você é... SN?.- Ela perguntou, como se estivesse tentando lembrar do meu nome.

- Sim. - Respondi, tentando manter a calma.

- Sou a Sra. Lee, organizadora e responsável por todas as participantes. Me acompanhe, por favor. - Ela disse com uma voz firme e profissional, e eu a segui sem questionar. Precisava fazer isso para seguir em frente, para ver onde isso me levaria.

Nos fundos do clube, várias mulheres estavam reunidas. Sorriam. Riam entre si. Algumas pareciam ansiosas, outras empolgadas, como se estivessem prestes a participar de algo grandioso, algo bom.

Uma preparação, feita de aparências, de ilusão.

Assim que entrei, senti os olhares se voltarem pra mim, acompanhados de murmúrios curiosos.

Por quê...? Por que estão felizes?

Meu peito apertou. E então a realidade me acertou como um soco no estômago.

Elas não sabem.

Não sabem o que realmente é isso. Não sabem que não é uma competição, nem um desfile, nem uma seleção qualquer. Elas não fazem ideia de que são mercadorias. De que estão prestes a serem leiloadas como objetos.

E, por um segundo, me perguntei... o que seria pior? Estar aqui sabendo... ou estar aqui sem saber?

- Essa é a SN. - A Sra. Lee me apresentou. O som dos meus próprios passos no piso de mármore parecia retumbar.

O leilãoOnde histórias criam vida. Descubra agora