Capítulo 2-Cervejas e Luz Verde

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... a suposta Gangue atacou no começo da madrugada do dia 25, não levando nada, apenas perseguindo a jovem de 19 anos que saia da faculdade. Ela diz ter visto todos mascarados, com fantasias macabras de Halloween...

        Ouço ao longe enquanto limpo mais uma mesa do HB. Mais um ataque. Essa história de pregar peças no mês das bruxas estava passando dos limites. Empilho os copos sobre minha bandeja, e enfio o pano sujo de cerveja e gordura no bolso da frente do avental. O bar estava cheio, devido as festividades, ou ao fato de ser sexta. Ou os dois. 
   Depois meses morando e trabalhando aqui, não era difícil conhecer todo mundo. Tinha apenas uma mesa vaga de 10 espalhadas pelo grande salão onde ficava o bar e cada uma das mesas tinham pelo menos 3 pessoas. Eu conhecia todos.
   Sigo para a cozinha, cumprimentando um ou outro que chamavam minha atenção e anotando novos pedidos. Antes de entrar, fico na ponta do dos pés e dou uma  olhada rápida no vidro arredondado da porta. Meus cabelos loiros estavam em um coque totalmente desfeito, minha franja não passando de um emaranhado de fios.
    Assim que entro na cozinha, tenho que desviar de Josh, que vem com outra bandeja em minha direção.

— Desculpa Candy... Hoje está uma loucura — ele diz com um sorriso tímido enquanto equilibra a bandeja que quase foi ao chão com a parada abrupta e usa as costas para empurra a porta, voltando para o bar com os óculos quase escorregando pelo seu nariz.

  Josh era um cara legal, tinha minha idade, e assim que cheguei aqui foi muito gentil em me ensinar tudo oque eu precisaria para trabalhar. Sempre que tinha prova, ele cobria meu turno sem reclamar. Era um bom amigo.
      Deposito minha bandeja cheia de copos e garrafas vazias na mesa, e começo a separar oque iria para a lava- louças e o que iria para o depósito.
    Aproveito para lavar meu pano sujo que estava no avental e limpar a bandeja.
    Um click  soa ao meu lado, e me viro na direção da porta dos fundos. John entra segurando algumas sacolas de compras. Alguns o chamam de Big Bear, e parando para observar a forma desajeitada que ele passa pela porta devido ao seu tamanho, fazia sentido. Sua barba longa e marrom faz parte de toda a estética Bear. Sorrio em cumprimento.
   
Está uma friaca la fora Candy, espero que tenha trazido seu casaco — ele coloca as compras sobre a mesa.
    Na verdade não. Eu não tinha trazido blusa. Mas eu não me importava. Sentir o ar frio me envolvendo, enchendo meus pulmões, me faziam lembra de que eu estava viva. E livre. Sorrio para ele. A preocupação dele era uma coisa muito bem vinda pois era uma coisa que só pude experimentar aqui em Hunter's Valley com Louis, Hannah, Josh e John.

— Não trouxe... Mas Louis virá me buscar, e ele sempre trás— sorrio e dou uma piscada. Guardo o pano no bolso do avental novamente. John bufa.

— Sempre abusando da bondade do querido Louis— ele balança a cabeça de um lado para outro de forma negativa, seu bigode subindo levemente com o bico dramático como se de fato fosse uma situação triste onde sou abusiva com um querido inocente. Mostro a língua fazendo uma careta, e ele devolve o gesto, saindo batendo o pé para fora da cozinha, ainda com um sorriso no rosto.

A última mesa

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A última mesa. Só mais uma. Repito para mim mesma como um mantra. Apenas mais uma.

Meus olhos pesavam com o cansaço, já se passava das 01h quando finalmente o último cliente pagou e saiu cambaleando. O bar estava uma loucura, garrafas jogadas, poças de cerveja, copos para todo lado. Não quero comentar sobre os banheiros. Faltava apenas uma mesa e depois poderia ir para casa.
           Empilhando os últimos copos na bandeja, dou uma olhada pelo salão, e suspiro aliviada. Enfio o pano no bolso e sigo para deixar a bandeja na cozinha e seguir para pegar minhas coisas no meu armário. Eu estava sozinha, pois lá para as 22h, Josh foi para casa e John ficou por mais uma hora, e após quase dormir sobre o balcão. Eu o despachei para casa também. Não é como se eu não tivesse ficado sozinha aqui antes. É tranquilo e silêncio, e me dava a liberdade para cantar qualquer música brega da Jukebox sem nenhum julgamento.
    Após lavar os copos sujos, seco minhas mãos e sigo para meu armário, pendurando meu avental sujo e surrado no gancho ao lado da porta dos fundos. Pego minha mochila e pesando uma tonelada por conta dos livros e cadernos da faculdade e começo a caça ao meu telefone.
    Assim que pego, vejo uma notificação. Desbloqueio e abro a mensagem. É Louis.

       Oi docinho, sei que fiquei de te buscar hoje, mas sabe como são as coisas na delegacia. Muita papelada. Desculpas, amo você, avise quando chegar em casa.

     Digito uma resposta rápida. Enviada, não lida. Tudo bem. Louis estava na academia de polícia, seu pai era o xerife de Hunter's valley a pelo menos 15 anos, e seguir a vida de polícial sempre foi um sonho para ele. Seu pai tinha colocado ele para avaliar alguns pequenos casos para ele conseguir se adaptar o quanto antes a profissão, oque prendia ele até tarde na delegacia com mais frequência do que eu gostaria. Mas ainda assim, eu o apoio, pois ele me apoia. E é só uma fase, até que ele se forme daqui a alguns meses. Guardo meu celular no bolso da calça jeans e solto meus cabelos, ajeitando para que fiquem menos desgrenhados. Jogo a bolsa sobre a bancada da cozinha e pego a chave pendurada ao lado da porta dos fundos e sigo para o salão principal para trancar as portas e janelas.

    Em poucos minutos está tudo devidamente trancado mas ainda assim decido conferir antes de voltar a cozinha. Quando chego a porta principal, ouço um baque alto o suficiente para me fazer saltar. Me viro rapidamente a tempo de ver uma movimentação. Como uma iluminação. Talves seja apenas algo que deixei na beira e acabou caindo. Mas e a luz? Talvez um carro tenha passado com os farois altos na lateral do bar e iluminado. Mas carros não tem lanternas verdes.  Talvez seja John, voltando para verificar se estou bem. Suspiro.

—John? É você? Se for, por favor, não me assuste assim, lembra oque aconteceu da última vez!— digo em tom de brincadeira, mesmo com o coração martelando em meus ouvidos, lembrando da peça que ele e Josh pregaram em mim, me assustando tanto que joguei uma bandeja cheia de garrafas em suas cabeças. Nada. Nenhuma resposta.

Caminho lentamente retirando o lentamente o molho de chaves do bolso traseiro da calça e posiciono as chaves entre os dedos, como um soco inglês improvisado. Um passo após outro vou me aproximando da cozinha. Com meu coração acelerado tomo coragem de espreitar pelo canto da porta. Nada. Somente minha mochila caída no chão. Droga. Devo ter jogado de qualquer jeito em cima da bancada e devido ao peso, caiu. Suspiro aliviada, e engancho a chave no cós do meu Jeans. Com as pernas  moles como gelatinas, abaixo pego minha mochila. Maldita garotinha medrosa.
Sorrio. Já havia enfrentado coisas piores.
A vida tranquila de Hunter's claramente me amoleceu.
      Apago as luzes e sigo para a porta. Pego a chave  e encaixo na fechadura e antes que eu gire, a porta abre. Sozinha. Franzo a testa. John nunca deixa a porta dos fundos aberta, pois sempre tem um bêbado querendo dar uma de espertinho, dando a volta para chegar a cozinha e pegar algumas biritas de cortesia. Coloco a cabeça para fora e olho ambos os lados do beco escuro. Vazio. Bom, o cansaço está me pregando peças.
Apago as luzes e saio completamente para o beco no fundo do bar e tranco a porta. John estava tão cansado que duvido que até mesmo a porta da própria casa ele tenha fechado. Pensar que John sempre dorme na poltrona da sala de estar, e que qualquer um que passar em frente ao seu apartamento, verá a cena do Big Bear dormindo aninhado com sua gata de estimação madame liona me faz sorrir novamente.

   
 

Candy Ou TravessurasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora