Era semana do Grande Prêmio da Espanha, e Carlos andava de um lado para o outro, visivelmente mais animado do que o habitual. Talvez fosse o GP em casa. Ou, talvez, a chegada iminente de uma suposta "melhor amiga" chamada Emma. Marjorie observava tudo com divertimento, enquanto saboreava seu sorvete de chocolate com menta, o favorito.
Depois da semana turbulenta que veio após o GP de Mônaco, estavam de volta à rotina. Assim como a turbulência que ainda pairava sobre seu relacionamento com Enrico. Charles havia sido incrível naquele dia, oferecendo apoio e sem julgamentos. E Marjorie ainda se pegava lembrando da proximidade entre eles com uma pontada de culpa – pelo que sentiu, ou achou que sentiu.
— Isso é entusiasmo porque a corrida é em casa? Ou é porque a Emma tá chegando? — ela perguntou rindo, vendo Carlos quase tropeçar de tão agitado.
— Você me respeita? Porque ninguém aqui tocou no assunto proibido porque a madame se sentia desconfortável — ele respondeu em tom teatral. Marjorie arqueou as sobrancelhas. — É refresco no dos outros, amor.
— Cortamos relações, Carlos Sainz — ela respondeu, fazendo drama, e os dois caíram na risada.
O tal "assunto proibido" era o momento que todos — sim, todos — presenciaram no iate dias antes. Quando encontraram Marjorie e Charles sozinhos no quarto, em um clima que era tudo, menos casual. Ela tentou explicar aos amigos o que aconteceu, ou o que achava que poderia ter acontecido. Mas foi tarde demais. O flagra já tinha rendido horas de piadas, olhares sugestivos e silêncios constrangedores. Lando, especialmente, não deixava o caso morrer.
— Que horas a donzela chega? — perguntou Marjorie, fingindo impaciência.
— Se era eu quem estava faltando, agora não falta mais — disse Emma, surgindo atrás deles com sua mala de rodinhas, o sorriso pronto e os óculos escuros estrategicamente posicionados no alto da cabeça. Marjorie abriu um largo sorriso e foi ao seu encontro.
— Não me sufoca, amiga — disse Emma, ao ser abraçada — Você sabe que abraço não é minha linguagem do amor.
Era engraçado porque, ironicamente, Emma era uma das pessoas mais carinhosas que Marjorie conhecia.
— É um abraço de alívio! Eu não aguento mais esses homens.
— Mas meu bem, você acha que eu aguento?
As duas riram e caminharam até Carlos, que parecia travado, como se estivesse vendo uma miragem. Ele não escondia — nem queria — o quanto ficava mexido sempre que Emma aparecia.
— Como você está, meu gatinho?
— Melhor agora.
Marjorie observava tudo, sorrindo. Ela sempre pensou que, se quisessem, Carlos e Emma seriam um casal incrível. Mas entendia também a distância: Emma vivia na Espanha e Carlos vivia... em aeroportos.
Seus pensamentos se dispersaram quando Charles apareceu. Como sempre desde o "assunto proibido", ela se sentia envergonhada — talvez até mais do que deveria. Viu Emma abraçá-lo com naturalidade e puxá-lo para uma conversa sobre férias e ilhas gregas.
— Pois pensa — Emma dizia animada — vai eu, o Sainz, a Mar, o Lando e o George com o chaveirinho dele, claro — ela soltou um risinho, fazendo Charles rir junto — e vai você. E, ah, o Enrico... se você quiser levar ele, amiga. Se não quiser, eu apoio fortemente.
Marjorie revirou os olhos enquanto Charles e Carlos riam.
— Você não muda nunca, né? — ela comentou entre risos — Mas eu topo! E faço o Lando pagar minha viagem ainda por cima — completou, com ar de vingança dramática — digo a ele que é o mínimo por toda a dor de cabeça que ele me dá no trabalho.
— Pronto, agora quer apelar — Lando respondeu, surgindo do nada — Emma, meu amor, sempre linda.
Marjorie olhou ao redor. Aquela era sua zona de conforto, por mais que sua vida pessoal estivesse um caos. Aqueles amigos, as piadas, o apoio... eram seu equilíbrio.
— Gente, eu amo vocês e tudo mais — Emma disse, puxando Marjorie pelo braço — mas é aquele momento, sabe? Assunto de mulher. Eu preciso fofocar com ela. À noite estamos de volta.
As duas se afastaram pelo paddock, deixando os rapazes para trás. Assim que elas sumiram de vista, Carlos olhou para Charles com um sorriso torto.
— E então, Leclerc... você vai levar o Enrico?
— Cala a boca, Sainz — Charles respondeu, mas riu em seguida, tentando não lembrar do toque da mão de Marjorie sobre a sua dias antes. Tentando, sem sucesso.
