Capítulo 24

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SN.

A entrevista terminou havia pouco mais de uma hora, mas meu corpo ainda vibrava como se estivesse diante das câmeras.

Senti o ar frio da noite bater no rosto quando saímos do prédio da emissora. Me encolhi. Parte por causa da temperatura, parte pelo peso invisível da verdade recém-dita. Era como se eu tivesse aberto a caixa de Pandora, e agora esperava pelas consequências.

Yoongi colocou o casaco dele sobre meus ombros sem dizer nada. Sempre atento, sempre presente.

- Você foi corajosa.- ele murmurou, me guiando até o carro.

- Eu tô com medo. - confessei, me afundando no banco. - Parece que algo ruim vai acontecer a qualquer momento.

Ele não respondeu de imediato. Ligou o carro, o motor ronronando suave, e só depois virou o rosto na minha direção.

- Pode acontecer, sim. Mas agora você não tá mais sozinha. - Seus olhos me prenderam com firmeza. - E eu não vou deixar ninguém te encostar.

O caminho até em casa foi silencioso. As ruas passavam borradas pela janela, e eu só conseguia pensar nos rostos dos meus pais vendo a entrevista. O que estariam dizendo? Planejando? A raiva deles era algo que eu conhecia bem demais.

Yoongi segurou minha mão durante o trajeto todo. E quando chegamos, ele me levou direto pro andar de cima, como se soubesse que eu não queria ver mais ninguém.

Me joguei no sofá do quarto dele e descalcei os sapatos. Minha cabeça latejava.

Yoongi apareceu logo em seguida com uma caneca de chá fumegante e um cobertor nas mãos.

- Vai por mim.- disse, se sentando ao meu lado. - Você precisa disso mais do que acha.

Sorri fraco, aceitando o chá. Ele tinha colocado mel. Sabia que eu detestava açúcar comum ali. Era nos detalhes que ele me desmontava.

- Tá tudo tão silencioso agora... -  falei, olhando pra frente. - Como se o mundo estivesse esperando pra reagir.

- E talvez esteja.- ele respondeu. - Mas não importa. O que importa é que você foi verdadeira. E que, agora, pode respirar sem esconder quem é.

Respirei fundo, sentindo o calor da bebida esquentar minha garganta.

Ficamos em silêncio por um tempo, só ouvindo nossos próprios corações, até que eu disse, quase num sussurro.

- Ainda sinto suas mãos em mim. Do jeito que você me tocou ontem... ficou gravado.

Yoongi se virou pra mim com um olhar que misturava surpresa e desejo contido.

- Você me deixou maluco. - Ele riu baixo, rouco. - E ainda me deixa. Cada vez que olha assim pra mim.

- E se isso também for tirado de mim?- perguntei. - E se, agora que tudo veio à tona, tentarem te afastar?

Ele se aproximou, segurando meu rosto com uma das mãos, os olhos cravados nos meus.

- A única maneira de alguém me afastar de você é se você me mandar embora. E mesmo assim eu ia lutar pra voltar.

As lágrimas vieram de novo, mas dessa vez, não eram de dor.

Me joguei contra o peito dele e nos afundamos no sofá. Ele me abraçou forte, como se pudesse me proteger de todo o passado, de todos os monstros.

E por um momento, eu acreditei que sim.

Horas depois, já deitada com ele, o celular vibrou em cima do criado-mudo. Peguei sem pensar, ainda com a cabeça no torpor do abraço.

Era uma mensagem anônima.
Sem nome. Sem contexto.

"Você mexeu com as pessoas erradas. Cuidado com quem você confia."

O sangue gelou nas minhas veias.

Mostrei a tela para Yoongi sem dizer uma palavra. Ele leu, o maxilar travando na hora.

- Eles não vão encostar em você.- ele disse, com os olhos escurecidos pela raiva. - Mas se estão jogando assim a guerra só começou.

E eu soube, naquele instante, que minha liberdade teria um preço.

Mas pela primeira vez... eu estava disposta a pagar.

Continua...

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