VII

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Parabatai¹

"Rogo não deixá-lo; ou voltar após segui-lo; Pois, para onde fores, irei;
E onde estiver, estarei;
Os teus serão os meus;
e teu Deus, o meu Deus;
Onde morreres, morrerei, e lá serei enterrado.
O anjo o fez pra mim, mas também, nada senão a morte partirá a mim e a ti"

— Peças Infernais de Cassandra Clare.

Você foi meu maior pecado.

A única pessoa que possuía uma parte minha da qual não consigo mais acessar.

E agora o vazio me acompanha, a cada passo que dou em direção à um futuro em que você não existe mais.

Pela primeira vez desejo acreditar em suas crenças, de que existe algo além depois daqui, e que iremos nos encontrar outra vez.
Talvez em diferentes corpos, mas ainda assim retendo a mesma alma que nos reuniu nesse mundo, que nos fez ser tão semelhantes ao ponto de criar um elo que a apenas a morte poderia ter quebrado.

E ela quebrou.

Desfez em cinzas, deixando apenas o eco de uma sensação, como se um membro tivesse sido arrancado de uma vez do meu corpo.

Engraçado pensar que falam de uma dor invisível, a lembrança de um membro perdido que assombra aqueles que o perderam. Membro fantasma, o chamam. E agora, aterrorizante, essa ausência se tornou a minha própria realidade.

As vezes, distraída pela rotina, me pego falando uma frase que te faria rir, percebendo tarde demais que não está ao meu lado para ouvir.

A dor fantasma ressurge, pura e visceral, como se nunca tivesse deixado de existir.

E nunca deixou, apenas se camuflou entre as partes do dia-a-dia, se escondendo entre um acordar e a escrita de um novo capítulo, até que às luzes são desligadas e mais uma vez a saudade vem deitar comigo, sussurrando memórias na escuridão.

"O elo de um Parabatai é mais forte do que os laços de sangue, tornando aqueles que desejam passar pelo juramento em irmãos de alma."

Lembro de falar essas palavras em uma tarde chuvosa. Estávamos em seu quarto cavernoso; sempre escuro não importando o horário do dia.

A escuridão sempre foi uma companhia mais sua que minha, algo que aprendi a gostar por fazer parte de você.

"És meu irmão de alma" acrescentei, "nos pertencemos de uma forma que mais ninguém compreende".

Você sorriu, e me perguntou de onde tinha tirado aquilo, renpondi que do novo livro em que estava obcecada.

Porque sim, nunca consigo gostar de nada de um jeito natural, tudo se transforma em obsessão; um foco de interesse tão intenso que transborda além de mim.

E você sempre foi o único que soube lidar com isso, todos os outros sempre tentam me reprimir, ao ponto do silêncio ser mais prazeroso do que conversar sobre o novo vício momentâneo.

Você era meu ponto de paz, o alicerce que me trazia de volta depois de passar dias mergulhada no meu próprio eu, procurando quem sou.

Com gentileza, pegava na minha mão e dizia, 'tudo bem se perder, desde que sempre consiga fazer o caminho de volta para casa".

Sempre voltei.

Porque era você que me esperava todas as vezes.

"Irmãos de alma..." disse pensativo. "É uma ótima definição para o que temos."

Concordei com um sorriso. Sabia que entenderia.

Um elo inquebrável,
capaz de sintonizar
as batidas de
nossos corações
imperfeitos.

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⏰ Última atualização: Mar 06, 2025 ⏰

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