Epilogue - Bishop

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Acontece mais rápido do que posso calcular mentalmente.

Lá embaixo, quilômetros e mais quilômetros sob as nuvens e as dimensões de tempo-espaço, Lauren ria de alguma coisa que Camila dissera há pouco. Pareciam tranquilas, aproveitando o sol da primavera para nadarem na piscina enorme da nova mansão da neojersiana. Agora, entretanto, descansavam nas espreguiçadeiras que arrastaram para estar lado a lado.

O arco e flecha havia sido roubado de mim não muito tempo atrás, e, internamente, eu sabia que esse momento chegaria. Não o roubo de Eros, não, mas sim a chegada iminente daquele que planejou tudo aquilo. Demorou uma piscada de olhos, talvez menos que isso, porém, um único segundo no futuro, sinto o ar atrás de mim ser sugado por uma energia tão espessa que faz com que meu corpo queime de dentro para fora.

A fenda do espaço temporal é rasgada tão fortemente que, naquele único segundo — talvez milésimo, não faço a menor ideia —, penso que morreria por somente respirar, ainda que eu fosse um deus. Não precisei virar para trás, entretanto, já que eu conhecia muito bem aquela energia.

Ele veio reivindicar o que era dele por direito, acredito eu. Caos.

— Apolo! - O ouço saudar atrás de mim, a voz no mesmo tom entre a neutralidade e a imponência. - Meu filho favorito!

Escondo um sorrisinho cínico, uma vez que sei que, para um deus primordial como ele, não passo de um mero bispo em um tabuleiro de xadrez. Sou útil e rápido; sempre posicionado nos lugares certos para atacar ou defender quem preciso; insuportavelmente chato para quem quer que estivesse jogando contra; aquele que mais tem jogadas ensaiadas para obter xeque-mates... porém, ao mesmo tempo, uma peça que pode ser facilmente usada como um sacrifício.

Eros não estava errado no que dissera, mesmo que ele fosse sujo por sua linhagem.

Me viro lentamente, encarando a figura que, em vez de estar transparecido pela falsa aparência humana e meio-andrógina, agora não passava de um amontoado de poeira e cubículos de átomos luminosos que não poderiam ser compreensíveis aos olhos humanos. Sem obter uma forma, a mensagem era clara: ele não ficaria ali por muito tempo.

— Senhor. - Me curvo, devota e educadamente. - No que posso lhe ser útil?

— Não há necessidade da sua participação, dessa vez. - Ele avisa, os pontos confusos de luminosidade indo e voltando entre, provavelmente, a quarta ou quinta dimensão. - Está completo.

— O quê? Usar Lauren como "bode expiatório"? - Pergunto, levemente confuso.

— Sim. - Caos diz, a voz neutra mais parecendo um sussurro jogado a um abismo escuro. - O sangue e alma dela estão maculados, então, agora, consigo obter a energia dos Originais. Posso mapeá-lo e alcançá-lo.

Zagonis. Ele falava de Zagonis.

Eu balanço a cabeça em concordância, sem saber o que dizer ou fazer agora. Passei um tempo considerável nessa tarefa, mas, agora que a vejo concluída, não sei como agir ou o que pensar. É como estar em um tipo de piloto automático que, quando passa, você precisa de ajuda para voltar ao controle manual do veículo em questão. Então, em vez de dizer algo, eu encaro o amontoado de poeira, fumaça, luzes esquisitas e pulsação interdimensional.

Farei uma célebre visita ao meu tão estimado irmão. Chegou a hora de fazê-lo voltar ao lugar de onde nunca deveria ter saído: o abismo do esquecimento. - Caos continua seu discurso, um pingo de algum sentimento ligado à raiva em algumas das palavras. - E, finalmente, aquela raça pútrida de Originais vai desaparecer das minhas terras e criações.

É tudo o que ele diz. Simples, direto, claro e extremamente convencido.

Não tenho tempo para responder nada, porque, na próxima piscada, a pulsação e a poeira chacoalham por um milésimo de segundo antes de desaparecer na escuridão abissal que me cerca. A energia, antes demarcada pelo peso massivo, agora se torna a mesma de sempre, demonstrando que eu estava sozinho novamente.

Eu sabia o que significava. E temia pelo que se seguiria.

Caos e Zagonis batalhariam pelo domínio de tudo o que existe — seja vivo ou não. Em um reino, só há espaço para um rei, não dois. O que ganhasse, merecidamente, ficaria com tudo; o que perdesse, entretanto, seria absorvido pelo limbo até que estivesse acorrentado nas profundezas do Tártaro, dimensões e mais dimensões abaixo do que estamos.

Demora alguns segundos, depois que eu me sento sobre o amontoado de condensações e gases interdimensionais, para que eu consiga ouvir o sinal que, por alguns milênios, todo o Olimpo temeu incansavelmente. Sinto tudo ao meu redor tremer violentamente, o som soando por todos os cantos que se podia estar ou ouvir.

É grave, arrepiante, denso e objetivo. A trombeta — que nada mais é que o chifre de um animal que deixou de existir há centenas de milênios —, soa com força, estremecendo todo o vasto espaço em que estamos. Engulo em seco, as lágrimas inconscientes brotando nas pálpebras inferiores enquanto ouço a vibração grosseira, quase como se o pânico ameaçasse tomar conta do meu corpo.

Não havia como voltar atrás agora, já que, pelo toque único e exclusivo do chifre de Mordrak Titanis, todo o Olimpo sabia o que estava acontecendo, incluindo o alto escalão. A multidão acima de mim, ao longe, dentro da estrutura imensa em arquitetura grega antiquada, está tão agitada que faz com que a tremedeira — somada ao som esmagador que ainda soava — somente piore e aumente.

Tudo o que existe está prestes a ser leiloado. Par ou ímpar?

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