Chapter 20 - επιλογές

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Narrador POV

"25 de novembro de 2020 - Palo Alto, Califórnia

'Estas alegrias violentas têm fins violentos; falecendo no triunfo, como fogo e pólvora que num beijo se consomem.
       — Romeu & Julieta, Ato II, Cena VI'

TIC-TAC... TIC-TAC... TIC-TAC...

O som do relógio adentrava os ouvidos de Camila de maneira contínua e levemente irritante. O ponteiro dos segundos girava com certa lentidão aos olhos da garota, passando por cada um dos números romanos presentes no círculo esbranquiçado. O silêncio que já durava cinco minutos foi interrompido pelo barulho do objeto antigo atrás do homem de quase meia-idade, e era justamente o que fazia com que a situação não ficasse, de alguma forma, constrangedora.

O homem vestia um pulôver de lã em um belo tom de azul-escuro, seguido de uma calça social bege e um par de sapatos lustrosos. Os óculos de grau escondiam os olhos verdes, assim como escondia várias e várias rugas em algumas regiões de seu rosto. Sentado na poltrona de couro preta a pouco mais de dois metros da que Camila utilizava naquele momento, se sentiu confortável em cruzar uma perna sobre a outra enquanto observava a adolescente ainda em silêncio.

Camila, por outro lado, tinha o olhar vago e direcionado para o relógio. Seu sobretudo de couro preto tampava quase toda a extensão de seu tórax, deixando somente uma parte de seu busto à vista. A saia lápis no mesmo tom escuro chegava até um palmo acima de seu joelho, o que fazia com que tivesse que ficar de pernas cruzadas quase cem por cento do tempo. Apesar de estar sentada em uma confortável poltrona de couro quase idêntica à que seu médico usava, seu nervosismo era notável, tanto pelo silêncio inusitado quanto pela forma na qual ela arranhava levemente o estofado do descanso de braço.

— Se sente bem, Camila? - Howard Pullistzer, o psicólogo da latina, questionou com cuidado após mais um minuto de silêncio no consultório.

O olhar de Camila não voltou ao doutor nem por um segundo após a pergunta, tampouco disse alguma palavra. Mesmo com um notável olhar vago, sua expressão era séria e igualmente dura. Parecia compenetrada em qualquer lugar que não fosse o corpo do homem que a analisava, portanto, não deixou de encarar o relógio antigo feito de carvalho. Howard suspirou baixinho ao começar a preencher a folha de análise comportamental presa na prancheta em seu colo.

— Tenho mentido para você há algum tempo. - A voz da capitã foi ouvida pela primeira vez naquela noite, estando rouca e baixa como se iniciasse uma confissão pavorosa. O homem coçou a barba rala e se endireitou na poltrona, continuando a escrever ao perceber que a garota mantinha o olhar longe de si. - E não acho que mentir tem me feito bem.

— Se queremos que isso funcione, preciso que você seja cem por cento sincera comigo. Não conseguirei te ajudar se você não me deixar conhecer o seu problema. - Continuou o doutor em seu tom ameno, parando de deslizar a caneta preta contra a folha e voltando a atenção para a adolescente.

—  Eu tenho passado por... problemas com autocontrole. - Confessou em um suspiro curto, aproveitando o momento para trocar a posição que se tornara desconfortável de uma hora para a outra.

— Quer dizer em relação à raiva? - Questionou enquanto empurrava os óculos para um pouco acima da ponta de seu nariz.

— Também. - O tom da capitã foi amplamente vago, abrindo uma brecha tão grande para o pensamento do doutor que fez com que o homem franzisse o cenho.

— Camila, olhe para mim. - Pediu com cautela e atenção, ganhando para si, pela primeira e única vez, o olhar da outra dentro do consultório. - Eu preciso que você seja certeira no que quer me dizer. Sei que está nervosa, consigo sentir a sua ansiedade de longe; entretanto, por favor, colabore comigo para que eu possa lhe ajudar da melhor maneira possível.

De repente, com o olhar focado em outra coisa que não fosse o objeto antigo que marcava as horas, Camila conseguiu ouvir o barulho da chuva novamente. Quase se assustou ao perceber que, apesar de estarem no décimo andar do prédio e o aquecedor na parede à esquerda fizesse um barulho baixinho e contínuo, o som da chuva torrencial era tão alto que a fez piscar os olhos com rapidez. Como um lembrete do 'detalhe' que tinha voltado a notar, um relâmpago enorme e igualmente claro cortou o céu do lado de fora da janela de vidro, brilhando contra os olhos castanhos da garota; sendo seguido do barulho do trovão terrivelmente alto.

[TRIGGER WARNING (alerta de gatilho): bulimia, potencial anorexia e distorção de imagem. Caso seja um assunto sensível para você, recomendo que pule esta parte da leitura.]

— Estou falhando em relação à minha condição corporal. - Camila disse ao tomar coragem suficiente para deixar as palavras saírem, tirando os olhos da chuva forte do lado de fora da janela e os colocando no homem que a observava com o olhar semicerrado.

Howard assentiu uma vez ao baixar o olhar para seu colo e folhear a pequena pilha de papéis presos em sua prancheta; procurando a última análise física da garota. Quando finalmente a encontrou, puxou o papel parcialmente rabiscado e observou os números contidos ali. Ao perceber o que o homem fazia, a cubana suspirou mais forte enquanto iniciava uma batida baixa e nervosa com seu pé por cima do tapete branco felpudo.

— Da última vez que pesamos, você estava com exatos trinta e oito quilos. - O doutor leu o número em voz alta, logo voltando seu olhar para a garota que assentiu ao que foi dito. - Se incomoda em pesarmos de novo?

Camila travou a mandíbula enquanto tomava a iniciativa de se levantar da poltrona. Sabia que precisaria retirar o sobretudo de couro para que o peso da peça não alterasse no resultado da balança, portanto, de uma maneira lenta e dolorosa, afrouxou o nó lateral com a mão direita; retirando a peça de seu corpo logo em seguida e deixando-a na cabeceira da poltrona. A camisa preta de mangas longas e gola alta não deixava que o médico observasse qualquer sinal de uma possível perda de peso da outra, o que fez com que ele se aproximasse mais rápido para observá-la pesar na balança ao lado da porta do banheiro.

— Pode subir. - Instruiu o homem ao posicionar a caneta preta no quadrado em que estaria o novo peso da latina em uma nova folha de análise física; não deixando de observar a cena próxima a si. Ao ter o corpo da capitã completamente imóvel em cima do vidro temperado da balança, um novo número piscou em um branco brilhante. - Trinta e dois e meio.

A latina pareceu murchar quando ouviu o número dito pelo homem, conseguindo verificar a veracidade da informação ao olhar para a tela abaixo de seus pés. Engoliu em seco enquanto negava quase que imperceptivelmente com a cabeça, descendo do objeto nem um segundo depois. Precisou de alguns segundos em silêncio quando ambos tomaram seus lugares iniciais; raciocinando consigo mesma sobre o que tinha visto e se tinha sido uma boa ideia ter marcado uma consulta extra.

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