Distância e Revelação

0 0 0
                                        

- Desculpa Dardariel, eu fiz merda. Desde aquele dia do beijo, depois que minha avó foi para o hospital... Eu sou muito idiota por isso...

      Normalmente eu não rezaria e tão pouco oraria, mas confesso que cedi nessa última semana... Pedindo para que ele voltasse e eu pudesse me desculpar adequadamente. Tem mais ou menos um mês e meio que eu não vejo Matt. Não sei se ele voltou pro céu ou só desistiu de mim, um ser humano patético, mas estou preocupado...

- Sirius, vamos jantar.

- Já estou indo vó!

      Eu tive uma briga com Matt, em realidade eu só gritei com ele. Eu estava desesperado que a minha avó teve AVC, agora ela está bem... Mas está demenciando e seu lado esquerdo do rosto também ficou paralisado então ela tem algumas dificuldades.

      Matt me disse que a hora dela estava chegando, sei que não foi por mal que falou isso, mas naquele momento eu o mandei calar a boca. Ainda que suas palavras fossem benevolentes, ela é minha única família agora, minha tia não gosta de mim por causa da minha mãe, então não vejo meus primos desde o último natal, mas se eu perder minha avó, o que eu vou fazer?

      Eu estou com medo, não quero ficar sozinho... Tentei ao máximo disfarçar meu desânimo para minha avó, ela já passou por esse trauma do AVC, não quero preocupa-la com minhas questões. Após o jantar eu lavei nossas vasilhas e fui para o quarto. Já havia terminado de estudar para a prova de amanhã, mas com uma cara de cu igual a minha era até melhor ir dormir mais cedo.

      Eu deitei na cama e fiquei olhando para a janela onde uma parte do céu estrelado ficava a mostra, o Cruzeiro do Sul bem iluminado estava ali, parecia que zombava de mim por poder estar no alto e quem sabe ver Matt. Droga, virei para o lado e de repente vi pernas a minha frente.

- Olá Sirius.

- Quê? Você não é o M... Dardariel.

- Correto. Eu sou o anjo Akriel.

      Akriel, além de ter um nome tão estranho quanto de Matt. Esse anjo se veste muito extravagante. Cropped branco com uma estampa escrita "Star", shorts vermelho e meia arrastão, além de brilho nas pálpebras.

      Que isso? Ele saiu de uma boate? Anjos são assim? Matt não é nem um pouco assim. Inclusive, até gostaria que fosse. Mas independente de sua vestimenta, esse anjo também é muito lindo. Isso sim deveria ser um pecado.

      Nós ficamos nos encarando em silêncio, ele não vai dizer nada? Bom, se ele é um anjo e está aqui, então talvez Matt ainda esteja na Terra, será que esse anjo sabe onde ele está?

- Nossa, você é um humano muito sem graça. - ele simplesmente me insultou? - Bem que Dardariel me disse que você não ficou impressionado quando viu um anjo em meia forma na sua frente. Você é tedioso.

- Você tá me insultando?

- Eu esperava uma reação de surpresa ou então medo. "Nossa! Anjos e demônios existem! E agora? Eu vou pro inferno?" Algo assim.

- Você não bate bem da cabeça.

      Ele deu de ombros e do nada tirou um pirulito do bolso.

- Muito chato.

- Existe anjo dos insultos?

- Claro que não, humano ignorante.

- Ah, mas acho que vocês deveriam promover um cargo pra ti. Akriel, o anjo dos insultos.

- Ei! Quanta petulância!

- Eu? Você chegou no meu quarto sem ser convidado e me chamou de chato, eu quem sou petulante? Sua merdinha de asas.

- Retire o que disse humano!

- Não retiro. Não tô nem aí se xingar um anjo vai me levar pro inferno.

- Tá bom!

- Então, onde está o Dardariel?

- Não quero te contar agora, tente mais tarde.

      Ele começou a flutuar no meu quarto enquanto chupava seu pirulito. Eu não esperava que anjos pudessem ser assim. A falta de presença do Matt é um contraponto com esse daqui, todo espalhafatoso.

- Tá bom, não conta. Boa noite anjinho da guarda.

- Não sou anjo da guarda! Sou o anjo da fertilidade.

- Ah, legal. Tchau.

- Meu irmão se afeiçoou a você? Inacreditável.

- Como assim? Você está falando do Dardariel?

- Não estava indo dormir?

- Você realmente não cai mas minhas provocações.

- Vai ter que fazer mais do que isso.

- Ah, é? Aprendeu com alguém então.

- Sim, o alguém com quem convivi não era só humano. - ele parou na minha frente, porém, de cabeça para baixo. - Ele é metade demônio.

Como Estrelas CadentesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora