Capítulo 1 - Audiência

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Narrador POV

A oficial de justiça do tribunal convocou o próximo caso para audiência em um tom monótono. A mulher posicionada atrás do banco do juiz fazia uma varredura pela sala quando seus olhos pousaram na garota peculiar de azul que foi levada à frente.

A juíza não era do tipo que se deixava cativar facilmente pelas pessoas, mas, naquele momento, quando seu olhar treinado se fixou na mulher mais jovem, sentiu algo diferente emergir. Uma sensação inesperada dançou dentro dela como água em movimento — excitação, intriga, algo sobre o qual não tinha controle. Meredith respirou fundo algumas vezes para se acalmar. Estava nervosa? Talvez.

A forma como aqueles olhos atentos permaneciam firmes, sem demonstrar qualquer sinal de intimidação, despertou sua curiosidade.

A oficial de justiça entregou o arquivo, e ela passou a folheá-lo, aliviada por finalmente ter algo além daquele olhar curioso em que se ocupar. Virou as páginas lentamente, arqueando a sobrancelha diante das inúmeras atitudes questionáveis que a Srta. Meredith Grey havia cometido recentemente — e também no passado.

Havia infrações absurdas, como nudez pública.

Crianças sonhando, policiais piscando... A juíza ergueu o olhar para a jovem e jurou ter visto um sorriso complacente surgir nos lábios vermelhos dela.

Bom, Sra. Grey, parece que você fez um grande nome para si mesma — disse Addison, ainda folheando o arquivo.

Quando voltou a encarar a garota, percebeu que ela parecia prestes a dizer algo, mas se conteve.

Três acusações de furto em lojas, assalto, pichação... só para citar algumas. E essas são apenas as coisas que você fez nas últimas duas semanas.

O que posso dizer, Addison? — Meredith falou lentamente, apertando os olhos para o crachá da mulher. — Gosto de viver perigosamente.

Addison fez uma careta nada agradável.

Imediatamente, sua expressão azedou, e o advogado da garota reconheceu a mudança em sua aura. O homem era conhecido naquele tribunal, e ela o respeitava, mas ele tinha pouco tempo para se redimir por escolher representar uma alma tão grosseira. Ela o viu se apressar para se desculpar em nome da cliente.

Por favor, perdoe minha cliente, meritíssima. Ela não possui treinamento adequado. Não percebeu que está diante de uma mulher de autoridade, que determinará seu destino, e acabou esquecendo de se dirigir à senhora com o devido respeito — disse ele.

A jovem zombou silenciosamente, e Addison pousou o arquivo sobre a mesa, entrelaçando os dedos enquanto a observava com atenção.

Você não é um pouco velha, senhorita Grey, para se meter em problemas que se esperaria de uma adolescente? — perguntou.

A garota optou por morder a língua, ignorando deliberadamente a pergunta.

Era evidente que fingira não ter ouvido nada do que a juíza dissera, e tamanha ousadia a surpreendeu. O fato de ter tido coragem de chamá-la pelo primeiro nome e, em seguida, ignorar uma pergunta direta fez crescer ainda mais a intriga dentro dela.

Addison adorava desafios, mas nunca havia encontrado um réu tão teimoso em seu tribunal em todos os anos sentada naquela cadeira como juíza. Até agora.

O advogado da garota passou os minutos seguintes tentando defender sua cliente, ainda que fosse perceptível que nem ele próprio acreditava muito na eficácia de sua argumentação.

Entendo — disse a juíza quando o homem terminou de explicar que Meredith era culpada apenas por associação, e não por ter cometido o crime diretamente.

Sr. Karev, como sua cliente se defende da acusação de tentativa de roubo?

Inocente, meritíssima — respondeu Alex.

A juíza voltou sua atenção para Meredith, que a encarava com uma maldade silenciosa. Não havia palavras, apenas desafio. Espera. Provocação.

Addison não conseguia compreender como alguém naquela posição ousava desafiá-la daquela forma, mas o mistério fez seu estômago revirar de uma maneira inesperada. Meredith deve ter percebido o efeito que causava, pois seus lábios se abriram em um sorriso largo, revelando dentes brancos e perolados, além de uma covinha unilateral que Addison achou, contra sua vontade, particularmente fofa.

A juíza a contemplou por alguns segundos. Ignorando o flagrante desrespeito, tomou sua decisão.

A fiança está fixada em dois mil dólares, Sr. Karev, e sua cliente será submetida a trezentas horas de serviço comunitário, a serem cumpridas nos próximos dois meses. Já que você gosta de fazer bagunça por onde passa, vamos ver como lidará agora que se espera que limpe — decidiu, batendo o martelo. — Senhorita Grey.

Meredith franziu a testa, e o desagrado estampado em seu rosto satisfez a juíza.

Ela não pode fazer isso, pode? — reclamou Meredith ao advogado, afastando o cabelo loiro da testa.

Sim, Meredith, ela pode, porque é a juíza. Então, por favor, fique quieta e não diga mais nada — Alex implorou.

Ela fechou a boca, fazendo um leve bico. Foi preciso todo o autocontrole de Addison para não sorrir. Pessoas mimadas costumavam reagir exatamente daquela forma.

Obrigado, meritíssima. Minha cliente fará o que é esperado e também fará o possível para nunca mais aparecer em seu tribunal.

Addison duvidou.

Pensou nisso enquanto o homem de cabelos castanhos se virava para sussurrar algo no ouvido de Meredith, antes que outro oficial de justiça se aproximasse para escoltá-la para fora da sala.

Antes de sair, a garota se virou uma última vez para encarar a juíza. Addison teve a mente completamente esvaziada ao receber aquele olhar. Havia raiva, orgulho ferido, desafio — tudo, exceto arrependimento.

Ela deveria estar focada no próximo caso que estava sendo apresentado, mas não conseguia. Sua mente, agora poluída por pensamentos incessantes, corria sem controle.

Addison sabia: aquela não seria a última vez que encontraria Meredith Grey.

Continua...

𝚄𝚖𝚊 𝚂𝚞𝚋 𝙿𝚎𝚛𝚒𝚐𝚘𝚜𝚊 - 𝐌𝐞𝐝𝐝𝐢𝐬𝐨𝐧Histórias para pegar e não largar. Descubra agora