Capítulo 5- Rota de fuga e Sorvete de Menta

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Depois do episódio de ontem, o dia se arrastou.

  Poucos minutos após a saída de Carl da loja de roupas, uma mensagem de texto de John me dispensando do meu serviço hoje chegou ao meu telefone. Carl deve ter passado no HB avisando sobre o ocorrido. Então, relutantemente, me despedi de Hannah, que decidiu passar a noite na casa de sua mãe por segurança e fui para casa. Ela tentou me convencer a ir, mas eu precisava ficar sozinha. E não podia arriscar levar quem quer que esteja me seguindo, diretamente a casa da mãe de Hannah. Isso só colocaria mais pessoas na minha lista de "Pessoas que podem morrer por minha causa".
Olhando em minhas costas a cada esquina que virava ou cada carro suspeito que parava no semáforo, vou em direção ao beco 9.
Como diabos poderiam ter me achado? Eu escondi todos os meus rastros. Nada de documento. Nada de cartões de crédito em meu nome. Nada de usar meu sobrenome. Nada. Eu era um fantasma.
    Ou eu achava que era.
Após chegar em casa, passei o restante da tarde pensando onde eu errei. O que deixei para trás para conseguirem me encontrar.
Porque para uma pessoa normal, era apenas a infeliz coincidência de encontrar com um tarado em plena luz do dia de uma quinta-feira. Mas para uma pessoa com o histórico que eu tinha, não poderia ser uma coincidência. Ou poderia?
  Quando a noite caiu e o pote de sorvete de menta já tinha acabado junto com todas as minhas ideias, cheguei a conclusão que se fosse ele, eu já estaria morta. Hannah estaria morta. E John. E Louis. A cidade estaria em chamas e a maldita montanha teria sido demolida. Então eu estava salva por enquanto. Salva por mais alguns meses, até ter de fugir em uma madrugada para não botar aqueles que amo em perigo.
   Então peguei no sono pensando qual seria minha rota de fuga quando me encontrassem. Pegar minha mochila de emergência embaixo da cama. Deixar celular e computador para trás. Incendiar o prédio. Roubar uma moto. Fugir.
Um sono profundo e perturbado me venceu. Com fogo, sangue e facas. Flash's de luz verde. E corpos. Quando acordei com o cantar dos pássaros, minutos antes de o sol de fato aparecer, eu estava grudenta de suor, mas que em meu estupor o suor era vermelho, pegajoso e com cheiro de ferro. Corri para o banheiro e passei as últimas horas esfregando cada centímetro de pele até me sentir limpa. Teria como lavar lembranças? Pois se essa possibilidade existisse, eu iria esfregar meu maldito cérebro até sumir toda aquela noite. Toda a minha vida antes de Hunter's Valley. Largo a esponja no chão e me ajoelho deixando a água fria cair em minhas costas. Olho para a poça de água que se acumula no chão e vejo meu reflexo turvo. Cansada e apavorada. Como a pequena Candice. A antiga. Eu sobrevivi, e continuaria sobrevivendo. Eu não lutei pela liberdade para me lamentar em um chuveiro. Desligo a água e me embrulho em minha toalha. Vou até meu quarto e abro as portas do guarda roupa. Eu tenho um encontro hoje. Com um homem que me ama. O passado não vai voltar para me assombrar, e se voltar farei o mesmo que fiz naquela noite a 2 anos.

 O passado não vai voltar para me assombrar, e se voltar farei o mesmo que fiz naquela noite a 2 anos

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  Checo o horário mais uma vez. O filme começaria em 1 hora. Pego meu telefone. Nenhuma mensagem de Louis. Nem visualizada as que enviei durante o dia.
   Após sair do banho, escolhi minha roupa, uma calça jeans básica e uma regata azul claro que ganhei de presente dele em um dos nossos passeios. Passei as próximas horas escovando meu cabelo para deixar com as ondas que ele tanto gostava, ajeitei a minha franja para ficar perfeitamente alinhada e passei uma leve maquiagem. Quando enfim estava pronta, pude ver o reflexo da nova eu no espelho. Bochechas rosadas, curvas mais acentuadas, meu cabelo com um tom de dourado brilhante. Estava mais bonita do que nunca. Longe de toda fome e maus tratos, eu era bonita. Impressionante o que um pouco de sol e uma boa alimentação podem fazer. Sorrio.
  Vou até a caixinha de madeira em cima da cômoda. A última coisa que tinha do meu pai, uma caixa de madeira entalhada por ele mesmo e dada de presente para minha mãe quando ainda estava grávida de mim. Acaricio o entalhe na parte de cima. Minhas iniciais. Destampo a caixa e retiro a delicada corrente de ouro com um ponto de luz. O presente de um ano que ganhei de Louis. Coloco em volta de meu pescoço e pego novamente o celular. Nada.
Vou até a janela que dá para o beco na lateral de meu apartamento. Vazio. Ele deve ter esquecido. Ou estava a caminho.
  Suspiro. Mesmo após ter sido assediada por um stalker, não recebi uma ligação ou mensagem. Mesmo que ele saiba por seu pai que estava tudo sobre controle e eu não corria nenhum perigo, imaginei que ele viria. Nem que seja para me dar um abraço e demonstrar que se importa.
Meu olhar se perde olhando os carros passando em frente ao prédio. Um após o outro. Após alguns minutos as luzes dos postes se acenderam, estava escurecendo. Verifico o horário novamente. O filme já havia começado.
Encosto a cabeça no vidro da janela. Suspiro e  sorrio fraco. Enfrentar uma gangue e trocar tiros com gente da pesada não era tão difícil quanto um relacionamento é. Meu olhar abaixa para meu braço exposto e vejo a cicatriz agora rosada, quase imperceptível. E com certeza, um corte com uma faca de caça dói menos que o abandono. Porque quando você sempre foi solitária, não faz falta ter o afeto de alguém, mas depois que você experimenta uma dose de amor se torna impossível viver sem. Não sentimos falta do que não conhecemos.
Olho para a janela de frente a minha. O antigo prédio abandonado. Quantas pessoas não tiveram naquela noite de horror, sua última dose de amor? Era isso que eu queria. Morrer sendo lembrada, sendo amada por alguém. Não morrer sozinha.
A moldura da janela branca, chamuscada pelo fogo, os tijolos revestidos de musgo e vidros quebrados.
Mas no beiral... Um canteiro de flores brancas. O vaso estava queimado e ainda com manchas pretas, mas as flores...Vivas. Franzo o cenho. Destranco e abro a janela e o vento noturno sopra em meu rosto. Me debruço para fora a fim de ver melhor... Esse prédio estava abandonado e lacrado a muitos anos, mesmo antes de eu chegar a cidade. E estas flores, estavam mortas. Ou pelo menos estavam até umas semanas atrás. Alguém...
Meu telefone vibra. Pela notificação consigo ler.

    Hey querida, sinto muito não ter mandado uma mensagem antes. Aconteceu mais um caso de perturbação com alguns malucos mascarados. Eu sinto muito, não consigo sair a tempo de irmos ao drive-in. Espero que entenda. Prometo recompensar mais tarde.

   Meu sangue ferve. Fecho os olhos com força. Minha pulsação batendo forte em meus ouvidos. Abandono. Sozinha. Sozinha. Sozinha de novo.
Por um segundo quase arremesso o telefone, mas permaneço segurando com um agarre firme. Respiro fundo uma, duas, três vezes. Meus olhos se inundando aos poucos. Eu estava o perdendo. Sabia que sim, e desta vez, não tinha feito nada. E não podia fazer nada. Pelo menos não agora. Suspiro derrotada. Outra hora, em outro momento, teríamos uma conversa. Olho uma última vez para aquele canteiro. O vento balançando as folhas pendidas para fora do vaso. Se elas sobreviveram ao inferno, esse relacionamento vai sobreviver. Eu vou sobreviver.

Respondo com um emoji a mensagem e vou para minha lista de contato. Disco o número e em um toque sou atendida.

— Espero que ainda dê tempo de ver minha fantasia — digo sorrindo.

— É isso ai garota!— Hannah uiva do outro lado da linha.— Me encontra na Skin em 30 minutos.— ela desliga ainda eufórica.

Candy Ou TravessurasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora