Capítulo 3 - Silêncios que Queimam

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A viagem foi conduzida, em sua maior parte, em silêncio. A tensão dentro do carro era palpável, densa o suficiente para subir pela garganta e sufocá-las suavemente. Ambas pareciam desejar apenas que tudo acabasse logo.

Meredith sabia que Addison ainda estava chateada, mas não se importava muito com isso. Estava simplesmente eufórica por a juíza ter sido capaz de tirá-la daquele lugar inteira.

Ao lançar um olhar discreto para a motorista atenta, Meredith percebeu que o foco de Addison permanecia firme na estrada. Ainda assim, não conseguiu evitar pensar no quanto ela era uma bela dama. O cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo revelava sua juventude; o rosto era agradável, os lábios bem definidos. Quantos anos ela tinha? Quarenta e poucos? Final dos quarenta? Trinta e tantos? Tudo era possível. O que quer que fosse, Meredith a achava bonita.

Ei, Addison... eu gostaria de te agradecer pelo que você fez lá por mim, na delegacia — disse distraidamente.

Ela gritou quando o carro parou bruscamente. Addison pisou com força no freio, fazendo o veículo parar de repente, e se virou para ela com um olhar feroz. Meredith, em choque, levou a mão ao peito.

Dirija-se a mim desse jeito mais uma vez e eu juro por Deus que atravesso este banco e te estrangulo — falou lentamente, com os dentes cerrados.

A garota engoliu em seco e deu de ombros.

Nossa, desculpa... como você quer que eu te chame, então?

Senhora Montgomery, ou até mesmo meritíssima, já seria suficiente — respondeu.

Meredith revirou os olhos.

Então... meritíssima? — perguntou com uma incerteza genuína.

Addison franziu o cenho; seu rosto bonito se voltou para cima de forma dramática, a testa marcada pelas rugas de tensão, antes de voltar sua atenção para a estrada.

Onde estão seus pais? — perguntou, depois que o silêncio se tornou insuportável. E ela própria se questionou por que aquilo lhe importava.

Debaixo da terra. Mortos.

A indiferença com que a garota lançou aquela bomba fez Addison quase engasgar com a própria saliva.

Você está falando sério? — perguntou, limpando a garganta.

Por que eu mentiria sobre isso?

Porque você tem uma reputação, senhorita Grey, e ela não é das melhores.

Bom, dessa vez não estou mentindo. Eles tiveram uma morte infeliz quando eu ainda era bebê. E antes que isso vá para onde eu imagino, só quero deixar claro que não preciso de ajuda de família ou parentes.

Entendo. Então essa garota, Sadie... por que ela tentaria te colocar na cadeia assim? Ela não deveria ser sua amiga?

Sim, era o que eu pensava. Não sei por que ela ficou tão brava... talvez esteja com inveja — respondeu Meredith.

Addison zombou, sem tirar os olhos da estrada.

Inveja de quê?

Porque eu sou um monte de coisas que ela não é — como gostosa — respondeu com um sorriso.

A mulher finalmente lhe lançou um olhar cheio de desdém.

Você não é nem um pouco convencida, né?

É nisso que eu sou boa. E é também por isso que você gosta de mim. Você gosta da emoção, da adrenalina das coisas desconhecidas, mas interessantes, que eu sou capaz de fazer.

Addison soltou uma risada irônica e voltou o olhar para a estrada solitária.

Você acha que eu gosto de você?

Eu não acho. Eu tenho certeza.

Eu mal te conheço. Além daquela vez em que você apareceu diante de mim no tribunal... e isso foi o quê? Quase três meses atrás? — respondeu Addison.

Ao se lembrar da primeira vez que se deparou com aquela garota instável, teve que admitir que, no mínimo, ficara intrigada com a completa incapacidade dela de se importar.

Então você vai jogar assim, Montgomery? Me diga: se você não gosta de mim, por que está aqui me ajudando?

A pergunta fez Addison encostar o carro no acostamento. Ela se virou lentamente para encarar a garota de cabelos claros. Uma expressão severa tomou seu rosto; as linhas em sua testa se aprofundaram, os lábios se comprimiram, e seus olhos claros não se desviaram nem por um segundo.

Ela odiava o fato de Meredith ter tocado na verdade.

Eu sou uma mulher casada. Muito bem casada, por sinal. Tenho uma família: marido, dois filhos e um neto. E você realmente acha que estou apaixonada por você? Uma jovem mentalmente estagnada de vinte e três anos? — disparou.

Meredith franziu a testa. As palavras foram ofensivamente precisas.

Você pode ter tudo isso e ainda assim vagar — retrucou. — Eu sei que você está intrigada, pelo menos. Por que mais viria resgatar alguém que mal lembra e muito menos conhece?

O silêncio se instalou novamente. Addison deu partida no carro, e o som suave do motor preencheu o espaço entre elas.

Eu preciso que você fique quieta pelo resto do caminho.

Você é minha mãe? Não? Então não há necessidade de me dizer o que fazer.

As palavras desafiadoras irritaram a juíza. Seu nariz se alargou, a mandíbula trabalhou com força, e ela apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

Lentamente, Addison se inclinou na direção da garota. Meredith se recostou no banco ao ver o brilho mortal nos olhos atentos da mulher.

Se eu tiver que dizer mais uma palavra sequer sobre como você deve se comportar, marque bem o que eu digo: vou cumprir o que prometi... e mais cedo do que imagina.

Desculpa, caramba! — Meredith resmungou, desviando o olhar para a janela, encarando a noite calma.

Ela ouviu Addison soltar um suspiro pesado. Pelo canto do olho, percebeu o ombro da mulher relaxar. Estava cansada — eram três da manhã — e Meredith sabia que não podia culpá-la.

Amanhã, você e eu vamos ter uma longa conversa sobre essa sua amiga e sobre o que realmente está acontecendo. Por enquanto, só quero te levar para casa e voltar para a minha — disse Addison, abafando um bocejo.

Meredith não respondeu. Limitou-se a olhar pela janela, a mente completamente vazia.

Continua...

𝚄𝚖𝚊 𝚂𝚞𝚋 𝙿𝚎𝚛𝚒𝚐𝚘𝚜𝚊 - 𝐌𝐞𝐝𝐝𝐢𝐬𝐨𝐧Histórias para pegar e não largar. Descubra agora