everlong

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( Amsterdão - 3 semanas depois )

Depois de aquelas 2 semanas no Rio, tenho de admitir que senti um pouco de saudade daquele calor, do ambiente saudável e... de tudo o que eu fiz com o Damiano. Depois de Budapeste, Praga, Berlim e Zurique, a tour da banda tinha chegado a Amsterdão. Sempre gosto muito de ir à Holanda, afinal, foi em Roterdão que a minha vida mudou completamente. Por vezes, penso que se eu não tivesse aceitado aquela oferta de trabalho fora de França para a Eurovision, eu continuaria em França, com o meu apartamento pequeno, com os meus gatos e me sustentando com 3 empregos.

Entretanto, a minha menstruação estava atrasada há pouco menos de 2 semanas. No início, decidi não me preocupar muito com isso, até porque os meus ciclos sempre foram muito irregulares, mas tudo começou a piorar quando eu tinha começado a ficar com muitas tonturas, com imenso sono e a pele muito oleosa. Depois de ter ido comprar o teste de gravidez mais caro que havia na farmácia, voltei para o meu quarto de hotel e fui diretamente para o banheiro. 6 minutos depois, o resultado já estava claro. Sim, eu estava grávida, de 4 semanas.

Apesar de aquilo não ter sido chocante, eu estava sem chão. Além de eu naquele momento não ter nenhuma intenção de ter mais filhos, aquele filho era do Damiano. E pela minha experiência com a Lea, ele foi um pai bastante ausente. Mas também não o posso culpar totalmente, nós os dois éramos muitos novos e cometemos imensos erros. E também sabia que, por mais que eu me esforçasse, eu não iria conseguir esconder a verdadeira paternidade daquela criança. É só fazer contas simples de semanas, e ver que nas semanas que eu engravidei eu estava viajando em trabalho. Tendo em conta todos esses critérios, eu tomei uma decisão muito grande: eu queria abortar.

Consegui marcar uma consulta em uma cidade próxima de Amsterdão uma clínica especializada em obstetrícia. Pedi à Mel para me substituir em uma das tardes de trabalho, e depois de gastar o meu rim em uma viagem de Uber, cheguei à clínica. O ambiente lá dentro era muito leve, mas ao mesmo tempo muito intenso. De um lado eu conseguia ver mulheres felizes pelos seus bebês, e do outro, mulheres à espera de entrar na sala em que efetuam abortos. Depois de esperar um tempo, ouvi o meu nome a ser chamado para um dos gabinetes. 

A médica que me atendeu era muito simpática comparada com todas as obstetras que eu já tinha ido antes. Me deitei naquela espécie de cama, e senti ela colocar aquele gel frio que se usa para fazer os ultrassons. Por mais que eu não quisesse aquele filho, eu queria vê-lo, ou ouvir o seu batimento cardíaco. Durante um tempo, a médica ficou a olhar para aquele ecrã atentamente, o que me deixou um pouco preocupada.

— Doutora, o que foi?

— Senhora Bennet, vc tem histórico de gêmeos idênticos na sua família?

— Sim, eu tenho irmãos gêmeos. Porquê?

— Parece que eu estou ouvindo aqui 2 batimentos cardíacos. Parabéns, são gêmeos!

Naquele momento, eu congelei. Já não era apenas 1 bebê, mas dois. Eu sempre tive ciente que havia uma pequena chance de eu ter herdado isso da minha mãe, mas nunca esperei que isso fosse mesmo real.

— Bem, diz aqui na ficha da clínica que vc está disposta a abortar. Vc pode vir aqui amanhã? 

— Na verdade... eu preciso de um tempo para pensar.

— Tudo bem, Camille. Vc tem tempo. Só tem é que ter um espaço de 3 dias entre essa consulta e o procedimento.

— Eu só consigo vir hoje e amanhã. Eu.. eu estou por Amsterdão durante poucos dias, eu trabalho como assistente de uma banda.

— Sendo esse eu caso, eu deixo uma vaga livre para vc amanhã ao fim da tarde. Depois, vc tem tempo para decidir se quer vir ou não. Só tem de ter alguém que a venha buscar depois do procedimento.

— Tem mesmo de vir alguém me buscar?

— São protocolos, Camille. E a gente tem que os seguir, lamento. 

Quando estava saindo da clínica, eu já não sabia o que pensar mais. Eu tinha 2 vidas dentro de mim, 2 vidas. Depois de pensar muito e muito, decidi que sim, eu iria continuar a querer abortar. A primeira pessoa que me veio à cabeça para me acompanhar na clínica foi o Ethan. Ele é um bom amigo, muito querido e também é muito bom a guardar segredos. Ou seja, a pessoa perfeita para me acompanhar e reconfortar. No mesmo instante lhe liguei, para contar a história e desabafar. No meio da chamada, senti alguém bater à porta, e era o Ethan, que logo que me viu me deu um abraço forte. 

— Vc não me acha ridícula por querer abortar, certo?

— Lógico que não, Cams. O corpo é seu, e a escolha também é sua. 

— Então... vc consegue ir comigo à clínica amanhã ao fim da tarde?

— Acho que sim, eu não tenho nada marcado a essa hora.

— Combinado! 

.

Chegou o chamado 'grande dia'. Depois de uma tarde cheia de trabalho, gastei outra vez um monte de dinheiro em um Uber e fui para a clínica. Primeiro, me explicaram todos os métodos de interrupção da gravidez, e também me disseram uma coisa que já ouvi dezenas de vezes: "A idade perfeita para ter filhos é agora, depois dos 40 anos passa a ser mais perigoso". Me explicaram também que se eu fizesse por medicamentos iria ser menos invasivo, mas iria ser muito doloroso, e se fosse com procedimento, eu teria que ficar pelo menos 2 horas na clínica, mas eu acabei por escolher o procedimento. Em seguida, me mandaram para um gabinete de psicologia, outra coisa que fazia parte do protocolo. Por fim, me deram um documento de consentimento enorme, que eu tinha de ler e assinar no fim. E a partir daí, fui para uma sala, me aplicaram anestesia, e acordei um tempo depois, com algumas dores. Depois de acordar e me examinarem, me disseram que eu já poderia ir para casa. No meu caso, eu iria voltar para o hotel, e fingir que nada se tinha passado. 

Quando saí daquele pequeno sítio de recobro, vi logo em frente o Ethan, sentado em uma daquelas cadeiras que pareciam ser super confortáveis. Se eu pudesse correr para os braços dele, eu tinha corrido, mas eu estava demasiado fraca para isso. Em vez disso, ele veio ter comigo e me deu um abraço forte. Um pouco de carinho era tudo o que eu precisava naquele momento. Ao chegar ao hotel, o meu breakdown foi ainda maior. E foi ele que esteve lá para me suportar, para me reconfortar e para me impedir de fazer coisas que eu poderia me arrepender.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Sim, pode..

— Eu sei que isso não é da minha conta mas... o Damiano era o pai daqueles 2 bebês?

— Quer saber mesmo? Sim, o Damiano é o pai. Aquele idiota que parece que acha que não é preciso usar proteção na hora H. 

— Naquelas horas ninguém pensa nas consequências, não é mesmo?

— Vc tem razão, mas enfim... 

— Espero que vc tome mais cuidado com essas coisas, porque se chegar aos ouvidos de algum membro da Exit que vc anda a ter uma caso com Damiano, vc vai ser a única que vai ser vista como errada na história.

— Eu prefiro não pensar em todas essas consequências agora... estou demasiado desgastada para isso.

— Eu acho que vc precisa mesmo de uma pausa do trabalho, Camille. Ainda nos faltam mais de 7 países para a tour passar, e eu vejo que vc anda exausta ultimamente. Vc deveria meter sei lá, um atestado. Ambos sabemos que vc não está em condições de trabalhar nesse momento. 

— Vc tem razão, eu deveria fazer isso, aliás, eu vou falar com o empresário da banda hoje.

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heyy <3
vocês estavam esperando que isso acontecesse? deixe nos comentários a sua opinião :)

mel.

good girl - Damiano DavidHistórias para pegar e não largar. Descubra agora