Rufus foi recepcionado com mais um "bom dia" enquanto passava com sua carrocinha vazia em direção ao centro da cidade para comprar alguns mantimentos. Com alegria respondeu à pessoa que o recepcionara, a qual não era a primeira nem seria a última daquele local a fazer isso. Era um rosto conhecido na região, oferecendo diversos serviços como caçador quando não estava cuidando da família ou do corte de algumas árvores próximo de onde residia. Muitos, mas não todos, sabiam do seu histórico na antiga Guilda do Sorriso, por isso confiavam plenamente nas habilidades do bronzeado homem quando vinham contratá-lo para um serviço.
Em uma casa do caminho, parou, bateu à porta e logo foi atendido por uma jovem dona de casa que ficou feliz em receber o banco que encomendara. Rufus sorriu ante o contentamento da moça, recolheu seu pagamento e seguiu para a retirada semanal dos mantimentos. Embora tivesse uma horta em casa, nem sempre saía para caçar e certos temperos só eram conseguidos na cidade. No geral era algo bom: pegava serviços dessa forma e podia passear com a pequena Sofia, às vezes impaciente de ficar tanto tempo em casa.
Depois de usar o dinheiro que ganhara com o banco de madeira, se pôs no caminho de volta para casa. A cidade era um aglomerado de casas e comércios, normalmente aos pares já que de um lado ficava o local do sustento e do outro o local de descanso, separados apenas por uma parede. Raros eram os comércios que não eram unidos a uma residência, como era o caso da ferraria, mas não eram incomuns alguns grupos de casas sem comércios próximos. Havia também a prefeitura que nada mais era que um antigo conjunto de quatro edificações que foram unidas para proporcionar maior espaço para os administradores públicos dali. Saindo desse aglomerado, o núcleo da cidade denominada centro, estavam as casas satélites espalhadas mais além e que também formavam a cidade. Era o local onde ficavam os fazendeiros em seus pequenos espaços de agricultura ou mesmo pessoas que chegaram posteriormente ali, como no caso de Rufus, o qual construíra sua casa há pouco menos de uma década e vivia um pouco afastado do centro.
Tão logo ele passou pela primeira fazenda quando viu alguns soldados imperiais em suas roupas escuras e estandarte com um Sol. Destacou-se do grupo de não mais que sete cabeças aquele que parecia ser a líder, a qual dirigiu-se a Rufus.
-Olá, Rufus – disse Susana. Deixara o cabelo negro crescer desde a última vez que estivera com Rufus, mas a cicatriz no queixo se mantinha visível – Como vai a costureira?
-Caroline está bem. Não sabia que agora era uma imperial.
-Fui bem recepcionada. Meus talentos foram bem aproveitados e ainda tive a oportunidade de continuar com o Braço Fantasma.
-Isso é bom – disse. E completou - Para você. Veio me alistar?
-Não. Sei que não tem o menor interesse nisso. O Imperador vem requisitando, desde o último ano, por todos os Materiais Divinos do país. Vim em busca do seu. Vai me entregar?
-O que acontece se eu disser que não?
-Aí eu digo que não te encontrei e ficamos só nesse reencontro – ela dirigiu-se para os soldados que a acompanhavam – E todo mundo vai dizer que caminhamos, caminhamos e caminhamos, mas o Rufus não achamos. Rimando dessa forma.
-Me parece bom – Rufus sorriu, levantando a carrocinha cheia de especiarias – Tudo bem por você?
-Não podia estar melhor – e Rufus seguiu seu caminho, sem ser impedido. Exceto por – Ei, amigão! Daquela vez, há cinco anos... não foi culpa sua. Todos erramos.
Rufus parou por um instante, sem se virar, assentiu e desejou um bom dia para a ex-companheira de guilda. Na quinzena seguinte, enquanto cortava algumas toras de madeira, foi novamente abordado, agora por um quarteto do Sol Nascente, dentre os quais se podia identificar um que estivera com Susana da última vez.
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Sob a terra agora habita
Fiction générale[2020] A história conta, em meio a um entrelaçamento de presente e passado, a fuga de um monge e um idoso do Monastério das Velas. Perseguidos por inimigos sobre os quais não fazem ideia das motivações, a dupla segue guiada apenas pelo instinto de s...
