VI

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Veneno.

É domingo, e a melancolia mais uma vez começa a atravessar as frestas da janela, com dedos longos e pegasojos se arrastando até alcançar meu coração e aperta-lo com força, ao ponto de roubar meu fôlego e quase deixar o livro que tenho em mãos cair.

O sofá, antes aconchegante e macio, começa a pinicar na minha pele, trazendo uma quentura que não aquece, mas sufoca.

O suor frio desce cortante pela alma.

O frasco com o líquido verde aparece em minhas mãos. Não me lembro de tê-lo pego, mas de alguma forma nunca lembrava. Todas as vezes ele só surgia, como um salvador que aparece quando se mais precisa, impedindo que tome uma decisão que se arrependerá mais tarde.

E como das outras vezes, aquela pequena voz, que se rompe no fundo da mente, se repete sem parar.

"Você merece"

Merece cada gota de veneno, por mais que eventualmente fosse leva-la a morte.

Merece, mesmo sabendo que a cada novo banho, os adoráveis cabelos castanhos estavam caindo mais que o normal.

Sempre digo para todos que é o estresse do trabalho, mas na verdade tudo era culpa daquele pequeno líquido. Merecia cada gota, cada consequência que ele trazia.

Merecia..., merecia porque...

Não se lembrava, mas merecia.

Se não merecesse, não seria tratada tão mal pelos os que dizem me amar.

Abri a pequena tampa do frasco e o balancei, o líquido brilhou do mesmo jeito de um pântano quando a luz do sol o atravessa; aterrorizante e encantador.

O bebi, como se estivesse com sede, sem deixar nenhuma gota de fora.

A sensação é nauseante, igual viajar de ônibus sem fones de ouvido, trazendo lembranças da primeira vez que o bebi.

Também era domingo e estava sentada no sofá, lendo um romance — muito parecido com o que lia agora —, o casal estava naquela parte em que se declaravam pela primeira vez, juras de amor eterno eram proferidas, algo que duraria até o fim das páginas.

Desejei ter o que tinham, sentir, pelo menos uma vez, o que sentiam.

O que era amar alguém naquela magnitude e ser correspondido na mesma intensidade?

Parecia mágico. Um conto de fadas perfeito.

Foi quando algo aconteceu, mas não tenho memórias concretas sobre; apenas sensações me acompanharam durante aquele dia: como a dor constante em meu peito, prendendo o desejo de ser livre de... alguma coisa.

A vontade de tomar uma atitude sobre aquela situação incômoda, sendo apagada pelo sufocar de lágrimas engasgadas na garganta.

O medo constante de que tinha algo errado, assim como o desejo de ser outra pessoa, ter outra vida... tudo se misturando até causar uma mistura sufocante.

O frasco de veneno apareceu vazio em minha mão, sabia que o havia tomado apenas pelo gosto de dipirona vencida na boca. E mesmo depois de tentar tira-lo com água, biscoitos e doces, o sabor permaneceu preso na minha garganta.

No dia seguinte, ela disse, o gosto desceria melhor.

Assim como no dia depois desse e o dia depois daquele.

Até que chegaria o momento que não sentiria mais o gosto; poderia descer até mesmo doce.

Não um doce saboroso, como um delicioso bolo de chocolate, mas ainda assim doce.

E ela tinha razão... você se acostuma com o passar do tempo com o que te faz mal, ao ponto de não se importar mais com o sabor.

Hoje não sinto mais nada quando bebo, além da leve náusea que me deixa dormente por alguns minutos infinitos.

As sensações do primeiro dia ainda ressurgem, todo o domingo da mesma forma, mas o veneno sempre vai aparecer para apaga-las outra vez.

E assim os dias se repetem sem nenhuma mudança memorável. 

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