A viagem foi conduzida, em sua maior parte, em silêncio. A tensão dentro do carro era palpável, densa o suficiente para subir pela garganta e sufocá-las suavemente. Ambas pareciam desejar apenas que tudo acabasse logo.
Meredith sabia que Addison ainda estava chateada, mas não se importava muito com isso. Estava simplesmente eufórica por a juíza ter sido capaz de tirá-la daquele lugar inteira.
Ao lançar um olhar discreto para a motorista atenta, Meredith percebeu que o foco de Addison permanecia firme na estrada. Ainda assim, não conseguiu evitar pensar no quanto ela era uma bela dama. O cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo revelava sua juventude; o rosto era agradável, os lábios bem definidos. Quantos anos ela tinha? Quarenta e poucos? Final dos quarenta? Trinta e tantos? Tudo era possível. O que quer que fosse, Meredith a achava bonita.
— Ei, Addison... eu gostaria de te agradecer pelo que você fez lá por mim, na delegacia — disse distraidamente.
Ela gritou quando o carro parou bruscamente. Addison pisou com força no freio, fazendo o veículo parar de repente, e se virou para ela com um olhar feroz. Meredith, em choque, levou a mão ao peito.
— Dirija-se a mim desse jeito mais uma vez e eu juro por Deus que atravesso este banco e te estrangulo — falou lentamente, com os dentes cerrados.
A garota engoliu em seco e deu de ombros.
— Nossa, desculpa... como você quer que eu te chame, então?
— Senhora Montgomery, ou até mesmo meritíssima, já seria suficiente — respondeu.
Meredith revirou os olhos.
— Então... meritíssima? — perguntou com uma incerteza genuína.
Addison franziu o cenho; seu rosto bonito se voltou para cima de forma dramática, a testa marcada pelas rugas de tensão, antes de voltar sua atenção para a estrada.
— Onde estão seus pais? — perguntou, depois que o silêncio se tornou insuportável. E ela própria se questionou por que aquilo lhe importava.
— Debaixo da terra. Mortos.
A indiferença com que a garota lançou aquela bomba fez Addison quase engasgar com a própria saliva.
— Você está falando sério? — perguntou, limpando a garganta.
— Por que eu mentiria sobre isso?
— Porque você tem uma reputação, senhorita Grey, e ela não é das melhores.
— Bom, dessa vez não estou mentindo. Eles tiveram uma morte infeliz quando eu ainda era bebê. E antes que isso vá para onde eu imagino, só quero deixar claro que não preciso de ajuda de família ou parentes.
— Entendo. Então essa garota, Sadie... por que ela tentaria te colocar na cadeia assim? Ela não deveria ser sua amiga?
— Sim, era o que eu pensava. Não sei por que ela ficou tão brava... talvez esteja com inveja — respondeu Meredith.
Addison zombou, sem tirar os olhos da estrada.
— Inveja de quê?
— Porque eu sou um monte de coisas que ela não é — como gostosa — respondeu com um sorriso.
A mulher finalmente lhe lançou um olhar cheio de desdém.
— Você não é nem um pouco convencida, né?
— É nisso que eu sou boa. E é também por isso que você gosta de mim. Você gosta da emoção, da adrenalina das coisas desconhecidas, mas interessantes, que eu sou capaz de fazer.
Addison soltou uma risada irônica e voltou o olhar para a estrada solitária.
— Você acha que eu gosto de você?
— Eu não acho. Eu tenho certeza.
— Eu mal te conheço. Além daquela vez em que você apareceu diante de mim no tribunal... e isso foi o quê? Quase três meses atrás? — respondeu Addison.
Ao se lembrar da primeira vez que se deparou com aquela garota instável, teve que admitir que, no mínimo, ficara intrigada com a completa incapacidade dela de se importar.
— Então você vai jogar assim, Montgomery? Me diga: se você não gosta de mim, por que está aqui me ajudando?
A pergunta fez Addison encostar o carro no acostamento. Ela se virou lentamente para encarar a garota de cabelos claros. Uma expressão severa tomou seu rosto; as linhas em sua testa se aprofundaram, os lábios se comprimiram, e seus olhos claros não se desviaram nem por um segundo.
Ela odiava o fato de Meredith ter tocado na verdade.
— Eu sou uma mulher casada. Muito bem casada, por sinal. Tenho uma família: marido, dois filhos e um neto. E você realmente acha que estou apaixonada por você? Uma jovem mentalmente estagnada de vinte e três anos? — disparou.
Meredith franziu a testa. As palavras foram ofensivamente precisas.
— Você pode ter tudo isso e ainda assim vagar — retrucou. — Eu sei que você está intrigada, pelo menos. Por que mais viria resgatar alguém que mal lembra e muito menos conhece?
O silêncio se instalou novamente. Addison deu partida no carro, e o som suave do motor preencheu o espaço entre elas.
— Eu preciso que você fique quieta pelo resto do caminho.
— Você é minha mãe? Não? Então não há necessidade de me dizer o que fazer.
As palavras desafiadoras irritaram a juíza. Seu nariz se alargou, a mandíbula trabalhou com força, e ela apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.
Lentamente, Addison se inclinou na direção da garota. Meredith se recostou no banco ao ver o brilho mortal nos olhos atentos da mulher.
— Se eu tiver que dizer mais uma palavra sequer sobre como você deve se comportar, marque bem o que eu digo: vou cumprir o que prometi... e mais cedo do que imagina.
— Desculpa, caramba! — Meredith resmungou, desviando o olhar para a janela, encarando a noite calma.
Ela ouviu Addison soltar um suspiro pesado. Pelo canto do olho, percebeu o ombro da mulher relaxar. Estava cansada — eram três da manhã — e Meredith sabia que não podia culpá-la.
— Amanhã, você e eu vamos ter uma longa conversa sobre essa sua amiga e sobre o que realmente está acontecendo. Por enquanto, só quero te levar para casa e voltar para a minha — disse Addison, abafando um bocejo.
Meredith não respondeu. Limitou-se a olhar pela janela, a mente completamente vazia.
Continua...
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𝚄𝚖𝚊 𝚂𝚞𝚋 𝙿𝚎𝚛𝚒𝚐𝚘𝚜𝚊 - 𝐌𝐞𝐝𝐝𝐢𝐬𝐨𝐧
Fanfic[CONCLUÍDA] Quando uma juíza respeitável, acostumada ao controle, à moral e às próprias regras, cruza o caminho de uma jovem impulsiva e envolta em problemas, nada permanece intacto. O que começa como um simples ato de responsabilidade se transforma...
