Capítulo 4- Stalker

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—O que você acha? Laranja combina com Roxo?— Hannah pergunta, segurando um par de botas cano altíssimo com brilhos em tons de roxo, em cima do vestido tubinho laranja, que ela pretendia usar na festa do Cody amanhã a noite.
     
Hum... Sim, é... Combina sim— digo mastigando meu hambúrguer.

Ela se vira para o espelho do provador novamente e se encara no reflexo. Ela faz um biquinho de lado. Seu olhar encontra o meu através do reflexo e ela suspira.

—Ei, e o Louis? Pensei que viria te ajudar na escolha da sua fantasia.— paro de mastigar meu lanche.
   Droga. Ainda não tinha dito que não iria a festa.

Engulo com dificuldade. Pigarreando para limpar a garganta, começo me ajeitando e deixando o final do lanche na mesinha ao lado.

—Sabe, o Louis foi em casa ontem. E me chamou para sairmos... — Digo gesticulando. Eu odiava desmarcar as coisas. Principalmente com Hannah. Ela ergueu uma sobrancelha.

— Olha só! estava na hora. Pensei que o relacionamento de você se resumiria em ele ir até sua casa, fazer o lanchinho noturno e ir embora— ela disse debochadamente atirando as botas e o vestido na poltrona vazia do outro lado da sala de provador. Hannah e eu tínhamos esse tipo de amizade. Ela sabia até demais sobre meu relacionamento com Louis, até destes detalhes.
A realidade é que eu nunca tive um namorado, e por esse motivo ficava muito perdida no início, e Hannah sempre me ajudou. Como por exemplo, a escolher o que vestir no primeiro encontro, ou quando fui conhecer os pais dele. Ou oque dar de presente no primeiro ano de namoro. Ou me dando esporros ultimamente sobre como é errado ele vir até meu apartamento apenas para me comer.
Ela era uma boa amiga. Mesmo com sua sinceridade dolorida.

— Ei... Não é lanchinho noturno—Digo cruzando os braços e me jogando para trás, caindo no encosto da poltrona.— Só... Tem sido cansativo para ele o trabalho. Temos que ser rápidos para ele conseguir voltar a tempo.— sorrio triunfante com minha resposta de defesa. Ela bufa, pegando outro vestido pendurado na arara de roupas.

Oh, sim! Super compreensível os 5 minutos de esforço dele uma vez por semana para te ver.— Ela enfatiza a palavra "esforço" fazendo um movimento obsceno com as mãos em frente aos quadris. Reviro os olhos. E realmente era pouco. Nos viamos ao máximo 3 vezes na semana e era algo sempre breve. Sentia falta dele, mas entendia que era apenas uma fase e quando ele se formasse, as coisas voltariam ao normal.
O que me fez lembrar, que mudamos de assunto e eu ainda não contei sobre não ir a festa amanhã. Solto o ar. É agora.

—Enfim... Louis me chamou para Ir ao Drive-in...— digo puxando meu casaco para meu colo, como um escudo. Ela gira em seus tornozelos e me encara com os olhos cerrados. Engulo em seco, segurando o riso. Ela gesticula com a mão em circulo, um sinal para eu contar logo. Encolho as pernas e fico em forma de bola na poltrona e protejo meu corpo com a muralha improvisada com minha jaqueta deixando apenas minha cabeça exposta.

— ...Amanhã a noite!— Falo rápido e cubro a cabeça me preparando para o furacão Hannah.

— Ah, sua loirinha traiçoeira— ouço o tilintar do cabide caindo no chão, em um segundo sinto sua mão envolver a jaqueta e retirar-la. Explodo em uma risada enquanto cubro meu rosto com as mãos imaginado que ela vá tentar me estrangular ou algo do tipo, como todas as outras vezes. Mas encaro seu rosto verdadeiramente triste. Lentamente me recompondo enquanto ela da a volta e vai até o amontuado de roupas que deixou cair.

—D-Desculpa, eu não consegui negar na hora, fiquei tão feliz com a sugestão de passarmos mais tempo juntos, que nem me dei conta. Hanny— Uso seu apelido para tentar amenizar as coisas e esfrego as mãos uma na outra, tentando não sentir vergonha de mim mesma. Mesmo que eu não esteja em êxtase para a festa, era importante para ela. E ela tem sido tão boa comigo, mesmo quando Louis se ausentava, era ela quem estava comigo me distraindo e não me deixando sozinha. Mas se eu não aproveitar agora e passar mais algum tempo com Louis, ele vai se atolar em trabalho por mais uma semana e não sei quando teremos essa oportunidade novamente. Hannah bufa e me encara mais uma vez pelo espelho.

—Prometo que podemos marcar algo... Sábado? Oque acha?— Digo constrangida. Ela só concorda com a cabeça e volta para a arara caçando outras peças, me ignorando.

    Olho para a janela que pega toda a lateral da cabine, com um revestimento plástico escuro que impede que as pessoas que passem na calçada ao lado de fora nos veja. Cruzo as pernas e continuo comendo meu lanche que deixei na pequena mesinha ao lado da poltrona. Me sinto uma péssima amiga, deixando ela de lado por um relacionamento. Mas não é como se ela fosse sentir minha falta lá. Hannah tinha muitas amigas do Campus, tinha seus meninos, dos quais ela sempre fugia para um quartos durante as festas. Eu ficaria sozinha a maior parte da noite, sentada num sofá sujo de cerveja espremida entre casais se pegando.

— Mas que porra...— ergo a cabeça para encarar Hannah praguejando. Ela estava olhando para o lado de fora. Acompanho seu olhar até encontrar um carro estilo executivo, parado do outro lado da rua, com o vidro do motorista aberto revelando um homem engravatado falando ao que parece ser um Oktok e segurando um binóculo pequeno. Olhando em direção a loja. Em nossa direção.

Meu coração afunda. Largo o lanche, mochila e jaqueta e corro até às cortinas, fechando-as rapidamente. Àqueles binóculos, vêem através desse tipo de vidro.

Corro até minha mochila e começo a procurar meu celular.

— Candice? Que merda é essa? Você sabe quem é?— ela diz enquanto pula numa perna só, se equilibrando para colocar sua calça.

Merda. merda. merda. Cadê a porra do celular?

Candice! Você sabe quem é?— ela espia entre a cortina. Posso ouvir em sua voz o desespero.

— Claro que não!... Deve ser um tarado qualquer!— pesco o telefone e disco o número do xerife, que atende após 2 toques.

— Olá, Candy, está tudo bem?— ouço um fundo de preocupação.

— Oi Carl, na verdade não...

— Verificamos que o carro não era da cidade... Na verdade é de uma cidade vizinha — O xerife verificava sua prancheta com vários papéis com todas informações que conseguiu puxar sobre o carro.

Quando a viatura chegou a alguns minutos atrás, não tinha carro algum do outro lado da rua. Nem em qualquer outra rua de Hunter's Valley.

Candy, fique tranquila, se esse safado aparecer novamente, nós o pegaremos — Ele diz apoiando a mão em meu ombro. Olho para Hannah sentada dentro da viatura, conversando com uma polícial. Minha preocupação não era eu. Era ela. Ela não merecia pagar pelo que eu fiz. Respiro fundo e abro um sorriso para o Xerife.

—Obrigada Carl. Isso realmente foi estressante.—  massageio as têmporas. Ele assente com a cabeça e se vira em direção a sua viatura.

— Ei, e como está Louis?— pergunto.

Ele se vira calmante.

— Com papeladas até o pescoço — ele sorri dando de ombros. Certo, papeladas demais para vir ajudar sua namorada com um stalker.

Hannah desce da viatura e logo eles saem. Ela vem até meu lado e me envolve com um meio abraço enquanto vemos a viatura dobrar a esquina. Acaricio sua mão apoiada em mim.

—Garota, nada de faculdade por hoje — Ela faz uma cara de pesar e eu só consigo sorrir em meio a este caos. Tudo por uma falta justificada. Naquele momento, com Hannah me abraçando lateralmente, volto minha atenção ao outro lado da rua. Onde o parque Doe se extendia. E aquela sensação de perseguição e observação, volta. Não havia passado. Algo estava lá. Estava a minha procura. E eu não seria a presa novamente. Eu não posso mais me abster de decisões. Não posso mais simplesmente deixar de lado. O passado estavam literalmente a minha porta, ameaçando meus amigos, não tinha mais como fingir que não estava acontecendo. Eu sempre soube que isso iria acontecer, só não sabia que seria tão rápido.
Acaricio a mão da minha amiga apoiada em meu quadril enquanto eu pensava no meu próximo passo. Caçar ou ser caçada.

Candy Ou TravessurasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora