Tina POV
Já tinha alguns dias que Heidi e eu não nos víamos, ela teve que fazer um treinamento e ficaria fora da cidade por alguns dias. Depois do meu pedido de desculpas em minha casa nos encontramos mais algumas vezes e tudo estava bem entre a gente. Do meu quiosque eu vi Marima e Charlotte dando umas olhadas onde eu estava e eu com medo de que elas estivessem desconfiando de alguma coisa. Terminei de atender o cliente e voltei para outra prancha que eu tenho que terminar. Peguei meu celular e enviei uma mensagem para Heidi.
"Oi, estou com saudades. Hoje eu percebi a Marima e a Charlotte me encarando como se estivessem me julgando por algo. Será que elas desconfiam de algo?"
Meia hora depois veio a resposta dela.
"Oi. Ninguém está sabendo que estamos nos encontrando. Também estou com saudade. Posso te ligar lá pelas vinte horas?"
"Pode. Agora vou voltar a me concentrar na prancha aqui."
"Achei que iria se concentrar em mim." - Heidi respondeu e eu apenas ri. Reli sua mensagem pensando em uma resposta.
"Sempre estou com você em meus pensamentos."
Bloqueei meu celular e coloquei no bolso da calça. Comecei a trabalhar na prancha e o dia custou a passar. Eu fiquei ali dando forma no pedaço de material. Coloquei uma música e foquei ali. Algumas vezes reparei Charlotte ou Marima passando em frente indo até o quiosque ao lado. Por volta das cinco horas comecei a perceber que estava uma ventania. A praia começou a ficar vazia, Charlotte e Marima não estavam mais ali. Resolvi que estava na hora de ir para casa. Peguei minha pasta e sentei-me na mesa para fazer alguns desenhos da prancha do pedido desse cliente e de outros também. Nem me dei conta de que já eram quase sete horas. Aguardei tudo na minha pasta e fui tomar um banho. Dali, abri a porta da geladeira procurando por algo. Perto do horário combinado, Heidi me ligou por chamada de vídeo e atendi.
"Olha só ela, toda pontual." - Resolvi tirar sarro.
"Se eu não for, você vai começar a andar de um lado para o outro até fazer um buraco aí, Tina Wigg."
"Me conhece bem mesmo."
"Algumas coisas a gente nunca esquece."
Pode não ter sido nada, mas percebi Heidi me mandar uma piscadinha. É isso mesmo produção?
"Vejo que está na cozinha, o que está preparando?"
"Meu jantar. Ou eu acho que é isso." Ri e ela me acompanhou. "Tem certeza que Charlotte ou Marima não sabem de nada?"
"Absoluta, mas posso sondar já que combinei com elas de irmos à praia no próximo sábado à tarde."
"Só sei que foi estranho o jeito que elas me olharam hoje. Parece que eu tinha cometido um crime."
"Se o crime foi roubar o meu coração, então nem julgo elas."
"Você roubou o meu primeiro e nem percebeu."
E do nada ficou um silêncio entre a gente e uma troca de sorrisos e olhares sinceros.
"Tina, posso te pedir um favor."
"Se eu puder atender..."
"Você poderia me buscar amanhã na rodoviária? Minha irmã vai visitar a minha mãe por alguns dias e como é longe de casa, lembrei que você poderia me ajudar com isso."
"O que eu não faço pela minha princesa..." Comentei dando uma piscadinha pra ela. "Que horas você chega?"
"A previsão de chegada é às sete da noite."
"Okay, estarei lá. Agora me conte: e como foi esse treinamento?"
"Foi interessante. Aprendi coisas novas para a clínica, teve algumas palestras e workshops. No fim, foi bem interessante."
"Você parece cansada."
"Estou um pouco. E o que você fez hoje?"
"Comecei a dar a forma de uma prancha, consegui mais dois pedidos e antes de você ligar estava fazendo os esboços dos desenhos para as pranchas."
"Isso é muito bom Tina." Heidi bocejou.
"Acho que vou deixar você dormir. Não duvido nada que seu dia tenha sido bem agitado. E eu também estou cansada."
"Sério Tina que vai me abandonar?"
"Só nas próximas vinte quatro horas. Eu já percebi você bocejando umas cinco vezes."
"Okay, eu me rendo. Preciso mesmo dormir. Beijos e boa noite."
"Boa noite e beijos."
Encerrei a chamada de vídeo e sentei-me no sofá tentando entender o que tinha acontecido alguns minutos atrás. Ela não poderia brincar com meus sentimentos, ou será que poderia?
"Que droga."
Foi o que eu resmunguei ao deitar no sofá enquanto assistia ao jornal local. Um alarme no meu celular tocou indicando que eu tinha que ir para a cama. Desliguei a televisão e fui para o quarto. Juntei as coisas do lanche que fiz minha janta e guardei cada item em seu respectivo lugar.
No horário combinado no dia seguinte, fui até a rodoviária e cheguei uma hora do previsto para o ônibus de Heidi estacionar na plataforma D11. Sentei em um banco próximo dali e o que me restava era aguardar. Heidi e eu trocamos mensagens e cerca de uma meia hora o ônibus entraria na cidade. Quando o ônibus dela estacionou na vaga, fiquei aguardando ela descer e aguardei por ela. Vi ela descer e ir pegar a sua mala. Peguei meu pacote e fui até ela. Nos abraçamos e peguei a mala em sua mão, no começo ela relutou um pouco, mas quando eu disse que ela estava cansada e que não seria nenhum problema para mim, ela cedeu e deixou eu carregar.
- O que tem nesse pacote? - Ela me perguntou assim que coloquei sua mala no banco de trás e abri a porta do carro para ela.
- Deixe de ser curiosa.
- Isso não se faz Tina Wigg.
- Eu comprei um donuts caso você estivesse com fome. - Comentei após entrar no banco do motorista, fechando a porta e colocando o cinto.
- Realmente estou com um pouco. - Entreguei o pacote para ela assim que colocou o cinto de segurança.
- Fiz um jantar simples para nós lá em casa, se não for problema para você ir até lá...
- Nenhum problema. Minha irmã ainda está visitando minha mãe e deve retornar só na semana que vem.
- Okay, então. Vamos para a minha casa. - Olhei para ela e sorri antes de ligar o carro.
Assim que chegamos em minha casa, nos servi com o jantar e depois limpei a pouca coisa que sujou enquanto conversamos sobre alguma coisa.
- Tina, será que eu poderia tomar um banho?
- Claro, deixei algumas coisas separadas para você ali no banheiro. - Indiquei e ela foi até lá.
Nesse meio tempo, aproveitei para arrumar o quarto de hóspedes para ela. Levei sua mala e bolso até lá. Fiquei aguardando-a no sofá enquanto assistia televisão.
- Arrumei o outro quarto para você e levei suas coisas aí. Espero que não seja um problema. - Falei assim que ela apareceu na sala depois de eu ter escutado a porta do banheiro abrir.
- Claro que não. - Ela falou juntando-se a mim e tocou na minha perna.
Eu senti uma onda de "gay panic" invadindo o meu ser. Olhei para ela e nela tudo parecia normal por assim dizer. Eu prometi que iria devagar com ela e vou cumprir com a minha promessa. A gente ainda estava se conhecendo e precisamos de tempo para ajustar algumas coisas. Se eu fosse seguir os meus instintos, eu a teria beijado nesse momento. Eu tive um controle absurdo para não fazer isso. Ela merecia todo o respeito que eu tinha por ela e não seria justo logo agora eu colocar tudo a perder.
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Mais Que Verão
RomanceSerá que um amor do passado é capaz de renascer e esse romance ser vivido depois de alguns anos?
