Capítulo 9 - Fraturas

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Controlar a raiva que crescia dentro de si exigia um esforço quase físico. Addison ainda sentia o eco da ligação reverberando em sua cabeça — alguém acordando-a no meio da noite apenas para despejar acusações, gritos e insolência. Era exaustivo.

Ela não podia permitir que Derek percebesse aquele estado, não agora. Não queria perguntas, nem olhares atentos demais.

Respirou fundo, como fazia sempre que precisava se recompor. Inspirou lentamente, contou alguns segundos, depois soltou o ar com cuidado. Repetiu o gesto diante da pia, lavou o rosto e o secou às pressas, encarando o próprio reflexo por um instante mais longo do que pretendia.

Em que exatamente ela havia se metido?

Três semanas. Apenas três semanas desde que concordara em ajudar Meredith — e ainda assim parecia uma vida inteira. A jovem era difícil por escolha, orgulhosa de cada provocação, de cada resistência. Addison sentia-se cansada antes mesmo de enfrentar o próximo passo. Não havia mais espaço para condescendência; se Meredith queria jogar duro, ela também jogaria.

Um leve bater na porta a arrancou de seus pensamentos.

— Está tudo bem? — a voz de Derek veio suave, cautelosa. — Eu ouvi você falando com alguém... parecia irritada.

Ele entrou após alguns segundos, como sempre fazia. Alto, casual demais em suas calças de flanela e camiseta cinza, o cabelo escuro desalinhado. Bonito. Familiar. Estranhamente distante.

— Era só a April — mentiu, sem hesitar. — Nada importante.

— Você tem certeza? — Ele se aproximou, sentando-se ao seu lado na cama. — Você anda... diferente, Addie. Eu estou preocupado.

Ela virou o rosto para encará-lo. Não havia frieza ali, apenas uma ausência incômoda. Quando ele tocou seu rosto, ela não sentiu rejeição — apenas nada. E foi isso que mais a assustou.

Derek inclinou-se devagar, buscando seus lábios. Addison desviou no último segundo, fazendo com que o beijo morresse em sua bochecha.

— Desculpa... eu só preciso dormir — murmurou, fingindo um bocejo ensaiado.

Ele a observou por alguns segundos, os olhos azuis carregados de algo que ela conhecia bem: frustração misturada à vergonha. Quando finalmente se levantou e saiu do quarto, Addison sentiu o peso da culpa cair sobre seus ombros como uma âncora.

Eles sabiam. Ambos sabiam. Mas o conforto da inércia era mais fácil do que enfrentar o inevitável.

Pensou nos filhos, Madelyn e Henry. Pensou na casa, no tempo, no medo de recomeçar aos quarenta. Pensou, sobretudo, em como vinha usando essas razões como escudo — não por eles, mas por si mesma.

Quando percebeu, o lado da cama estava vazio.

Addison fechou os olhos. Ainda havia carinho. Respeito. Gratidão.
Mas o amor que um dia sustentara aquele casamento havia morrido há anos — desde o caso, desde a ruptura silenciosa que nunca fora realmente curada.

E, de algum modo perturbador, voltar a sentir desejo, controle, risco... fazia com que ela se sentisse viva outra vez.

E isso, ela sabia, mudaria tudo.



𝚄𝚖𝚊 𝚂𝚞𝚋 𝙿𝚎𝚛𝚒𝚐𝚘𝚜𝚊 - 𝐌𝐞𝐝𝐝𝐢𝐬𝐨𝐧Onde histórias criam vida. Descubra agora