Capítulo 3- Lanche noturno

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A noite estava agradável. Mesmo com as ruas vazias, era tranquilo. A maioria das vezes.
Olho para os dois lado do beco na lateral do bar. Nenhum sinal de que alguém tenha passado por aqui. Talvez John tivesse realmente esquecido de trancar a porta e só era algum bêbado de passagem.
   Do HB para casa eram poucos minutos pegando a Estrada Leste, uma caminhada em linha reta que dava para a lateral do Parque da Boe, onde poderia ver a tranquilidade noturna em meio a todo aquele verde do bosque. Verde. Verde como a luz que vi no bar. Franzo as sobrancelhas. Oque diabos era aquela luz? Talvez o reflexo de algo. Ou minha cabeça enfim enlouquecendo após tantos anos. E porque isso mexeu tanto comigo? Talvez seja o medo iminente de ser encontrada. Todo cuidado é pouco quando se trata daquelas pessoas.

O vento soprava meus cabelos e dispersava o suor acumulado da noite movimentada. O parque ao meu lado era silencioso, assim como a rua, e os comércios já fechados. Tudo muito tranquilo. Ainda assim eu estava incomodada. Tinha algo errado. Alguma coisa dentro de mim, acostumada com o caos, me avisava que algo se espreitava. Me observava.
Olho por cima do ombro despretensiosamente, como se fosse  remover uma mecha de cabelo do rosto. Nada. A rua permanência vazia. Eu devo estar cansada e imaginando coisas e para ajudar esse meu instinto de sobrevivência deve ter enferrujado.
      Aperto o passo para chegar o quanto antes em casa. Eu só preciso de um banho. Amanhã tenho tantas tarefas: universidade, compras com a Hannah, trabalho. Eu preciso de férias. Daquelas bem longas e bem longe, em um lugar quente e afastado. Uma ilha talvez. Somente eu e Louis. Sorrio com a cena. Sem falar que estou mais branca que o habitual, pareço não tomar sol a meses. Estou com uma forte vontade de me fantasiar de fantasma para a festa de Cody.
Viro a  direita e faltam apenas mais alguns quarteirões cortando pela Central River até em casa. Quando cheguei aqui, achei num anúncio de jornal uma casa para alugar no  Beco 9 em Rabbit Hole, meu bairro atualmente. O nome real era East Woods e era uma das ruas principais de Hunter's Valley, até o incêndio do Hotel The Mountain, que devastou um quarteirão inteiro e foi inviável a reconstrução. Então, virou um local abandonado e todos os preços dos apartamentos na região, diminuíram, abrigando assim as famílias de baixa renda. Como eu. Que cheguei apenas com uma mochila e uma imensurável bagagem de merdas do passado. Aquele beco vazio, com aquele minúsculo quarto, e apenas alguns poucos móveis, era minha casa, minha única conquista com meus 19 anos. Uma bela conquista. Sorrio.

  Passo por um beco e pela visão periférica vejo algode relance. Verde. Porra.
A maldita luz verde. Paro abruptamente, travando no lugar, meu coração martelando em meus ouvidos. Estou sendo seguida? Filho de uma p...

De fato eu não estava louca. Tem realmente alguém me perseguindo descaradamente. Dou a meia volta, encaro a completa escuridão esticando o pescoço para ver a luz, se afastando aos poucos, indo mais e mais fundo na esquina a direita, dentro do beco onde ele se dividia para um outro corredor.

Não vá até lá. Não seja assim tão burra. Siga para casa. Você não é mais assim Candice. Vida nova, Candice nova. Debato comigo mesma.

Me seguro com tudo de mim tentando ao máximo não ser imprudente. Meus dedos dos pés se contorcem com a curiosidade. Porque? Porque eu não posso simplesmente ser uma garota medrosa e sair correndo para casa? Argh... E o que mais eu faria? Contaria a Louis? Sim, ele era policial. Ou quase isso. Mas não podia colocar ele em perigo. E para contar que estou sendo perseguida, preciso explicar por quem, e para explicar quem era, tenho que falar porque. Oque leva ao meu passado. Do qual não quero que ele saiba. O que me trás exatamente a esse ponto. Contar e perder o meu namorado ou encarar e eliminar a ameaça sozinha? Nunca precisei de alguém resolvendo meus problemas e não vai ser agora que eu vou precisar.
Meu corpo se impulsiona para frente, como uma luta contra minha razão, que travava os pés no chão me impedindo de me mover. Ir até lá poderia botar tudo isso em risco. Toda essa vida que eu construí, pode acabar. Isso pode terminar comigo deitada ensanguentada em um beco sujo. A luz oscila bruscamente. Está fugindo.
Minha parte racional ainda está gritando como um maldito alarme na minha cabeça, quando agilmente puxo as fivelas da minha mochila para que ela se prenda mais ao meu corpo e me dê mais estabilidade. Amarro rapidamente meu cabelo e tiro da lateral interna do meu sutiã uma pequena lâmina de 10cm. Pequena, prática e letal. Lentamente como a própria morte, entro na escuridão do beco, ficando atenta as janelas sujas de poeira nas laterais e nos telhados. A luz vai ficando mais fraca a cada passo. O vento sopra frio em minhas costas, resfriando as gotículas de suor que se acumulam por todo meu corpo. Faço uma pausa segurando a respiração. Uma. Duas. Três batidas de coração. E nada, puro silêncio.
Quem quer que seja, era bom, não emite som nenhum enquanto se move. Como se não existisse de fato, como um maldito fantasma saído do passado para me assombrar. Volto a andar, lentamente empunho minha pequena adaga, pronta para oque quer que me encontre depois daquela esquina. E quando eu encontrar? Farei oque? Seja morta, mas não capturada. Meu consciente grita. Prefiro a morte a voltar para lá. Mas também não estou muito a fim de morrer.
Quando estou a apenas dois metros, a luz tremeluziu, como se estivesse se movendo absurdamente rápido e então some. A luz apagou. Mas que porr... Oque era isso?
    Disparo em uma corrida até o início do corredor, na esperança de não deixar escapar. Me encostou na parede, com os ouvidos zunindo e espio para dentro do corredor.Nada. Apenas a luz fraca do luar iluminando varias caixas de madeira deixadas empilhadas pelos feirantes essa manhã.
Olho para trás, na entrada do beco,e para frente, onde fica a saída. Ninguém. Apenas a luz do poste à minha frente, piscando enlouquecidamente. Então dobro a esquina e começo a verificar com cautela.
      Nada atrás das caixas, nada caído no chão. Quem passou por aqui, não deixou rastro nenhum. Mas as caixas... Elas estavam empilhadas formando uma escada até o telhado. Já estava bem longe daqui. Se foi loucura da minha cabeça, eu estou louca pra caralho.
Como pode ter sido alguém? Não ouvi barulho algum, nem mesmo o rangido da madeira com o peso da pessoa subindo nas caixas. Merda.

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