Sacrifícios

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— VOSSA ALTEZA! ONDE ESTÁ ? Atlýs ouviu Suri gritando.
Interrompeu o beijo e olhou na direção de onde sua amiga gritava.
— Precisa ir, Alteza. — Lohan disse com sarcasmo.
— Posso fingir que não estou aqui — respondeu e capturou a boca alheia.
— VOSSA ALTEZA, O REI REQUESITA SUA PRESENÇA. É URGENTE! — a mulher continuou gritando e dessa vez, veio em direção da árvore.
— Você precisa ir, ela parece aflita — Atlýs se separou de Lohan com relutância. Os dois arfavam e tinham os lábios vermelhos e inchados. Poderia continuar fingindo que não estava aqui, mas pelo desespero de sua amiga, parecia que era um assunto urgente. Passou a mão pelos cabelos em uma tentativa de parecer minimamente decente e saiu debaixo da árvore sem olhar para trás.
— Estou aqui, Suri — disse no mesmo tom casual de sempre.
— Graças aos Deuses, o que estava fazendo todo esse tempo ? Seu pai mandou o Palácio inteiro te procurar! — respondeu com censura e inquietação.
— Estava me despedindo de um amigo — indagou sorrindo.
— Vamos, precisa ir até a sala de reuniões, agora.
Lohan observou os dois se afastarem indo em direção ao Palácio e jogou a cabeça para trás. Sentiu sua mente girar e seus pensamentos estavam uma verdadeira bagunça. Quisera beijar Atlýs desde o primeiro momento em que conversaram na noite de solstício, mas nunca achou que teria oportunidade ou que o outro se interessaria por ele... agora aqui estava, revivendo os últimos minutos em sua mente num maldito loop enquanto tentava pensar em uma maneira de disfarça a ereção antes de voltar para o ringue de treino. Riu consigo mesmo, inspirou o ar morno e expirou lentamente.
— Ele me chamou de Lohan.
~
Na manhã seguinte tudo havia voltado a ser como antes. Helion recebera notícias ainda de madrugada que os culpados foram capturados, mas que haviam tomado pílulas suicidas. Isso o deixou preocupado e intrigado, significava que haviam sido enviados e não fora um ataque isolado, mandou seu espião e o líder da guarda investigarem mais a fundo. Seus lacaios estavam trabalhando na reconstrução da biblioteca e no mapeamento do que foi perdido, logo teria respostas mais concretas do porquê do ataque e o que procuravam. Voltou ao escritório e esperou Az chegar, enquanto tomava chá com leite e organizava suas anotações.
— Espero que tenha uma caneca para mim — Ouviu o outro dizendo. Ergueu os olhos e uma nova xícara apareceu à sua frente.
— Nada melhor do que começar o dia com palavras e chá.
— Posso concordar com a parte do chá.
— É mesmo ? E o que deixaria a primeira parte melhor ? — perguntou com leveza.
— Treinamento matinal.
— Pelo Caldeirão, Az, quer treinar às seis da manhã ?
— E há alguma outra hora melhor ? O clima parece perfeito para uma corrida.
— Há meios mais eficazes de ficar ofegante e grudado com suor.
— Não responderei isso — Helion riu.
— Só estou dizendo, uma hora dessa, estaria deitado em minha cama.
— Ainda pode voltar, posso te acordar às dez.
— E perder a oportunidade de ficar quatro horas a mais em sua companhia ? Faço esse pequeno sacrifício.
— Tão altruísta — Az comentou animadamente. Se sentou na poltrona e invocou o livro na mesa de Helion.
– Bem, ao trabalho.
Começaram a fazer o mesmo de sempre, anotar repetições, marcar o nome de Atlýs e tentar juntar sílabas. Três horas haviam se passado quando o Illyriano começou a ficar um pouco entediado, não conseguia se concentrar em ler e sabia que não estava ajudando em nada.
— Talvez o Mestre Espião queira fazer outra coisa, já que está tão infeliz — o Grão-Senhor disse amarrando seu cabelo em um rabo de cavalo com uma fita. Az nunca vira Helion prender o cabelo e tinha que confessar que achou o movimento sensualmente hipnótico, imaginou o outro repetindo esse mesmo movimento, mas ajoelhado à sua frente, com olhos provocantes e boca aveludada...
— Santos Deuses Az o que diabos está pensando ? — Helion disse com malícia.
Estava pensando no que responder quando sentiu sua mente ser invadida "Azriel, preciso que venha até a cidade escavada, agora" a voz de Rhys soou, uma ordem inquestionável. Se levantou sob o olhar curioso de Helion e atravessou até o quarto, pegou as espadas gêmeas e algumas adagas. Sempre levava a Reveladora de Verdades com ele, mas tinha se acostumado com o tempo a usar roupas casuais e deixar metade de suas armas no quarto, algo que fazia raramente, já que tinha de estar sempre pronto a atender seu Grão-Senhor. Quando estava novamente em trajes de combate, voltou para o escritório e encontrou Helion com o mesmo olhar de quando partiu.
– Preciso ir, Rhys me chamou.
O Grão-Senhor não relaxou quando ouviu a explicação, mas também não fez nada para impedir, não estava no direito.
— Volte quando terminar — um pedido, tão honesto que Az se espantou.
— Certo – disse atravessando até a Cidade.

O Deus do Sol  (Hiatus) Onde histórias criam vida. Descubra agora